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Sirenes, mísseis e tenistas presos: como a guerra no Oriente Médio invadiu o circuito

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

O tênis sempre tentou viver dentro de uma bolha. Dubai era o exemplo perfeito: sol garantido, estrutura de primeiro mundo, público sofisticado, cachê generoso. Até o último sábado, quando os EUA e Israel atacaram o Irã e Teerã revidou com mísseis e drones contra países da região, incluindo os Emirados Árabes. A bolha estourou. E o circuito acordou no meio de uma guerra.


Nesta terça-feira, enquanto Indian Wells se prepara para dar a largada ao primeiro Masters 1000 da temporada, dezenas de tenistas ainda estão presos no Oriente Médio sem previsão de saída. O espaço aéreo dos Emirados está fechado desde sábado. A Emirates e a Flydubai cancelaram todos os voos até a publicação desta matéria. Nenhuma garantia para depois disso.


"Podia ouvir o som dos aviões enquanto jogava"

Fujairah Challenger
Foto: Reprodução

Em Fujairah, cidade portuária a cerca de 130 quilômetros de Dubai, o cenário foi ainda mais perturbador. O Challenger da cidade parou no meio de uma rodada nesta terça quando a sirene de ataque aéreo soou nas instalações do torneio. Todos os jogos foram imediatamente suspensos e os atletas, evacuados.


O motivo era concreto: um depósito de petróleo localizado a aproximadamente dez quilômetros das quadras foi atingido por destroços de drone. Duas partidas do quali estavam em andamento quando o alarme disparou. Outras duas do quali e sete da chave principal aguardavam vez. Ninguém sabe se o torneio vai continuar.



O ucraniano Vladyslav Orlov terminou sua partida do quali antes da paralisação, mas não sabia se veria a chave principal. "Terminei minha partida, mas a rodada foi suspensa porque recebemos e-mails relatando bombardeios a dez quilômetros de distância", contou.


"Enquanto eu jogava, podia ouvir o som de aviões sobrevoando e ruídos perto das quadras. Então, neste momento, não é muito seguro estar aqui", concluiu.


Para o espanhol Imanol López, que disputava o torneio de Fujairah, a situação ultrapassou o que ele considerava possível nos Emirados. "As partidas foram suspensas e estamos todos no hotel neste momento. Tudo isso é muito complicado. Pensávamos que era impensável que isso pudesse acontecer aqui nos Emirados, mas, por enquanto, estamos vivenciando isso em primeira mão", disse López ao Marca.


O espanhol já havia avisado a família que estava bem. Mas "bem" é relativo quando você abre as cortinas do quarto e vê caças em movimento. "É difícil manter a calma quando se vê aviões de guerra e helicópteros sobrevoando e caças em constante movimento", afirmou. "Tenho contatos na região de Dubai que me dizem que nada vai acontecer e isso acaba tranquilizando, mas estar dormindo e ter que abrir as cortinas por causa de aviões de guerra e caças é difícil de aceitar", completou.



Medvedev, Rublev e a fuga que (ainda) não aconteceu

Em Dubai, o cenário para os nomes grandes do circuito é de espera e incerteza. Daniil Medvedev, que conquistou o título do ATP 500 local no sábado via W.O. de Tallon Griekspoor (retirado com lesão no posterior da coxa), foi um dos primeiros a atualizar o mundo sobre sua situação. Ele estava no hotel com esposa, filhos e equipe.


"A situação é incomum, mas basicamente o único problema é que o espaço aéreo está fechado", declarou Medvedev ao portal russo Bolshe! Tennis. "Ninguém sabe quando poderemos decolar. Não está claro se isso vai durar muito ou não. Por isso estamos esperando para ver o que acontece nas próximas horas ou dias." Sobre os inúmeros contatos preocupados: "Recebi muitas mensagens de amigos e família, todos preocupados. Mas posso dizer que, do meu lado, está tudo bem."


Também presos em Dubai estão Andrey Rublev (semifinalista em Dubai), o próprio Griekspoor, os campeões de duplas Harri Heliövaara e Henry Patten, os vice-campeões de duplas Marcelo Arévalo e Mate Pavić, além de jornalistas, árbitros e membros da organização do torneio. Ao todo, mais de 40 pessoas ligadas ao circuito ATP seguem retidas nos Emirados.


A ATP convocou uma reunião de emergência e chegou a oferecer transporte terrestre: uma rota de seis horas até Mascate, em Omã, ou dez horas até Riade, na Arábia Saudita, de onde sairiam jatos privados em direção à Turquia, Armênia e, depois, Los Angeles. Segundo o Marca, a maioria dos jogadores, incluindo Medvedev, recusou as opções. Os riscos nas estradas e a incerteza nas fronteiras pesaram na decisão, assim como um briefing de segurança conduzido pela ATP com especialistas locais.


A resposta da ATP foi protocolar e esperada: "A saúde, a segurança e o bem-estar dos nossos jogadores, staff e pessoal dos torneios são nossa prioridade. Estamos em comunicação direta com os afetados, com os organizadores do torneio e com consultores de segurança. Os arranjos de viagem continuam sujeitos à avaliação contínua, de acordo com as operações das companhias aéreas e as orientações oficiais."


Na prática: os jogadores estão no hotel, com tudo pago, e não há janela definida de saída.


Rune, em Doha, entre mísseis e fisioterapia

A situação de Holger Rune é diferente, mas igualmente angustiante. O dinamarquês está em Doha, no Catar, onde faz a reabilitação de uma ruptura no tendão de Aquiles sofrida em outubro no centro especializado Aspetar. Quando os mísseis iranianos atingiram bases americanas no Catar e a região, Rune estava lá.


Sua mãe, Aneke Rune, descreveu a noite ao canal dinamarquês TV2 Sport sem poupar detalhes. "Foi um pesadelo. Dormimos muito pouco. A escuridão tornava tudo mais aterrorizante, com explosões constantes e rastros de fogo no céu. Buscamos conforto na recepção, onde a equipe do hotel foi excepcional, antes de finalmente conseguirmos descansar no quarto", relatou.


Sobre o estado emocional do filho: "Holger estava apavorado. Estamos inundados de imagens e notícias de ataques por todos os lados. Nosso voo de hoje foi obviamente cancelado e, no momento, não temos certeza de quando poderemos sair do país."


O relógio corre para Indian Wells

O problema imediato é Indian Wells. O main draw começa nesta quarta-feira (04/03), mas Medvedev (11º do mundo), Khachanov (16º) e Rublev (17º) são cabeças de chave e só entram em ação a partir de sexta ou sábado. Há, portanto, uma janela. Apertada, mas existe.


O aeroporto de Dubai anunciou uma reabertura parcial na segunda-feira (02/03), o que gerou alguma esperança. Mas voos de roteiro novo, com conexões incomuns para chegar à Califórnia a tempo, dependem de confirmação operacional que ainda não veio. Medvedev e Rublev já foram retirados do Eisenhower Cup, a exibição de duplas mistas realizada nesta terça em Indian Wells. Nos lugares deles, entram Alexander Bublik (que conseguiu escapar de Dubai pouco antes do fechamento do espaço aéreo, segundo o Yahoo Sports) e Learner Tien.


O draw já foi feito com os russos incluídos. Se não chegarem a tempo, a lista de desistências do torneio, que já soma 17 nomes, vai crescer bastante, e de forma bastante incomum.



1 comentário

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Tatalo Osório
há um dia
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Ótimos esclarecimentos. Parabéns pelo texto.

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