ATP de Buenos Aires é comprado e deve virar quadra rápida em 2029
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O Argentina Open, torneio de tênis mais importante da história recente do país vizinho, vai mudar de dono — e, com ele, de superfície e de categoria. A licença do evento, hoje nas mãos da empresa espanhola Tennium desde 2017, passará para o controle da própria ATP. A venda já está "aprovada" e "só falta a assinatura", segundo fontes ouvidas pelo jornal argentino La Nación. A operação deve ser concluída nas próximas semanas.
A compra será financiada com recursos da SURJ, a divisão esportiva do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita — o mesmo que, a partir de 2028, terá seu próprio Masters 1000 no circuito masculino, com data prevista para fevereiro. Não é coincidência.
Do saibro para a quadra dura: o que muda e quando
Por enquanto, nada muda. O torneio permanecerá no Buenos Aires Lawn Tennis Club — há um contrato em vigor até 2033 — e disputará as edições de 2027 e 2028 no saibro, na categoria ATP 250, com a Tennium continuando na operação por cinco anos por contrato.
A virada está programada para 2029: o Argentina Open seria promovido à categoria ATP 500 e passaria a ser disputado em quadra dura. Uma transformação completa, de piso, de hierarquia e de identidade.
Se a mudança se confirmar, o investimento será considerável. O court central do BALTC completa 100 anos em outubro de 2026 e precisará de reformas estruturais para receber quadras duras onde hoje estão as de saibro. Hospitalidade, circulação, área comercial e praça de alimentação também terão de ser expandidas. Em contrapartida, a receita de um ATP 500 é significativamente maior do que a de um 250.
Por que isso está acontecendo agora
A chegada do Masters 1000 saudita reconfigurou o mapa do tênis masculino. O novo torneio não obrigatório, com 56 jogadores, será disputado em fevereiro — exatamente a mesma janela do Golden Swing sul-americano, o bloco de torneios em saibro que reúne Buenos Aires, Rio de Janeiro e Santiago.
Com os melhores jogadores do mundo sendo atraídos pelos pontos e pelos prêmios generosos de Riade, a gira sul-americana precisou se reinventar ou encolher. A ATP optou por um caminho ativo: comprar as licenças e reorganizar o calendário por dentro.
A estratégia não é nova. A entidade já havia recomprado no ano passado as licenças de Chengdu, Hong Kong, Metz e Moscou — quatro ATP 250 adquiridos com recursos próprios. Buenos Aires entra agora nessa lista, com a diferença de que o financiamento vem dos sauditas.
Segundo o jornal La Nación, o anúncio oficial do calendário 2028 deve acontecer em agosto próximo. Dois outros torneios também estão na mira: o ATP 500 de Acapulco e o ATP 250 de Los Cabos, ambos no México.
O fim de uma era para o Golden Swing
O Golden Swing existe, em sua configuração atual, desde o início dos anos 2000. O circuito sul-americano de saibro já foi maior: o Córdoba Open encerrou em 2024, o Ecuador Open em 2018, o Brazil Open em São Paulo não é realizado desde 2019. O próprio Acapulco, que fazia parte da gira, migrou para a quadra dura em 2014 pelos mesmos motivos que agora ameaçam Buenos Aires.
Com a confirmação da mudança, o Golden Swing perderia seu torneio-âncora no saibro. Rio e Santiago ficariam como os únicos representantes do piso lento sul-americano no calendário da ATP — e ambos já demonstraram interesse em migrar para a quadra dura.
O diretor do Rio Open, Luiz Carvalho, faz lobby pela mudança de superfície desde 2016, com olhos no Centro Olímpico de Tênis, palco dos Jogos de 2016. Catalina Fillol, diretora do Chile Open, foi direta ao ser questionada: "No momento em que digo a um jogador que o torneio é em saibro, ele fecha a porta."
O tenista argentino Mariano Navone, um dos que mais representa a nova geração de saibreristas sul-americanos, foi um dos mais críticos ao processo: para ele, a ATP está "sabotando o tour" ao enfraquecer sistematicamente a gira sul-americana.
O dilema dos jogadores sul-americanos
A mudança tem um custo simbólico e esportivo que vai além das arquibancadas. A América do Sul produziu historicamente tenistas moldados no saibro — de Guillermo Coria a Gastón Gaudio, de Rafael Nadal (com seu DNA sul-americano no piso lento) às novas gerações como Fonseca, Navone e Cerúndolo. A gira de fevereiro sempre representou um lar para esses atletas.
Com menos torneios em saibro no início do calendário, a preparação para Roland Garros ficará ainda mais concentrada nos meses europeus. E os jovens sul-americanos que cresceram no pó de tijolo terão menos oportunidades de pontuar em condições favoráveis logo no começo da temporada.
A Tennium depois da venda
A empresa catalã, fundada por Kristoff Puelinckx e Martín Hughes, sai de Buenos Aires mas não sai do tênis. Acaba de vender também o torneio de Bruxelas para a federação italiana, que usará o evento — provavelmente em Milão, possivelmente em grama — para fortalecer o calendário masculino no país com maior poder no tour hoje. A Tennium continuará operando o novo certame por duas temporadas.
No Brasil, o interesse dos executivos da empresa permanece vivo. A visita do presidente da ATP, o italiano Andrea Gaudenzi, a Buenos Aires e ao Rio Open em fevereiro foi interpretada como um diagnóstico da "cultura tenística" da região — e ele teria saído satisfeito com o que viu.
O que fica no ar é a pergunta que o tênis sul-americano ainda não sabe responder: é possível manter a essência da gira de fevereiro sem o saibro que sempre a definiu?
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