Coelho e Dico, a quadra como sala de aula
Carlos Eduardo de Souza Coelho não gosta de começar uma história pelo fim. Quando lhe perguntado sobre a Open Tennis, as duas quadras de saibro que administra em Niterói, ele recua quase seis décadas, até um menino de 9 ou 10 anos no IPC, o Icaraí Praia Clube, tendo aulas com o professor Rui Paula. Quando lhe perguntam sobre o Circuito Niteroiense de Tênis, que organiza há tanto tempo que precisa antes fazer contas para o dizer quanto, ele volta a uma quadrinha alugada em Pendotiba, no início da década de 1990. E quando lhe perguntam o que o tênis significa para ele, responde em poucas frases, depois de passar quase uma hora explicando o significado com outras palavras, ao contar toda sua trajetória.

Nas primeiras horas da manhã do último domingo, Coelho, 66 anos, com um boné na cabeça e óculos escuros para proteção do sol, tinha um compromisso marcado. Dali a pouco entraria em quadra ao lado de Carlos Frederico Maurício Vieira, o Dico, 58, para uma partida de exibição contra Thiago Iglesias e Rafael Teodoro. Décadas atrás, os dois adversários tinham aprendido com ele a segurar uma raquete. Um tinha 4 ou 5 anos na primeira aula, o outro, 10. Hoje são homens adultos, e Coelho não alimentava ilusões sobre o placar. "Nós vamos tomar uma surra desses garotos", avisou.
Antes disso, porém, ainda havia o que contar.
A primeira passagem de Coelho pelo tênis foi breve. O menino do IPC trocou a raquete pela prancha de surfe e depois pela quadra de vôlei, onde ficou tempo suficiente para decidir o que queria da vida: ser técnico de vôlei. Formou-se em Educação Física na Venezuela. De volta ao Brasil, precisou revalidar o diploma e foi fazer isso na Universo, onde também jogava pelo time da universidade. Até que quebrou o braço.
O acidente o afastou das quadras de vôlei, e Coelho, que não sabia ficar parado, voltou a bater bola numa quadra de tênis. Era possível jogar só com a direita. Tinha 27 anos. "Não estava fazendo nada, comecei a jogar tênis. Aí, me viciei. Tênis é viciante." Quando o braço sarou, o plano de ser técnico de vôlei já tinha perdido para uma paixão antiga.
Três anos depois, deu as primeiras aulas no condomínio Ubá Floresta, num terreno íngreme em que a quadra fica lá embaixo, no pé de uma ladeira. Depois foi chamado para ensinar uma família no Vale Itaipu. Mais tarde alugou uma quadrinha em Pendotiba, em frente ao condomínio Vila Remanso Verde. Foi ali que notou um problema que nenhum curso de Educação Física tinha resolvido: os alunos aprendiam, mas faltava motivação. Precisavam de um motivo para voltar na semana seguinte.

A solução foi dar a eles um adversário. Em 1990, Coelho organizou o primeiro torneio. Batizou-o de Circuito Pendotiba Tênis. Depois as aulas de Coelho migraram para uma quadra no Colégio Betânia, em Santa Rosa. Ele dividia o trabalho com Murilo Gomes, o Murilinho.
Foi nessa época que Coelho descobriu uma especialidade. Passou a dar aulas para crianças a partir de 4 anos, dentro do Mr. Peewee Tennis, um programa de iniciação infantil com quadras reduzidas, redes mais baixas e raquetes menores, que a Wilson distribuía pelo mundo. O programa tinha um lema, e Coelho o repete como quem cita um mandamento: uma demonstração vale mais que mil palavras.
A explicação dele é prática. "Se você quer que a criança entenda verbalmente, é muito mais difícil do que você ficar da altura dela, baixinho, demonstrar com calma. Ela vai copiar o que você está fazendo." Na teoria pedagógica, o princípio tem nomes mais complicados. Na quadra, significava um adulto de joelhos no saibro.
