Treze em treze
- há 16 horas
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Às cinco manhã, com Maceió ainda no escuro, Fernando Dória já está de pé. Segundas e quartas, primeiro a academia; depois, a quadra, até as sete. Depois do tênis, Dória sai para o trabalho e só volta para casa entre sete e oito da noite. É a agenda comum para um homem de quarenta anos, cumprida por um de 76.
Dória joga tênis desde 1981, e há pouco descobriu uma coisa a respeito de si mesmo: não perde. No circuito ITF Masters, de 2024 a 2026, disputou treze finais de duplas masculinas em categorias acima dos 70 e venceu as treze . Não há derrota em nenhuma linha da planilha — uma planilha que ele só foi montar no meio do caminho. "A gente vai jogando, joga um torneio, joga outro, e não se apercebe muito disso", diz. "Depois eu comecei a fazer um levantamento e verifiquei."
Há um detalhe que nenhuma planilha registra. Em cada uma dessas finais, havia uma mulher vibrando na arquibancada, incentivando o marido. "Minha mulher grita, briga, entendeu? É a motivação e um incentivo muito grande", conta. Mas Fernando, na quadra, não escuta nada. "Não consigo nem ouvir minha mulher gritando meu nome", diz Dória. "A concentração tem que ser total."
Myrna Dória acompanha o marido há quarenta e cinco anos, em todos os torneios — de Maceió a Santiago do Chile. É a única companhia constante de um homem que, quando sai de Alagoas para jogar, costuma ser o único alagoano na chave. "Eu saio de Maceió, só tenho eu de lá. Sempre jogo com a torcida contra. Só tenho uma vantagem: uma torcedora que vale por dez", conta com orgulho.
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Os números que Dória levantou no caderno percorrem três temporadas. Em Goiânia, em julho de 2024, ele disputou três finais na mesma semana — duplas 75+, duplas 70+ e mista 75+. Ganhou as três. "Para a gente, numa idade dessa, jogando tênis há quarenta e cinco anos, conseguir esse feito todo é uma satisfação muito grande. Eu vejo lá no clube os meninos de dez, doze, quinze anos, os pais soltando foguetes, no bom sentido, porque os meninos chegaram a jogar uma semifinal ou ganhar um torneio aqui e outro lá. A gente, numa idade dessa, tem que comemorar muito também".
O ranking da ITF, que registra com método o que o tenista descobriu por curiosidade, conta a escalada em números redondos. Em janeiro de 2025, com pouco mais de um ano de circuito Masters acumulado, Dória ocupava a 29ª posição mundial na dupla 75+, com 844 pontos — já era o número 1 do Brasil . Em maio de 2026, está em oitavo do mundo, com 3.100 pontos. Número 1 do Brasil, número 1 da América do Sul. O volume de pontos multiplicou-se por quase quatro em 16 meses .
Não é a primeira vez entre os melhores. Em julho de 2016, há uma década, Dória já havia chegado ao sexto lugar do ranking mundial, em outra categoria — quando tinha 66 e ainda jogava numa faixa etária abaixo da atual . O ranking sobe e desce conforme a idade empurra o jogador para a categoria seguinte. A constante é a presença lá em cima.
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Os parceiros moram em outros estados. Nos treze títulos, foram quatro homens diferentes do outro lado da linha central: os gaúchos Edson Cunha e Eduardo Guedes, o sergipano Denis Marcondes, e Maurilio Santinelo do Distrito Federal. Nenhum perdeu uma final ao lado do alagoano. Pedido a apontar o parceiro com quem a dupla flui melhor, Dória recusa:
"Realmente, eu preferia não nominar. Eu prefiro dizer que todos os parceiros são importantes. No jogo de dupla, a gente sabe que é cinquenta por cento para cada um. Tem que ter um equilíbrio muito grande para ter confiança e também gerar confiança para o parceiro. E meus parceiros são bons."
O exemplo mais ilustrativo da elasticidade da dupla é o Brasileirão de Brasília, em novembro de 2024. "Eu estava sem parceiro e peguei o Maurilio Santinelo, do Iate Clube. E conseguimos ganhar de dois gaúchos, que inclusive já jogaram comigo também — o Edson e o Eduardo Guedes. Essa foi muito difícil." Os dois adversários conheciam o jogo de Dória de cor. Não bastou.
