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Dia do Tenista: a história por trás da data, os números de um esporte que move bilhões e o Brasil de volta ao mapa

  • 9 de jun.
  • 6 min de leitura

Neste 9 de junho, o Brasil comemora o Dia do Tenista. A data homenageia atletas, treinadores, árbitros e todos os que fazem parte da história e do desenvolvimento do esporte. Não tem o glamour de uma final de Grand Slam nem o peso de um recorde, mas serve para algo raro no calendário: parar e olhar o tênis por inteiro, do clube de fim de semana ao circuito que movimenta bilhões em cifras anualmente.



Por que 9 de junho? A pergunta sem resposta documentada

Aqui mora um mistério que poucos textos sobre a data admitem: ninguém sabe ao certo por que o Dia do Tenista cai no 9 de junho.


A explicação que circula com mais força tenta ancorar a escolha em 1913, ano de fundação da Federação Internacional de Tênis (ITF), apresentando o dia como marco da consolidação do esporte. Mas os registros oficiais não fecham essa conta. A ITF foi fundada em 1º de março de 1913, em Paris, na conferência inaugural da então International Lawn Tennis Federation. A entidade só passou a reger as regras do tênis mundial a partir de 1924. Não há registro de torneio internacional disputado em 9 de junho de 1913, e o campeonato daquele ano que aparece nas fontes brasileiras é outro: o primeiro estadual de São Paulo, sem vínculo com a federação internacional.


O tal campeonato de 1913, aliás, merece um parágrafo à parte, já que é justamente ele que costuma ser confundido com a origem da data. Naquele ano, três tenistas brasileiros organizaram o primeiro campeonato estadual de São Paulo, uma competição regular que substituía os torneios interclubes esporádicos realizados desde 1904. O domínio inicial, porém, foi todo dos ingleses, que haviam trazido o esporte. Só em 1918, cinco anos após a criação do torneio, um brasileiro venceu pela primeira vez: Maércio Munhoz, do Paulistano, que em 1930 fundaria a Sociedade Harmonia de Tênis. Munhoz, aliás, seria peça central na institucionalização do esporte: presidiu a Comissão de Lawn Tennis da APEA, instalada em 1916, e foi presidente da Federação Paulista de Tênis quando ela se oficializou, em 6 de março de 1924. O campeonato de 1913 foi, portanto, um marco do tênis paulista, não um torneio internacional, e nada tem a ver com o 9 de junho. 


Diferentemente de efemérides oficializadas por decreto, o Dia do Tenista não tem norma federal que o institua. E há um indício que aprofunda a suspeita de que se trata de uma data de calendário popular, e não de marco histórico: o 9 de junho é, ao mesmo tempo, o Dia do Porteiro, e a própria entidade da categoria reconhece que não se sabe ao certo as razões para a escolha específica do dia. Quando uma só data acumula homenagens sem origem rastreável, o mais provável é que a tradição tenha nascido da repetição, não de um evento fundador.


Nada disso diminui a data. Apenas a coloca no lugar certo: uma celebração consolidada pelo costume, abraçada por federações estaduais Brasil afora, que aproveitam o 9 de junho para homenagear quem vive o esporte.


Das raízes francesas ao berço fluminense

Sobre a modalidade em si, o terreno é mais firme. Embora haja indícios de que o tênis tenha surgido na França, entre os séculos XII e XIII, foi na Inglaterra do século XIX que ele se firmou, assumindo a forma conhecida hoje. O ancestral direto é o jogo chamado "tênis real" ou jeu de paume, ainda praticado como modalidade separada.


A chegada ao Brasil seguiu o roteiro de quase todo esporte do período: veio na bagagem de ingleses e da elite que estudara na Europa, ainda no fim do século XIX. O berço, ao contrário do que costuma se repetir, não foi São Paulo. A primeira quadra de tênis para a prática esportiva no país foi construída em Niterói, no Rio de Janeiro, no fim da década de 1880, no Rio Cricket. Só depois, em 1892, veio o São Paulo Athletic Club. As datas exatas variam conforme a fonte, sinal da imprecisão dos registros da época, mas o pioneirismo fluminense é o ponto em que a literatura mais séria converge.