Coelho atribui ao tênis benefícios que vão além da quadra. Diz que as crianças que passaram por ele sempre foram bem na escola, porque o esporte exige uma concentração que ninguém tem naquela idade. Os pais, conta, voltavam para relatar mudanças: o filho tímido que se soltou, o inibido que passou a conversar. Mas o que mais lhe interessa é uma regra que o tênis amador conserva desde sempre: quem marca se a bola do adversário caiu dentro ou fora é o próprio jogador. "Você está do lado de lá, eu estou do lado de cá. Se a sua bola foi dentro ou fora, quem tem que marcar sou eu. Então dá uma percepção de honestidade."
Nos anos seguintes, as miniquadras chegaram a lugares improváveis. Coelho montou quadras de tênis em miniatura em centros comerciais, inclusive no Niterói Shopping, onde crianças faziam demonstrações para quem passava. Entre elas, lembra, estavam Pedro Cerbino e Thiago Iglesias. "Foi um espetáculo."

O circuito criado para motivar alunos de uma quadrinha alugada acompanhou a trajetória do professor e mudou de nome várias vezes, conforme o patrocinador da vez. Primeiro virou Net Niterói. "Passava na televisão, era muito legal." Depois veio a fase da Ótica Avenida, que durou cerca de dez anos e se apoiava numa rede de amizades formada no vôlei. Coelho lista os nomes com cuidado: o saudoso João Félix; Mikita; Zé Neto, um dos donos da Estadual de Olhos; e o também saudoso Chico Brahma, proprietário da ótica. "Sempre me apoiaram, dando camisa, troféu."
Mais tarde, por intermédio de Marcelo Ferreira e Dina Feijó, o torneio passou a distribuir pontos para um ranking municipal e ganhou o nome que tem até hoje: Circuito Niteroiense de Tênis. Perguntado há quanto tempo isso aconteceu, Coelho faz as contas em voz alta e desiste. "Deve ter uns 15 a 20 anos. Não tenho certeza." Hoje o circuito é disputado apenas na Open Tennis, em seis etapas por ano. Os oito melhores de cada categoria se classificam para o Finals, "o antigo Master". Cada etapa reúne, em média, cem inscrições.
A Open Tennis, aliás, quase não existiu. No início dos anos 2010, Coelho tinha dinheiro guardado para comprar um terreno, com espaço para uma quadra e uma casa. Os pais tinham outros planos, e ajudaram-no a comprar uma área muito maior, em Itaipu. Coelho achou um exagero. "Na época falei: aqui é muito longe." Os pais insistiram. "Eles tinham uma visão que eu não tinha. Graças a eles, hoje sou muito feliz aqui".

O espaço foi inaugurado em 2016. O nome Open, explica, vem da sensação de estar num lugar aberto. Coelho vive exclusivamente do tênis e faz questão de repetir sempre essa devoção ao esporte.
A história de Dico começa no Rio Cricket, o mesmo clube da primeira quadra de tênis do Brasil. Nascido em Niterói, ele pegou numa raquete pela primeira vez aos 6 ou 7 anos, largou a modalidade para experimentar outras, voltou aos 12 e, na adolescência, apostou tudo no futebol. Queria ser jogador profissional.
Os joelhos não deixaram. Aos 18, depois de uma sequência de contusões, abandonou o futebol e voltou ao tênis, dessa vez para ficar. "Hoje, se mandarem chutar uma bola, eu não sei."
O caminho até o diploma foi acidentado. Dico fez a capacitação da CBT e começou Educação Física no Fundão, na UFRJ. Transferiu-se para a Gama Filho, que faliu no meio do caminho, e precisou de mais um ano para se formar na FAMATH. Com o diploma na mão, perto dos 25, começou a dar aula na Itaquasoccer, onde ficou por quase 15 anos. Hoje ensina na Open Tennis, em mais duas academias particulares e num projeto gratuito da prefeitura na Concha Acústica, no Centro niteroiense.
Quando alguém o apresenta como um dos precursores do tênis em Niterói, Dico recusa o título. "Não é precursor não. Teve gente que veio antes da gente." A versão dele é mais modesta: quando o tênis deixou de ser assunto de clube e chegou ao povo, na esteira de Guga, ele já estava trabalhando com isso há muitos anos.
