Ele chegou à Espanha com cinco euros no bolso. Hoje comanda a seleção brasileira de padel
- 4 de ago.
- 6 min de leitura
O próximo compromisso é em casa. Brasil e Equador se enfrentam pela America Padel Cup 2026 nos dias 14, 15 e 16 de agosto, em Itajaí, com a seleção masculina adulta comandada por Pablo Lima. É o primeiro de três eventos que fazem de 2026 um dos anos mais movimentados da história recente da modalidade no país.
Depois de Itajaí vêm os XIII Jogos Sul-Americanos, em Santa Fé, na Argentina, com o padel disputado entre 22 e 25 de setembro. É a estreia da modalidade na competição, e a Confederação Brasileira de Padel, a Cobrapa, tratou a inclusão com entusiamo, sendo mais um passo do esporte dentro do Movimento Olímpico.
Em novembro, de 2 a 7, vem o Campeonato Mundial por Equipes, no Catar, no Khalifa International Tennis & Squash Complex, com 16 seleções masculinas e 16 femininas e premiação de 1,2 milhão de euros, dividida igualmente entre homens e mulheres. É a maior bolsa já oferecida em uma competição oficial de padel.
Entre os convocados por Lima para Itajaí está Diogo Rodrigues, 19 anos, quinto do ranking da Associação dos Padelistas Brasileiros e campeão recente do BPT Master de Santa Rosa ao lado do argentino Gonzalo Frete. Na sub-18 masculina, Lucca Carlesso, campeão pan-americano no México e vencedor de etapas do FIP Promises em Perugia, na Itália, e em Setúbal, em Portugal.
O clima não é exatamente de tranquilidade. Em dezembro, na final da primeira edição da America Padel Cup, disputada em Joinville, o Brasil jogou em casa e perdeu por 9 a 0. Todos os nove pontos em disputa, em todas as categorias, ficaram com a Argentina. Nem a presença de Lucas Campagnolo, então 26º do ranking do Premier Padel, mudou a conta.
Antes disso, no Mundial de Doha em 2024, o primeiro sob o comando de Lima, o Brasil caiu nas quartas de final e terminou em oitavo, tanto no masculino quanto no feminino.
O homem que comanda a reconstrução

Quem assumiu esse cenário de incertezas é o único brasileiro que chegou ao número 1 do mundo no padel.
Pablo Lima desembarcou na Espanha aos 18 anos com cinco euros no bolso. Não é força de expressão nem licença poética de biografia: era o que ele tinha. Uma década depois, o gaúcho de Porto Alegre ocupava o topo do ranking mundial, e até hoje segue sendo o único brasileiro a ter feito isso.
Perguntado, em entrevista à VAVEL Brasil em outubro de 2017, sobre o que mais o havia ajudado a chegar ao topo, ele respondeu:
"Sinceramente, acho que o que mais me ajudou foi sempre ter força de vontade mesmo, isso nunca me faltou. Sempre acreditei muito no trabalho duro e isso eu posso dizer que é o meu ponto forte. Não tenho um super talento, mas consigo explorar bem as minhas qualidades."
Na mesma entrevista, Lima acrescentou um detalhe que raramente sobrevive quando a história é recontada: havia um patrocinador com promessa de dinheiro na chegada. Ele explicou que desembarcou na Espanha com apenas cinco euros mesmo, ainda que o patrocinador da época já houvesse combinado repassar um valor assim que ele aterrissasse.
O que não muda em nada é o resto. Para se sustentar nos primeiros anos, deu aula. Uma média de oito a nove horas por dia. E resumiu o próprio calendário de treinos em três palavras: "Treinava quando dava."
Enquanto isso, os adversários treinavam em tempo integral, com estrutura e patrocínio. Ele treinava no que sobrava.
Do Club Hormiga ao topo do ranking
Lima começou aos 9 anos, com o pai, no Club Hormiga, em Porto Alegre. Virou profissional ainda na adolescência e, aos 18, fez a aposta que definiu tudo. A travessia teve um padrinho, o argentino Roby Gattiker, lenda do esporte que se impressionou com o estilo e a dedicação do brasileiro e o levou ao circuito espanhol, virando seu parceiro nas temporadas de 2006 e 2007.
A primeira explosão veio em 2008, ao lado do compatriota Marcello Jardim: 14 quartas de final e 4 semifinais, mesmo lidando com uma lesão. Depois veio Juani Mieres, e com ele o apelido que resume bem a posição dos dois no organograma da modalidade. Eram "Los Príncipes", os eternos segundos atrás dos reis Fernando Belasteguín e Juan Martín Díaz. Príncipes que, em algum momento, conseguiram bater os reis.
Em 2015, com a dissolução da dupla Belasteguín/Díaz, Lima passou a jogar com o próprio Bela. Os dois dominaram o circuito até 2018 e somaram 36 títulos oficiais juntos, marca que hoje serve de régua para comparar Arturo Coello e Agustín Tapia. Sobre por que o encaixe foi imediato, Lima creditou à convergência de mentalidade e ao fato de que, em nenhum momento, um dos dois quis se sobressair ao outro.
Ao todo, foram 68 títulos somando Padel Pro Tour, World Padel Tour e Premier Padel, dos quais 50 apenas no WPT, além de 450 partidas vencidas no circuito. Nenhum outro brasileiro chegou perto.