A partir daí, o esporte se espalhou. No início do século XX já havia tênis em clubes de Recife, Salvador, Santos e Itajaí, e em 1904 foi realizada a primeira competição oficial, um interclubes disputado em São Paulo. Vieram as federações estaduais e, em 1955, a Confederação Brasileira de Tênis. O Brasil estreou na Copa Davis em 1932 e conquistou seu primeiro título internacional em 1937, com Alcides Procópio.


O esporte em números: 106 milhões de pessoas e contando

Se a data é brasileira, o esporte é planetário. E os números ajudam a dimensionar do que se trata.


O terceiro Global Tennis Report da ITF, divulgado no fim de 2024, revelou que a participação mundial saltou para 106 milhões de praticantes, um aumento de 25,6% em apenas cinco anos. O levantamento, o maior já feito sobre o tema, reuniu dados de associações de mais de 199 países. Para efeito de comparação, o primeiro relatório, de 2019, estimava 87 milhões de jogadores.


A geografia do tênis também surpreende quem só acompanha o circuito pela TV. No mapa de 2017, a China registrava o maior número de praticantes, com cerca de 22,5% do total mundial, seguida por Estados Unidos (20,7%) e Índia (9,2%). A divisão por gênero é relativamente equilibrada: a fatia de jogadoras hoje é de 40,3%, com a meta declarada da ITF de elevar a participação global a 120 milhões até 2030.


No Brasil, os dados são mais modestos, mas reveladores. Segundo a Confederação Brasileira de Tênis, o esporte tem cerca de 2 milhões de praticantes no país e promove em torno de 370 torneios anuais. Desses 2 milhões, apenas 33.675 são registrados na entidade, ou seja, 1,68% são considerados profissionais. O custo de entrada explica parte da elitização histórica da modalidade. Os valores para começar a praticar vão de R$ 900 a R$ 4 mil, barreira que ajuda a entender por que o país produz tão poucas referências de ponta.


As cifras do topo: onde o tênis vira indústria

Na elite, os valores ganham outra dimensão. O Grand Slam que acaba de se encerrar é um bom retrato. Roland Garros 2026 distribuiu um recorde de 61,723 milhões de euros em premiação, com 2,8 milhões de euros para cada campeão de simples. Em dólares, o vencedor levou cerca de 3,27 milhões, valor 10% maior que no ano anterior.


E Roland Garros nem sequer é o major mais generoso. Entre os Grand Slams, o torneio francês fica em terceiro lugar na premiação ao campeão de simples, atrás de Wimbledon e do US Open, mas à frente do Australian Open. O próximo da fila já tem cifra reservada: Wimbledon teve um bolo de premiação de cerca de 73,5 milhões de dólares em 2025.


Mas a bonança não é unanimidade. Por trás dos cheques recordes, cresce um impasse. Os principais jogadores estimam que o prêmio de 2026 representa cerca de 15% da receita total de Roland Garros, bem abaixo dos 22% que reivindicam. Um grupo de astros, incluindo Carlos Alcaraz e Coco Gauff, apoia o pedido de reforma, argumentando que os atletas são os principais motores do sucesso comercial do esporte. A discussão deve atravessar a temporada.


O Brasil tem motivo extra para celebrar

A data costuma evocar os dois nomes maiores do tênis nacional. Maria Esther Bueno, a maior tenista brasileira de todos os tempos, foi número 1 do mundo em 1959, 1964 e 1966. Gustavo Kuerten, o Guga, é reconhecido pela ATP como o maior expoente do esporte no país.


O passado nos dá orgulho, o presente alegrias e o futuro traz esperança. João Fonseca, aos 19 anos, chegou à 25ª posição do ranking da ATP após a campanha até as quartas de final de Roland Garros e passou a ocupar o posto de tenista mais bem colocado de toda a América do Sul. Foi o melhor resultado de um brasileiro no torneio francês desde os tempos de Guga.


E ele não vem sozinho. A base promete: o goiano Guto Miguel, de 17 anos, foi campeão juvenil em Roland Garros e assumiu a liderança do ranking da ITF na categoria. Victória Barros e Naná Silva estão entre as 7 melhores tenistas adolescentes do mundo. Leonardo Storck, Clara Coura e Eduarda Gomes são outras promessas que compõem uma geração valorosa e que, pela primeira vez em muito tempo, é fila, e não exceção.


Um Dia do Tenista, no fim das contas, não precisa de um resultado para existir. Mas ajuda. E neste 9 de junho, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil tem um nome no presente, e outros tantos no futuro.

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