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O tricampeonato esquecido: como Miriam D'Agostini sumiu das matérias sobre o título de Naná Silva

  • há 3 dias
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Atualizado: há 3 dias

Nauhany Silva, a Naná, conquistou neste domingo o título de simples da Brasil Juniors Cup, o ITF J300 disputado nas quadras da Associação Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre. A paulista de 16 anos dominou a norte-americana Welles Newman, anotando 6/1 e 7/5 após 1h18 de duelo.


A 16ª vitória consecutiva no circuito juvenil garantiu a Naná não só mais um troféu mas também a entrada no top 20 do ranking mundial, pela primeira vez na curta carreira. Há décadas uma atleta brasileira não vencia a competição internacional disputada no saibro gaúcho.


Nauhany Silva faturou os títulos de simples e duplas  (Foto: Luiz Candido/CBT)
Nauhany Silva faturou os títulos de simples e duplas (Foto: Luiz Candido/CBT)

Além de uma campanha impecável, a conquista de Naná valia mais do que pontos no ranking. Encerrava um tabu. Mas de qual tamanho? A partir deste questionamento, jornalistas passaram a buscar a resposta: afinal, quem havia sido a última brasileira a levantar o troféu do torneio em simples em Porto Alegre? Em que ano?


Os principais portais de notícias anunciaram que Naná colocara um fim ao tabu que já durava, segundo eles, 35 anos. A última campeã? Eugenia Maia, em 1991. O número circulou sem questionamento. Também pudera: era esta a informação que constava, e ainda consta, no verbete Campeonato Internacional Juvenil de Tênis de Porto Alegre encontrado na Wikipédia.


Mas a última campeã antes de Naná foi Miriam D'Agostini. Não em 1991. Em 1996. E ela não ganhou uma vez. Ganhou três. Portanto, Naná quebrou um jejum de 30 anos. Não 35.


A prova definitiva nos próprios arquivos dos jornais que hoje dizem o contrário. Em 2013, o portal gaúcho Zero Hora trouxe a manchete: "Russa vence nos 18 anos feminino do Campeonato Internacional Juvenil de Tênis. Na final disputada em Porto Alegre neste domingo, Varvara Flink superou a brasileira Bia Haddad Maia". E logo depois, no texto, afirma: "O Brasil segue sem conquistar um título nos 18 anos femininos do torneio desde 1996, quando a gaúcha Miriam D'Agostini sagrou-se campeã."


D'Agostini nas páginas da Revista Nittenis - edição nº 11 - julho/2000
D'Agostini nas páginas da Revista Nittenis - edição nº 11 - julho/2000

Voltando um pouco mais no tempo, encontra-se uma matéria de 2007, do portal clicRBS, que apontava: "Brasileiras tentam quebrar tabu na Copa Gerdau - País não ganha um título nos 18 anos feminino há uma década". E acrescentava no texto:


"As brasileiras que disputam a Copa Gerdau Citigroup de Tênis entrarão em quadra com um objetivo a mais nos 18 anos feminino: quebrar um tabu que já dura uma década. Desde 1997 o país não sobe ao pódium nesta categoria. A última vez que o Brasil ficou com o título foi em 1996, quando a gaúcha Miriam D'Agostini venceu a chilena Karen Harboe. Desde então, as estrangeiras vêm dominando na categoria 18 anos".


Por que a imprensa errou?

O mecanismo do erro é rastreável. Quando os portais foram apurar o histórico do torneio, consultaram a tabela do Wikipedia do Campeonato Internacional Juvenil de Porto Alegre, ou bancos de dados derivados dela, e encontraram Eugenia Maia listada como última campeã brasileira, com o ano de 1991. Reproduziram o dado sem perceber o que aquela tabela realmente aponta: não a história do torneio de Porto Alegre, mas a linhagem do torneio de maior status da América do Sul na hierarquia da ITF, que ao longo das décadas mudou de país e de nome três vezes. Em 1991, o torneio de maior status da região era disputado em Caracas, na Venezuela. É lá que Eugenia Maia figura como campeã, não em Porto Alegre.