Dico fala da própria saúde no mesmo tom com que fala de técnica de saque. Tem próteses nos dois joelhos e contabiliza 11 cirurgias. E há dois anos passou pelo que chama de "problema muito sério". Foi uma encefalite. Dico ficou 16 dias em coma e, segundo conta, passou "33 minutos parado". "Fui dado como morto." Atribui a volta ao "homem lá de cima".
O que veio depois foi quase um ano dentro de casa. Ele não conseguia se levantar, a memória tinha ido embora "e mais um monte de coisa". Para alguém que nunca tinha ficado parado, a imobilidade virou outro problema. "Eu estava ficando mal, depressivo. Não aguentava mais ficar em casa."
Quando os médicos liberaram a atividade física, Dico descobriu que o corpo tinha esquecido o que a cabeça ainda sabia. Tinha a formação, a experiência de décadas de aula, a lembrança de cada movimento. Não conseguia acertar a bolinha. "Minha coordenação motora estava muito prejudicada, eu furava a bola."
"Foi aí que o Coelho abriu as portas pra mim. Abriu as portas da academia para eu voltar às atividades." Com a ajuda dele e do enteado, Dico voltou a bater bola, "primeiro mal, depois menos mal. Aos poucos fui pegando, fui pegando o jeito novamente", conta. Quando os movimentos melhoraram, veio o convite para trabalhar no projeto da prefeitura.
Hoje, o circuito Masters está fora de alcance. "Duas próteses. É muito sacrifício pra mim." Mas ele joga duplas nos torneios da cidade, o que descreve como diversão. No passado, disputou torneios amadores no Rio, em Niterói e um em Minas Gerais. Nunca quis ser profissional como jogador. "Sempre fui profissional dando aula."
Os dois adversários da exibição resumem o que Coelho e Dico entendem por legado.
Thiago Iglesias chegou a Coelho com 4 ou 5 anos e ficou até os 10 ou 11. Então o pai quis que ele disputasse os torneios nacionais e precisou de um técnico que viajasse junto. Coelho não podia. "Eu tinha muitos alunos, não tinha como largar." O menino seguiu adiante: alcançou grande notoriedade ao se tornar o líder do ranking nacional na categoria 12 anos e, logo na sequência, conquistou títulos importantes do circuito nacional infantojuvenil (como o Circuito Seguros Unimed) competindo na categoria 14 anos masculino.
Rafael Teodoro começou com Coelho aos 10 anos e ficou até os 18, quando seguiu para o Centro de Treinamento Kirmayr. Chegou a ser número 1 do Rio. Dico relembra quando o viu começar, no Itaquasoccer. Perguntado sobre o que sente ao reencontrar como adultos os meninos que conheceu com a raquete maior que o braço, Coelho tenta explicar e trava no meio da frase. "É muito bacana. É muito… Me faz muito bem." Faz uma pausa. "Faltou a palavra. É muito prazeroso."
Ele diz que o ofício o mudou. "Eu hoje sou uma pessoa muito mais observadora do que antes de ser professor de tênis. Eu observo para corrigir, eu observo para saber como fazer." A evolução de uma criança até a vida adulta, diz, é a observação mais demorada de todas.
Dico mede o próprio legado com mais parcimônia. "Referência de jogador, não. De professor, acredito que sim. Maneira de dar aula, de conduzir, de tratar o aluno." Hoje, alguns meninos que passaram pelas mãos dos dois também dão aula, e Dico se diz satisfeito com isso.
Coelho ensina estratégia partindo do mais básico. "O tênis começa da seguinte maneira: procurar jogar o meu melhor contra o pior do meu adversário. Minha direita contra a sua esquerda." Depois disso, segundo ele, o jogo vira matemática. "O tênis é geometria. O cara que entende de geometria vai saber onde jogar a bola, trabalhar os ângulos, as paralelas, os lobs." Ele descreve a evolução do jogador em duas etapas: o iniciante joga para não errar, e o mais experiente joga com um objetivo que definiu antes de bater na bola.
Mas o que realmente o encanta é outra coisa: o equilíbrio. "Mesmo o iniciante que não domina bem, se você botar ele para jogar com outro igual, vai se divertir igual a dois profissionais. O clímax do tênis é equilibrar o jogo."
