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A matemática por trás das vitórias na ATP: entre acertar e errar o primeiro saque existem 16 pontos percentuais

  • há 28 minutos
  • 11 min de leitura

Alexander Zverev disparou 14 aces nas oitavas de final de Cincinnati, nesta quarta-feira, e foi eliminado por Tommy Paul, por 4/6, 7/6(6) e 6/4. O resultado resume o que as estatísticas do circuito vêm apontando há anos: o tênis masculino de 2026 não é decidido por quem saca mais forte, e sim por quem coloca mais primeiros saques em quadra.


Tenista de azul e boné New Balance em quadra, olhando de lado com ar atento; arquibancadas desfocadas ao fundo.
Tommy Paul (Foto: Cincinnati Open)

Aces e duplas faltas quase não têm poder preditivo. Num levantamento sobre 2.781 partidas do circuito em 2019, compiladas por Jeff Sackmann, o vencedor da partida disparou mais aces que o perdedor em apenas 55% dos casos, com mediana de 6 contra 4. Nas duplas faltas, o perdedor cometeu mais que o vencedor em menos da metade das partidas. O saque decide, sim. Só que decide por outra via.


A própria ATP dimensiona isso na métrica Serve Effectiveness, que mede com que frequência o serviço já entrega vantagem no ponto. A média do circuito no primeiro saque é de 58%, dividida assim: 16% de aces, 22% de saques não devolvidos e 20% de primeira bola em ataque. No segundo saque, a mesma métrica desaba para 23%. Ou seja: dos 58 pontos percentuais de vantagem que o primeiro serviço produz, o ace responde por menos de um terço. O resto vem de devolução fraca, ou de devolução que volta e já chega perdida.


"Seu primeiro saque é, sem dúvida, um dos melhores do circuito e sua porcentagem de acertos não ajuda em nada quem recebe a devolução. Mas acho que tentei tirar proveito do seu segundo saque, deixá-lo um pouco desconfortável, mudando minha posição na quadra e interceptando algumas bolas no início da partida", disse Paul ao Tennis Channel.

"Depois, comecei a recuar e a apresentar diferentes estratégias, tentando usar a velocidade, alongar os pontos e fazê-lo correr bastante. Esse foi, mais ou menos, meu plano de jogo", acrescentou.


Está tudo ali. Contra o primeiro saque, não há plano. Contra o segundo, há.


A precisão vale mais que a potência

Quando o primeiro serviço entra, o sacador vence 73,2% dos pontos. Quando precisa recorrer ao segundo, cai para 57,2%. A média geral do sacador fica em 64,8%. Dezesseis pontos percentuais de diferença entre acertar e errar a primeira bola, num circuito em que uma quebra por set decide quase tudo.


O mesmo estudo mostra onde essa distância é construída: cerca de 68% dos primeiros saques que entram caem perto das linhas laterais da área de saque, contra menos de 31% dos segundos. O primeiro saque é um golpe de precisão. O segundo é um golpe de sobrevivência. É por isso que a conta não fecha pela velocidade: acertar o alvo com frequência vale mais do que acertá-lo com força.


O caso mais limpo é o do número 1 do mundo. Num levantamento da série Infosys ATP Beyond The Numbers publicado em 28 de março, a ATP mostrou que Jannik Sinner chegou às semifinais de Miami confirmando 94% dos games de saque, contra 92% em 2025, que já havia sido a melhor temporada de serviço da carreira dele. A mudança não veio da potência: veio da mira. Os primeiros saques dentro da quadra subiram de 61,9% para 67,5%, o melhor índice que ele já registrou.


O detalhe que fecha o argumento está no outro lado do fundamento. No mesmo período, Sinner venceu menos pontos atrás do segundo serviço do que em 2025, caindo de 59,1% para 57,8%. Piorou na segunda bola e mesmo assim subiu dois pontos no índice de games confirmados, porque simplesmente passou a precisar dela com muito menos frequência.

O retrato disso apareceu na semifinal de Miami contra o próprio Zverev: 74% de primeiros saques dentro, 78,9% de aproveitamento neles, 15 aces e nenhuma quebra sofrida. Não é um saque novo. É o mesmo saque acertando mais vezes.


Simone Vagnozzi, um dos treinadores do italiano, já havia descrito o processo. "No saque, mudamos muita coisa depois do US Open", disse ele ao fim do ATP Finals de 2025, em tradução livre. John Isner, dono de 91,8% de games confirmados na carreira, identificou a alteração técnica: Sinner trocou a base platform pela pinpoint, mudança que parece simples e não é.