A final mais dura, segundo o próprio, foi em Salvador. "Pedro Silva, que é um professor lá do Costa Verde. Professor já há mais de uns cinquenta anos. Ele joga muito bem. Ele e um gaúcho. Nós perdemos o primeiro set, ganhamos o segundo e ganhamos o terceiro, que foi um super tie-break "
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A explicação técnica que Dória dá para a invencibilidade tem três palavras e nenhuma vaidade. "Eu jogo duplas. Eu sou assim, como se pode falar, um especialista em duplas." Em dezembro de 2009, fez uma artroscopia no ombro . Ficou cerca de um ano sem jogar. Quando voltou às quadras, em 2010, tomou a decisão de não jogar mais simples. "Aí eu fiz a opção e fiquei treinando só e jogando duplas. Eu jogo a semana toda em Maceió . No mínimo cinco vezes por semana. Só duplas. Tenho uma facilidade muito grande de me adaptar com os parceiros diferentes. Mesmo que seja um parceiro que não jogue muito duplas — porque a maioria deles joga simples e duplas, e eu só jogo duplas".
A frequência produziu intimidade com a posição que ocupa em quadra — o meio, entre o saque e a rede. Dória descreve com tranquilidade técnica: "Eu jogo no meio da quadra. Apesar do tamanho, o pessoal tem uma certa dificuldade de me cobrir, de me dar um lobby. Pelo posicionamento que eu tenho, eu esmecho muito. Eu voleio muito e esmecho muito bem. Eles têm uma certa dificuldade. E isso facilita muito para o parceiro jogar. Deixa o parceiro mais livre", conta Dória, sempre acompanhado com a mesma raquete: Wilson, marca que usa há tempo o bastante para nem se lembrar quando começou.
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Como o alagoano joga só duplas, e como nem sempre aparece parceiro disponível na sua categoria, ele desce. Em Goiânia, foram as três finais. Em Brasília, em maio de 2025, ele chegou sem dupla na 70+. "Eu não arranjei parceiro de setenta, e tinha o Carlos, que é um rapaz muito bom, joga bem, é professor lá em Brasília. Me chamou para jogar e eu disse: vamos jogar. Porque às vezes a gente também está no torneio para interagir, para brincar — aquele companheirismo é muito bom." Era a chave 65+, duas categorias abaixo da do alagoano.
"Por coincidência, eu cheguei na final desse torneio, perdendo, porque do outro lado tinha um paulista muito bom. O Ricardo Rizk. Ele é o sétimo de simples e o oitavo de dupla do mundo. Não é um jogador qualquer." A derrota foi rara. A presença na final, não.
No ITF 700 de Brasília de maio de 2026, o roteiro repetiu Goiânia em escala menor. Dória venceu também a 70+, em dupla com o brasiliense João Sucupira — parceiro antigo, com quem já havia jogado em outros torneios — sobre Carlos Rogério e José Carlos Donizete, ambos do Distrito Federal, por 6-4, 6-4. Dois títulos em uma semana, duas categorias, dois parceiros.
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"Eu jogo tênis desde 81", diz Dória. São quarenta e cinco anos. Antes, era futebol amador. "Eu joguei muito futebol . Meu irmão, Carlos Dória, começou a jogar tênis aqui no Jaraguá. A gente sempre jogou aqui, no Jaraguá Tênis Clube. Aí me chamou, quinze dias depois eu comecei a jogar, não parei mais, gostei muito, deixei o futebol. Porque o futebol, a gente vai ficando mais velho — eu já tinha trinta anos, trinta e um — e você não consegue, no futebol, gente da mesma idade, que são onze. Aí eu digo: não, o tênis é mais fácil." Carlos Dória, o irmão, ainda joga no Jaraguá. Quarenta e cinco anos depois, os dois continuam frequentando o mesmo clube.
O circuito que Fernando frequenta hoje quase não existia naquele começo. "Quando eu saí de Maceió pela primeira vez, ainda não tinha o circuito ITF aqui no Brasil. Tinha só dois torneios ITF, um em São Paulo e outro em Curitiba. Mas a CBT fazia um circuito nacional, que vinha para as capitais — fizemos torneio em Maceió, em Natal, em Fortaleza, em Salvador, em Aracaju, São Paulo. O nacional foi diminuindo, e as pessoas foram tendo mais interesse no ITF, porque o ranking da ITF é um ranking mundial. É outra visibilidade, outra motivação."