A ITF mantém um documento que consolida os campeões de todos os torneios que já ocuparam o topo da hierarquia sul-americana numa única lista, sem separar Venezuela, Banana Bowl e Porto Alegre. É um documento legítimo, útil para rastrear a progressão histórica desse título itinerante. Mas não é o histórico do torneio de Porto Alegre. Usá-lo como tal é o erro que muitos portais cometeram.


O alfabeto do circuito juvenil: de Grupo 5 a J500

Antes de entrar nos torneios, um passo atrás no sistema de classificação da ITF, porque ele é central para o debate e costuma gerar confusão adicional.


O circuito juvenil sempre funcionou com uma hierarquia de categorias, do nível mais básico ao mais alto. Por décadas, o topo foi chamado de Grade A ou Grupo A. Em 2023, a ITF renomeou todos os níveis para alinhar a nomenclatura com o circuito profissional ATP/WTA:


Nomenclatura antiga

Nomenclatura atual

Grade A / Grupo A

J500

Grade 1 / Grupo 1

J300

Grade 2 / Grupo 2

J200

Grade 3 / Grupo 3

J100

Grade 4 / Grupo 4

J60

Grade 5 / Grupo 5

J30

O nome mudou. O significado não. Quando alguém diz que a Brasil Juniors Cup "era Grade A e hoje é J300", está dizendo que o torneio foi rebaixado do nível máximo para o segundo nível. Quando o Banana Bowl "era Grade A e hoje é J500", está dizendo que o nome mudou em 2023 mas o patamar continua o mesmo. Isso explica o cenário atual: Banana Bowl J500 e Brasil Juniors Cup J300 coexistem no calendário sul-americano, em semanas diferentes, com o Banana Bowl no posto mais alto.


Três torneios, uma coroa

Desde 1978, a América do Sul mantém ao menos um torneio de nível máximo no circuito juvenil. Esse posto passou por três torneios ao longo das décadas, cada um com sua sede, seu nome e sua história própria.


O Campeonato Internacional da Venezuela (1978–1997)


O torneio de maior status do circuito juvenil sul-americano surgiu em Caracas, no Centro Nacional de Tênis, a partir de 1978. Por quase duas décadas, foi o destino obrigatório das maiores promessas do tênis mundial que passavam pela América do Sul. É a lista desse torneio que o Wikipedia usa como espinha dorsal do histórico do que hoje se chama Brasil Juniors Cup. Eugenia Maia venceu ali em 1991. O Campeonato da Venezuela encerrou sua fase como Grade A em 1997. A última campeã feminina nessa era foi a norte-americana Melissa Middleton.


O Banana Bowl (1969–hoje)


O mais antigo dos três foi criado em 1968, durante o congresso do campeonato sul-americano em Caracas. O nome foi sugerido por Alcides Procópio, então presidente da Federação Paulista de Tênis, que queria criar uma versão tropical do Orange Bowl norte-americano. "Já que copiamos tudo dos Estados Unidos e eles têm o Orange Bowl, então nós teremos o Banana Bowl", disse Procópio, ao lembrar da criação do evento.


A primeira edição foi em 1969 no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, e desde então o torneio não tem sede fixa: passou, entre outras cidades, por Ribeirão Preto, Santos, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Blumenau, Florianópolis, Itajaí e agora acontece em Gaspar, Santa Catarina.


O Banana Bowl assumiu o posto de Grade A da região em 1998, quando a Venezuela perdeu o status, e o manteve até 2006. Foi rebaixado a Grade 1 em 2007, quando Porto Alegre assumiu o topo. Com o rebaixamento da Brasil Juniors Cup em 2020, o Banana Bowl voltou ao posto máximo e hoje figura como J500. Grandes nomes da história do tênis mundial disputaram a competição, como John McEnroe, Thomas Muster, Andy Roddick, Ivan Lendl, Gabriela Sabatini, Gustavo Kuerten, Helena Suková, Svetlana Kuznetsova e Eugenie Bouchard.