O padrão se repete no segundo do ranking. Num levantamento da mesma série publicado em 25 de fevereiro, a ATP registrou que Carlos Alcaraz abriu 2026 com 12 vitórias em 12 jogos e 90,8% de games confirmados, contra 87,6% em 2025, com a média de aces praticamente parada, de 5,8 para 6,1 por partida. O que se mexeu foram os primeiros saques dentro: de 64,2% para 68,3%. Dois jogadores diferentes, dois corpos diferentes, dois treinadores diferentes. A mesma alavanca.


E vale olhar para quem foi eliminado nesta quarta. Na lista de sacadores compilada pelo LiveTennis em junho, Zverev figura entre os cinco primeiros justamente por ter o melhor percentual de primeiros saques dentro entre os dez melhores, numa estratégia que existe para reduzir ao mínimo a exposição ao segundo serviço.


E foi exatamente aí que Paul mirou. Não no braço de Zverev. Na aritmética dele.


O topo da tabela ficou irreconhecível

Ivo Karlovic, com 2,11 metros, detém o recorde de games de saque confirmados numa temporada completa: 95,5% em 2015. Apenas três vezes na história alguém passou dos 94% num ano, e a lista tem Karlovic duas vezes e John Isner uma. Sinner tem 1,90 metro e está em 94,3% no ano, segundo levantamento da ATP em maio. Se sustentar até dezembro, entra num clube que até hoje só aceitou gigantes.


Para dimensionar o abismo entre ele e o resto, vale olhar como estava a fila em outubro de 2025. Sinner tinha 91,5%, e ninguém mais passava de 89,3%: Giovanni Mpetshi Perricard e Taylor Fritz empatados nessa marca, Reilly Opelka com 89% e Novak Djokovic com 88,5%. Nenhum dos cinco melhores sacadores aparecia entre os cinco melhores devolvedores.


O segundo saque, o assunto que não se mexeu

Aqui a narrativa fácil quebra a cara.


Sackmann examinou a tese de que o segundo serviço estaria virando inútil no tênis moderno e encontrou o oposto do movimento: o aproveitamento em pontos de segundo saque praticamente não se alterou desde 1991, com variação total de três pontos percentuais entre o maior e o menor índice anual, metade dela antes da virada do século. A taxa de duplas faltas também não subiu, o que indica que ninguém está assumindo mais risco na segunda bola. Ele chegou a batizar de "1 e 1,5" a estratégia que faria sentido matemático, com segundos saques mais fortes e mais duplas faltas aceitas como custo, e concluiu que o circuito ainda não chegou lá.


O mesmo analista mediu, no outro fundamento, o movimento contrário. A taxa média de aces do circuito subiu de menos de 7% em 1991 para mais de 10% hoje, e o efeito sobrevive ao controle: num grupo fixo de 15 torneios que existem no mesmo lugar desde 1991, a alta é de 1,6% ao ano. O ace não decide a partida, mas serve de termômetro. E o termômetro mostra que a evolução aconteceu inteira do lado da primeira bola.


O tênis ficou mais dominado pelo saque sem que o segundo saque mudasse. O que aumentou não foi a coragem. Foi a pontaria. E é por isso que a segunda bola continua sendo o único lugar da quadra onde um devolvedor ainda tem plano de jogo.


Shelton, a exceção que confirma a régua


É nesse vácuo que aparece o gráfico assinado por Lev Akabas com dados da TennisViz e da Courtside Advantage, que cruza, nas últimas 52 semanas e entre os 32 melhores do mundo, o percentual de primeiros saques não devolvidos com o de segundos. A nuvem se comporta. Ben Shelton, não: aparece sozinho acima da faixa dos 26% no eixo dos segundos serviços, enquanto o segundo colocado não passa dos 21%.


Dados do Tennis Abstract compilados pelo Last Word on Sports em julho chegam ao mesmo lugar por outro caminho: entre o top 10, Shelton lidera isolado o índice de segundos saques não devolvidos, com cerca de três pontos de folga, ao custo de uma taxa de duplas faltas pouco abaixo de 10%.