Ele tem uma teoria para explicar por que as duplas reinam no tênis amador e são quase ignoradas no profissional. No amador, o jogo de duplas se multiplica sozinho. "Você tem quatro amigos, cada amigo traz uma pessoa, já são oito. Aí o amigo que trouxe hoje, já são dezesseis." A simples é outra coisa: um esporte em que o preparo do atleta e a cabeça pesam mais do que a companhia. "O mental na simples é muito mais importante." Para Coelho, os dois formatos são praticamente esportes diferentes. "Você saca de outra maneira, devolve o saque de outra maneira."
Dos dois, só Dico também dá aula de beach tennis. Ele o define como "um frescobol que vale ponto": a raquete é menor, a bola mais leve, e em pouco tempo qualquer pessoa está jogando. O tênis, diz, exige pelo menos um ano de prática para começar a jogar direito. "Mas o meu vício é o tênis." Coelho já jogou beach tennis, acha uma ótima opção e não tem nenhuma intenção de construir uma quadra de areia. "Eu sou do tênis."
A conversa parecia encerrada. Os adversários esperavam, e Coelho já se levantava quando Gustavo Werneck, editor da Nittenis, pediu mais uma pergunta. Werneck diz ver sua neta Luisa Magalhães, que disputa torneios infantojuvenis, preocupada demais com o resultado e de menos com o processo.

Coelho sentou de novo. "Isso é o básico de qualquer esporte. Se você focar em resultado, vai passar por cima do aprendizado." O resultado, para ele, é consequência de um trabalho feito muito antes, na base, com um bom professor. Ele descreve o jogo como uma sequência de decisões pequenas: usar ou não um efeito, ter calma. "No momento ruim, tenho que ir na toalha, parar, pensar, voltar para o jogo." E admite que perder não é agradável. "Ganhar é muito melhor. Mas eu falo para os meus alunos: a gente aprende muito mais na derrota do que na vitória. Quando eu perco, penso: podia ter feito isso, podia ter feito aquilo. Quando ganho, a gente comemora e não pensa em nada."
O mesmo raciocínio, diz, vale para a forma como o Brasil trata seus jovens tenistas. "O brasileiro cobra demais. Pegam um moleque que deve estar começando a ter barba agora e querem que ele seja número um do mundo. Não é assim. É degrau por degrau." Dico, em outro momento da conversa, diz quase o mesmo: acha que a imprensa pega no pé de João Fonseca e o compara demais com Guga. "Calma, deixa o garoto. O moleque é fora da curva."
Coelho lembra que há uma diferença de escala entre o tênis que ele pratica e o que passa na televisão. "O tênis profissional tem dinheiro no meio. Se eu ganhar esse jogo aqui, posso comprar uma casa." No amador, o prêmio é outro. "Se eu ganhar do meu amigo, vou tomar a cerveja mais feliz."
Os dois viveram o boom de 1997, quando Guga venceu Roland Garros e as quadras do país se encheram de novatos. Depois vieram anos de refluxo. Agora, dizem, a procura voltou. Coelho calcula que, desde a ascensão de João Fonseca, a Open Tennis ganhou entre 30% e 40% a mais de alunos novos e de aluguéis de quadra.
Ele faz questão de dividir o crédito. Cita Bia Haddad, Victória Barros e Naná Silva. Declara-se fã de Orlando Luz e Rafael Matos. E reserva o posto de número 1 da sua lista para Luísa Stefani, que naquele fim de semana disputava a final de duplas do SP Open e sairia campeã ao lado da canadense Gabriela Dabrowski. "Adoro a postura dela em quadra. Super educada. Voleia muito, voleia muito."
Dico vê o mesmo movimento de outro ângulo. Na Concha Acústica, onde o projeto da prefeitura oferece aula e material de graça, a procura só cresce. Ele acha que a velha fama de esporte de elite perdeu força. O equipamento é caro, admite, mas um tênis de corrida também custa "mil, mil e pouco".
No fim da conversa, veio a pergunta mais curta, e talvez a mais difícil: o que é o tênis para você?
Coelho respondeu sem pensar muito."O tênis é a minha vida. A vida do meu filhotinho, da minha filha, da minha esposa. Eu vivo exclusivamente do tênis."
Depois pegou a raquete, chamou Dico e foi para a quadra. Os adversários estavam esperando.

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