A despedida na Caja Mágica
O fim veio antes do previsto. Lima anunciou em fevereiro de 2023 que aquela seria sua última temporada, com data marcada para dezembro. Em agosto, em entrevista ao jornal espanhol Marca, antecipou tudo para setembro, alegando não conseguir mais jogar em bom nível e preferir dar um passo ao lado a competir tão limitado.
O cenário escolhido foi a Caja Mágica, em Madri, no WPT Comunidad de Madrid Master. Ao lado do argentino Agustín Gómez Silingo, caiu para Juan Lebrón e Alejandro Galán por 6/3 e 6/3. Saiu de quadra ovacionado, com o filho no colo, e abriu o discurso avisando que vinha se preparando havia cinco dias para não chorar, sem garantir que fosse conseguir.
Não conseguiu. E encerrou dizendo que sempre respeitou o esporte ao máximo, que se entregou, e que acredita não poder ter sido um jogador melhor do que foi. A frase final, dita em espanhol diante do público de Madri, virou profecia: dizia adeus dentro da quadra, mas esperava seguir vinculado ao esporte.
A repercussão veio de todos os cantos do circuito: ex-parceiros, adversários, técnicos, instituições e imprensa especializada. Ale Galán, que já formou dupla com ele e foi seu adversário na última partida, publicou que Lima deixava um legado impecável e um caminho a seguir para os mais jovens.
Quem saiu com cinco euros voltou para formar os próximos
Seis anos antes, Lima havia sido perguntado sobre o que imaginava para a vida depois do padel. Ele não titubeou: gostaria de seguir vinculado ao esporte, porque era o que fazia desde muito pequeno e achava que poderia contribuir de várias maneiras.
Cumpriu, e antes até do previsto. Em outubro de 2023, um mês depois de pendurar a raquete, Lima foi eleito presidente da Professional Padel Association por unanimidade: 37 votos a favor, nenhum contra, entre os 42 associados presentes ou representados. Assumiu no lugar de Ale Galán, de quem era vice, para cumprir os dois anos restantes do mandato, previsto até 2025.
Menos de um ano depois veio o convite da Cobrapa. Em agosto de 2024, a confederação anunciou sua chegada ao comando da Seleção Brasileira Profissional de Padel, no lugar de Patric Vaz Leães, que pediu desligamento por razões pessoais após dois anos no cargo. Lima já vinha dando clínicas no Brasil com alguns dos melhores jogadores do país, aproveitando a aposentadoria recente e o retorno ao território nacional. Assumiu a apenas 19 dias da convocação para o Mundial de Doha.
Ao Portal Super Padel, na época, explicou que aceitou porque os anos de circuito lhe deram uma experiência que podia somar, e porque tinha boa relação tanto com os jogadores quanto com o próprio Patric. Sobre condições para topar o cargo, foi seco: "Nenhuma condição especial, a que qualquer treinador pediria que é ter total autonomia para realizar o trabalho."
Definiu o objetivo em Doha de um jeito que não prometia colocação nenhuma: queria uma equipe preparada e disposta a deixar tudo em quadra, tanto na preparação quanto na competição. E avisou, sobre os critérios de convocação, que se apoiaria em nível técnico, mental e físico. "O que não implica que seja do agrado de todos. Sou plenamente consciente."
A academia em Camboriú
O trabalho de formação ganhou nome e endereço fixo em dezembro de 2025, com a oficialização da Pablo Lima Padel Academy, sediada no Delta Padel, em Camboriú, a menos de uma hora de Itajaí. Ele comanda a estrutura diretamente, com Tainan Garcia como técnico assistente.
A academia não recebe qualquer perfil de jogador. O recorte é deliberado: profissionais, atletas de segunda categoria e jovens em fase competitiva, agrupados por níveis compatíveis. Em 2025, os treinos aconteciam de terça a quinta. Em 2026, passaram a ocorrer de segunda a quinta, manhã e tarde. Atletas de fora que passam por Camboriú também podem emendar uma semana de treino intensivo.
Em entrevista ao Padel Cast BR, Lima descreveu a filosofia do projeto em quatro pilares: técnica, tática, mentalidade e caráter. Rejeita métodos rígidos, e defende que cada jogador precisa encontrar a forma que melhor se adapta ao próprio jogo. Sobre o quarto pilar, foi enfático: caráter e comportamento pesam tanto quanto técnica. O objetivo declarado é formar atletas que entendam o jogo, decidam bem sob pressão e mantenham postura competitiva e honesta, dentro e fora da quadra.
O nome gravado em Madri
O reconhecimento internacional seguiu chegando. Em junho de 2026, Lima teve as mãos gravadas no Legacy Plaza, no clube Mad4Padel, na região metropolitana de Madri. O espaço, inaugurado em 2025, só admite quem passou pelo top 8 do ranking mundial, e reúne nomes como Belasteguín, Paquito Navarro, Juan Martín Díaz, Marta Ortega e Arturo Coello.
O nome dele já está gravado lá fora. O trabalho agora é fazer o mesmo com os que vêm depois, e a agenda de 2026 começa daqui a dez dias, a poucos quilômetros de casa.
.png)
%20(Site)_gif.gif)



Comentários