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A turma com quem Dória treina nas segundas e quartas tem quarenta e poucos anos — a idade do filho . Às vezes o filho está no grupo. O parceiro mais constante desses treinos é Flávio Medeiros. "Ele joga muito bem." Nos outros dias, é um grupo maior, que se reveza em duplas montadas com algum equilíbrio. Depois do tênis, Dória sai para o trabalho e só volta para casa entre sete e oito da noite. Sexta e sábado, quando não joga, vai à pequena pecuária que mantém perto de Maceió — anda a cavalo, olha o gado. Domingo, está de volta à quadra.
O tênis, em meio a tudo isso, virou também uma espécie de terapia. "É um jogo rápido, de reflexos rápidos, de raciocínio rápido. Não dá para jogar pensando em outra coisa. Eu posso estar aqui no computador pensando em alguma coisa que vou fazer daqui a meia hora, mas no tênis não dá." É na quadra que ele para de pensar no gado, no trabalho de cada dia — o único intervalo do dia em que a cabeça não corre para outro lugar.
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Fernando e Myrna se casaram em dezembro de 1978 — dois anos antes de Dória largar o futebol e pegar a raquete. Myrna, portanto, conheceu o marido antes do tênis. Acompanhou a transição, o ombro operado em 2009, a decisão pelas duplas, a entrada no circuito ITF Masters, a planilha que começou a ser preenchida no caderno.
Em Santiago do Chile, no Sul-Americano de dezembro de 2025, ela estava na arquibancada — junto, dessa vez, com uma colônia de brasileiros que dividiu a torcida no estádio. "A gente sabe que jogar em qualquer local diferente... Para mim todo lugar é diferente, porque eu saio de Maceió. Mas em Santiago, especificamente, tinha muito brasileiro. Os brasileiros estavam assistindo e a torcida ficou um pouco dividida. Isso é bom." Dória e Denis Marcondes venceram os chilenos Gabriel Carrasco e Javier Morales por 7-5, 6-1 e levaram um ITF 1.000 — o torneio de maior pontuação do continente. Mil pontos para o ranking.
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O calendário de Dória até o fim de 2026 está montado. Goiânia em julho. São Paulo em setembro. O Brasileirão, em novembro, também em São Paulo. E, ainda em planejamento, o Mundial — neste ano, na Grécia. "Eu tenho muita vontade de jogar o Mundial. São quinze dias de torneio. Uma semana é um torneio por equipes — os países que vão disputar um contra o outro. Na semana seguinte é um torneio normal." Detalhes da edição grega, ele ainda está acompanhando.
Há um obstáculo técnico. "É a questão de eu só jogar dupla. Eu tenho que arranjar um parceiro, e num torneio desse nível tem que ser um parceiro do meu nível ou melhor." Ao topo do ranking, ele explica, não se chega necessariamente pelo Mundial. "Você pode estar no topo do ranking sem jogar um Mundial. O Mundial é uma questão de vontade. No caso, o Mundial na semana anterior, por equipes, esse eu tinha muita vontade. Porque é uma forma de você estar ali representando o seu país."
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No fim da entrevista, depois de mais de meia hora gravada, Dória pediu para complementar. Era sobre a família, e ele queria que estivesse na matéria. "Eu quero fazer uma referência aos meus filhos e aos meus netos. Eu tenho três filhos. Todos os três jogaram desde pequeno. Hoje, dois ainda jogam — inclusive minha filha, que está jogando até bem. E meus netos têm alguns jogando também. Eu acho que isso é também o que dá essa motivação e essa força para a gente continuar. E como eu disse, minha mulher, além de torcer, ela é a companheira de viagem. Eu não viajo sem ela."
O mais velho, Bruno, é engenheiro civil — jogou durante um bom tempo, hoje não mais. Os outros dois ainda batem uma bolinha: Fernando Dória Júnior, advogado, e Thaysa Dória Gatto, dentista. Tênis amador, no clube e na cidade, nenhum profissional. Seis netos no total. Três começando a jogar.
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Depois, encerrada a gravação, Dória soltou uma palavra. "Ficou arretado." A palavra é nordestina e quer dizer muitas coisas — bom, bonito, bravo, completo. No caso dele, talvez queira dizer apenas que a sequência de treze em treze não cabe inteira na planilha. Que ela continua sendo escrita, em quadras pelo Brasil afora, por filhos que viraram advogado e dentista mas mantiveram a raquete, por netos que estão começando agora, por um irmão que ainda joga no Jaraguá depois de quarenta e cinco anos e por uma torcedora que, em algum ponto da arquibancada, está torcendo e vibrando a cada ponto seu.
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