E não é força bruta. Ao mapear a direção dos segundos saques, Sackmann encontrou em Shelton o oposto da previsibilidade: onde Arthur Fils concentra 68,3% das bolas do lado da vantagem numa única direção, o americano distribui 43,4% abertas, 35,0% no corpo e 21,6% no meio. "Tanto Shelton quanto Djokovic variam muito mais", escreveu o analista, em tradução livre. É o segundo saque que não oferece endereço fixo. Contra ele, o plano de Paul não existiria.


Isso levou Shelton até onde os números prometiam. No dia 13, ele defendeu o título de Montreal batendo Brandon Nakashima por 6/3 e 7/6(4), sem perder um set em seis partidas. Foram 1h27, nenhum break point cedido e um saque cronometrado a 228,5 km/h. Voltou ao número 6 do mundo.


Três dias depois, o mesmo jogador perdeu na estreia em Cincinnati.


Cincinnati, o laboratório da semana

Segundo o banco de dados do TennisMattch, que reúne 3.446 partidas do torneio, Cincinnati produz em média 5,56 aces por jogo, cerca de 11% acima da média do circuito, com 70,59% de aproveitamento no primeiro serviço e conversão de break points em 43,47%, quase um ponto abaixo da média geral. É uma quadra que paga bem quem saca. E foi ali que a tese exibiu as duas faces.


Shelton, cabeça de chave 8, caiu por 6/4 e 6/4 para o português Jaime Faria, 79º do mundo e vindo do qualifying, em 1h53. Converteu 1 de 12 break points, segundo o Infosys ATP Stats. Faria salvou os nove break points que enfrentou só no primeiro set. O americano cometeu 26 erros não forçados contra 14 winners e perdeu o serviço três vezes. A derrota custa 190 pontos e o empurra para pelo menos a oitava posição do ranking.


Não foi o saque de Shelton que falhou primeiro. Foi a devolução. Num circuito em que quase ninguém é quebrado, uma única quebra decide o set, e quem desperdiça onze chances perde.


O resto da chave contou a mesma história por outras vias. Zverev abriu o torneio contra Cameron Norrie disparando 16 aces, vencendo 85% dos pontos de primeiro serviço e confirmando 12 dos seus 13 games de saque. Norrie salvou 12 dos 15 break points que enfrentou, aproveitamento de 80%, e perdeu mesmo assim. Na rodada seguinte, o alemão precisou de dois tie-breaks para superar Terence Atmane, 7/6(4) e 7/6(6), com o francês salvando um match point com um ace aberto. Félix Auger-Aliassime venceu 90% dos pontos de primeiro serviço contra Juan Manuel Cerúndolo, 28 de 31. E Thiago Agustín Tirante eliminou Novak Djokovic com 13 aces e 40 winners.


A corrida de Faria terminou nas oitavas, contra Lorenzo Musetti, e terminou pelo mesmo motivo que sustenta esta matéria: o italiano venceu por 7/5 e 6/2 em 1h16, com seis aces, 79% de aproveitamento no primeiro serviço e 73% no segundo. Quando os dois lados do saque funcionam, não há plano de devolução que resista.


Como se derruba um grande sacador

Contra Paul, Zverev venceu o primeiro set por 6/4 e chegou a um ponto da vitória no tie-break do segundo. Uma pausa de quase 90 minutos por chuva, com o alemão à frente, mudou o clima do jogo. Zverev ainda abriu 4-2 no set decisivo antes de perder quatro games seguidos. Os 14 aces do alemão foram anulados por nove duplas faltas, e a diferença entre esses dois números é o retrato de um saque potente que parou de ser preciso na hora errada.


Não é uma estratégia de devolvedor clássico a que Paul descreveu. É a estratégia de quem sabe que vai ter três ou quatro oportunidades no jogo inteiro e precisa fabricá-las.

Paul também explicou, sem ser perguntado sobre estatística nenhuma, por que o circuito chegou até aqui. "Acho que o tênis evoluiu para um jogo muito mais potente, com muitos jogadores posicionados na linha de base batendo na bola com muita força. Há menos slices, menos golpes pesados, menos subidas à rede e menos saques e voleios. Então, acho que é algo que definitivamente me ajuda. Espero poder fazer isso com mais frequência", disse o atual número 24 do mundo.


Ele enfrenta agora o italiano Flavio Cobolli, que virou sobre Rafael Jódar por 4/6, 7/6(3) e 6/3, e busca a quinta semifinal de Masters 1000 da carreira. "Nunca estou satisfeito. Espero que meus melhores dias ainda estejam por vir no US Open. Seria o ideal", disse.