A Copa Gerdau / Brasil Juniors Cup (1984–hoje)


O terceiro torneio foi fundado em Porto Alegre em 1984. O próprio site da organização conta a história com precisão: a primeira edição aconteceu apenas na categoria 18 anos e era restrita a jogadores locais. A partir de 1987 o evento cresceu, passando a contar pontos no ranking brasileiro. Em 1991, passou a pontuar no ranking da COSAT, a Confederação Sul-Americana, nas categorias 14, 16 e 18 anos.


A integração ao circuito mundial da ITF foi gradual, categoria a categoria, ponto a ponto:


Período

Status na ITF

1993–1994

Grupo 5 (hoje J30)

1995–1997

Grupo 4 (hoje J60)

1998–2000

Grupo 3 (hoje J100)

2001–2003

Grupo 2 (hoje J200)

2004–2006

Grupo 1 (hoje J300)

2007–2019

Grupo A (hoje J500)

2020–hoje

J300


Em 2007, ao ser promovido ao Grupo A, o torneio passou a integrar o grupo seleto de nove competições internacionais que contavam com essa graduação, ao lado de Orange Bowl (EUA), Italian Open, Osaka Cup, Casablanca Cup, Wimbledon, Roland Garros, US Open e Australian Open. Em 2010 passou a se chamar Campeonato Internacional Juvenil de Tênis de Porto Alegre. Em 2019, Brasil Juniors Cup. Em 2020, com o rebaixamento ao J300, encerrou sua fase como o torneio de maior status da região.


Esses três torneios nunca foram o mesmo evento. Disputados em países, cidades e semanas diferentes, o que os conecta é apenas o posto de maior prestígio da América do Sul, que passou de mão em mão conforme a ITF redistribuía seus selos de qualidade. A tabela que a imprensa usou hoje como referência rastreia essa coroa itinerante. Não rastreia Porto Alegre.


As campeãs da Copa Gerdau e do Campeonato Internacional de Porto Alegre

A galeria oficial do torneio, disponível no site da organização, documenta os campeões desde a 1ª edição, em 1984. O site da ITF preserva as chaves individuais de cada edição. Para a categoria 18 anos feminino, os dados verificados nas fontes primárias são os seguintes:


Fase ITF (a partir de 1993, com pontuação internacional verificada).


Ano

Status ITF (equivalente atual)

Campeã

Finalista

Placar

1993

Grupo 5 (J30)

Miriam D'Agostini 🇧🇷

Luciane Kelbert-Elliott 🇧🇷

6-0, 6-0

1994

Grupo 5 (J30)

Miriam D'Agostini 🇧🇷

Patricia Segala 🇧🇷

6-1, 6-2

1995

Grupo 4 (J60)

Zuzana Ondraskova 🇨🇿

Katalin Marosi 🇭🇺

6-2, 6-0

1996

Grupo 4 (J60)

Miriam D'Agostini 🇧🇷

Karen Harboe 🇨🇱

6-0, 7-6

2006

Grupo 1 (J300)

Katerina Vankova 🇨🇿

Alizé Cornet 🇫🇷

6-2, 6-0

2007

Grupo A (J500)

Cindy Chala 🇫🇷

Roxane Vaisemberg 🇧🇷

6-4, 4-6, 7-5

2010

Grupo A (J500)

Monica Puig 🇵🇷

Jessica Pegula 🇺🇸

2-6, 7-6, 6-3

2011

Grupo A (J500)

Eugenie Bouchard 🇨🇦

Viktoria Malova 🇸🇰

6-1, 6-2

2012

Grupo A (J500)

Anna Danilina 🇰🇿

Beatriz Haddad Maia 🇧🇷

6-2, 6-3

2013

Grupo A (J500)

Varvara Flink 🇷🇺

Beatriz Haddad Maia 🇧🇷

1-6, 6-2, 6-1

2014

Grupo A (J500)

Jil Teichmann 🇨🇭

Aliona Bolsova 🇪🇸

3-6, 6-4, 7-6

2017

Grupo A (J500)

Amanda Anisimova 🇺🇸

Sofia Sewing 🇺🇸

7-5, 6-1

2018

Grupo A (J500)

