A competição não é justa
- 5 de ago.
- 3 min de leitura
Por Haroldo Zwetsch Junior
Treinador e consultor de alta performance no tênis

Todo pai já voltou de um torneio com a mesma frase na cabeça: “meu filho jogou melhor e perdeu”.
Todo treinador já viu o atleta mais preparado da semana cair na primeira rodada.
E toda criança, mais cedo ou mais tarde, descobre sozinha aquilo que os adultos evitam dizer: a competição não é justa.
A afirmação incomoda porque fomos educados a acreditar que o melhor sempre vence.
O esporte mostra o contrário todos os dias.
O jogador de melhor ranking perde. O mais talentoso é derrotado. Quem bate mais forte sai da quadra sem a vitória.
E isso não é um defeito do jogo.
É o jogo.
O QUE REALMENTE DECIDE UMA PARTIDA
Uma partida é atravessada por fatores que nenhum currículo controla: o estado emocional do atleta, a qualidade das decisões sob pressão, o vento, o piso, a bola, uma marcação duvidosa, uma chance desperdiçada ou simplesmente um adversário vivendo um dia extraordinário.
No tênis, não vence quem é considerado melhor.
Vence quem consegue ser melhor naquele momento.
O ranking descreve o passado; o placar descreve o dia.
POR QUE ISSO FORMA
É justamente aí que a competição se torna insubstituível.
Ela coloca o atleta diante de situações que nenhum treino reproduz por completo: a pressão real, a incerteza, o medo de errar, a necessidade de decidir em menos de um segundo e a responsabilidade por cada ponto.
Nada disso se ensina em uma conversa.
Só se aprende competindo.
E, naturalmente, isso desperta emoções intensas — frustração, revolta, ansiedade, sensação de injustiça —, sobretudo nas categorias infantis e infantojuvenis.
O MAIOR RISCO DA FORMAÇÃO ESPORTIVA
O risco não está na emoção da criança.
Está na reação do adulto.
Quando toda derrota é explicada por um fator externo — o árbitro, a chave, o adversário, a organização —, o jovem atleta aprende uma lição perigosa: a de que o resultado nunca depende dele.
E quando os adultos tentam eliminar cada dificuldade do caminho, acabam impedindo o desenvolvimento da competência mais decisiva do esporte: a capacidade de lidar com a adversidade.
Proteger em excesso alivia a derrota de hoje e adia o crescimento de amanhã.
Autonomia, resiliência e maturidade competitiva não são transmitidas em uma conversa.
São construídas enfrentando situações difíceis.
UM AMBIENTE IMPERFEITO POR NATUREZA
O tênis é desafiador por natureza.
Há dias de vento e de calor intenso, chuva, atrasos, quadras diferentes, bolas duvidosas, mudanças de ritmo, erros próprios, acertos do adversário e momentos em que simplesmente nada acontece como foi planejado.
Faz parte da modalidade.
Faz parte da vida.
Talvez, então, seja mais preciso dizer: a competição não é injusta — ela apenas não é justa da forma como gostaríamos que fosse.
Ela não recompensa o currículo, o ranking nem a expectativa criada ao redor de um jogador.
Ela recompensa quem conseguiu entregar, naquele dia, o seu melhor desempenho.
O QUE ESTÁ, DE FATO, SOB CONTROLE
É isso que torna o esporte fascinante.
Cada torneio abre uma nova oportunidade.
Cada partida começa do zero.
Cada semana permite que um atleta diferente chegue mais preparado, mais equilibrado emocionalmente e mais capaz de transformar potencial em desempenho.
O foco, portanto, não deve estar em controlar aquilo que foge da nossa influência, mas em preparar o atleta para responder da melhor forma possível ao que a competição apresentar.
Competir não é buscar uma competição perfeita.
É estar pronto para um ambiente imperfeito.
Porque a competição não premia quem deveria vencer.
Ela premia quem conseguiu ser o melhor naquele momento.
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Perfeito, parabéns