Sobre o adversário, foi generoso a ponto de perceber o exagero no meio da frase: "Agora vou enfrentar o Cobolli, que melhorou muito nos últimos meses. Ele se movimenta bem, tem um ótimo saque, um ótimo forehand e é um jogador muito atlético. Acho que estou elogiando-o demais agora, mas terei que jogar um pouco melhor do que ele. Acho que será uma partida atlética e divertida."


O americano revelou ainda que vem treinando para se posicionar melhor no ataque com o forehand. "Temos trabalhado para bater na bola com muita intensidade, mudar de direção e tentar dominar mais os pontos com o forehand", comentou.


O contra-argumento está na devolução

Se o saque explicasse tudo, o número 1 do mundo seria um armário de dois metros que nunca devolve nada. Não é o caso.


Em 2025, Sinner se tornou o primeiro jogador desde o início dos registros estatísticos da ATP, em 1991, a liderar o circuito simultaneamente em percentual de games de saque confirmados (92%) e de games de devolução vencidos (32,63%). O contraste é brutal: entre as dez melhores temporadas de saque desde 1991, apenas uma teve mais de 12,3% de games de devolução vencidos, a de Nick Kyrgios em 2022, com 19,5%. Sinner fez 31,9% até maio deste ano.


Quer dizer: a precisão no primeiro saque é o que separa quem sobrevive de quem não sobrevive. O que separa quem sobrevive de quem domina ainda é a devolução.

E o próprio protagonista mantém o assunto aberto. Depois de estrear no Australian Open, disse que ainda não se sentia seguro com as mudanças no seu movimento de serviço. "O saque era e ainda é um golpe em que preciso melhorar", afirmou o italiano em coletiva reproduzida pela BBC, em tradução livre.


As quadras entraram na conta

Existe uma terceira variável, e ela é política. Roger Federer sustentou, no podcast de Andy Roddick, que os diretores de torneio vêm desacelerando as quadras porque condições mais lentas reduzem a chance de zebra e protegem os melhores. Zverev endossou a teoria em Xangai, dizendo que os organizadores "querem que Jannik e Carlos vão bem em todos os torneios", em tradução livre. Os dados de Court Pace Index deram alguma razão à queixa: o Masters de Paris caiu de 46,6 em 2024 para 35,1 em 2025. O diretor do torneio, Cedric Pioline, confirmou que a desaceleração foi intencional.


Taylor Fritz aponta para outro lado. Numa sessão de perguntas e respostas com a revista Wired, em junho, argumentou que as quadras não mudaram de velocidade, e sim as bolas. "As bolas são substancialmente mais lentas do que quando comecei a jogar", disse o americano, em tradução livre da entrevista reproduzida pelo TennisUpToDate. Segundo o mesmo veículo, Fritz ligou a mudança de material à necessidade de mais variação no segundo saque.


Piso mais lento, bola mais lenta, e mesmo assim mais aces do que em 1991.


O ângulo brasileiro: o saque é a fronteira de Fonseca, e o corpo é o obstáculo

João Fonseca aparece no gráfico de Akabas em posição razoável para um jogador de 19 anos: praticamente sobre a linha da média do circuito no primeiro saque e acima da média no segundo, na casa dos 19%. Num circuito em que a média não basta, o serviço virou a fronteira da sua carreira. O problema desta temporada é que ele nem sempre chega até lá.


Nas oitavas de Montreal, no dia 9, perdeu para Shelton por 6/3 e 7/6(3) em 1h48. Segundo levantamento do portal Surgiu, terminou sem nenhum ace, contra cinco do adversário. "Eu tive dois breaks logo no começo dos dois sets e joguei super mal", reconheceu o brasileiro em declaração ao TMC.


Em Cincinnati, a largada foi boa. Cabeça de chave 23, Fonseca bateu Botic van de Zandschulp por 6/4 e 7/6(2) em 1h47 e se tornou o primeiro adolescente a chegar à terceira rodada do torneio em anos consecutivos desde Michael Chang e Pete Sampras, em 1990 e 1991. Aí o corpo cobrou. Ele sentiu um incômodo no lado esquerdo do abdômen durante um treino e desistiu antes do duelo com o australiano Christopher O'Connell. É o quinto torneio que ele perde por lesão em 2026, de 18 inscrições, e ocupa hoje a 26ª posição do ranking.


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