Leylah Annie Fernandez 🇨🇦

Clara Tauson 🇩🇰

6-3, 7-6

2020

J300

Matilde Paoletti 🇮🇹

Ana Geller 🇦🇷

6-2, 5-7, 7-5

2026

J300

Nauhany Silva 🇧🇷

Welles Newman 🇺🇸

6-1, 7-5


O Banana Bowl nos anos de ouro: campeãs Grade A (1998–2006)

Enquanto a Copa Gerdau escalava a hierarquia da ITF, o Banana Bowl ocupava o posto máximo da região. Essas são as campeãs dos 18 anos no Banana Bowl durante sua fase Grade A, o equivalente ao J500 atual:


Ano

Campeã

Nacionalidade

1998

Erica Krauth

Argentina

1999

Aniko Kapros

Hungria

2000

Maria Emilia Salerni

Argentina

2001

Svetlana Kuznetsova

Rússia

2002

Myriam Casanova

Suíça

2003

Alisa Kleybanova

Rússia

2004

Alisa Kleybanova

Rússia

2005

Sharon Fichman

Canadá

2006

Alizé Cornet

França

Kuznetsova, campeã do Roland Garros em 2009, e Alizé Cornet, uma das tenistas mais longevas do circuito, passaram por aqui. O Banana Bowl nunca foi modesto em seu hall da fama.


Nota interessante: em 2002, Myriam Casanova venceu tanto o Banana Bowl (Grade A, ou J500) quanto a Copa Gerdau (Grupo 2, ou J200) no mesmo ano, em cidades diferentes. Em 2001, Svetlana Kuznetsova ganhou o Banana Bowl, mas perdeu para Matea Mezak na final da Copa Gerdau.


Miriam D'Agostini: a gaúcha tricampeã que as quadras não esquecem

Natural de Passo Fundo, nascida em 15 de agosto de 1978, Miriam D'Agostini iniciou no tênis aos 7 anos tendo que jogar contra meninos, pela falta de meninas praticantes do esporte. Logo aos 8 anos mudou-se para Porto Alegre e iniciou seus treinamentos na Sogipa. Aos 12, foi morar com a família de seu treinador no Paraguai, onde começou a viajar o mundo para disputar o circuito juvenil. Disputou seu primeiro torneio profissional com 15 anos e aos 16 mudou-se para Miami.


Miriam D'Agostini (Crédito: John Gibson via Getty Images)
Miriam D'Agostini vestindo as cores do Brasil (Crédito: John Gibson via Getty Images)

O que ela construiu antes mesmo de virar profissional foi impressionante. Com 15 anos, era a 4ª colocada no ranking mundial juvenil na categoria 18 anos. No Banana Bowl, foi campeã dos 14 anos em 1991 e em 1992. Na Copa Gerdau, entre 1993 e 1996, foi quase imbatível: três títulos em quatro edições, com uma semifinal no único ano em que não foi campeã.


Os placares contam a história sem romantismo. Em 1993, bateu Luciane Kelbert-Elliott por duplo 6-0 na final. Bicicleta. Em 1994, superou Patricia Segala por 6-1 e 6-2. Em 1995, perdeu para a tcheca Zuzana Ondraskova na semifinal — a única derrota que interrompeu o domínio. Em 1996, voltou e fechou o ciclo: 6-0 e 7-6 sobre a chilena Karen Harboe, com um segundo set que foi para o tiebreak. Tricampeã.


Aos 17 anos, estava nos Jogos Olímpicos de Atlanta, sendo a terceira atleta mais jovem da delegação brasileira. Ao longo da carreira profissional, acumulou 8 títulos ITF Futures em simples e 15 em duplas, chegou à 188ª posição no ranking WTA de simples e à 159ª em duplas. Disputou os Pan-Americanos de 1995, em Mar del Plata, e de 1999, em Winnipeg. Em 2016, foi uma das escolhidas para o revezamento da Tocha Olímpica em Passo Fundo.

Aos 22 anos, anunciou precocemente a aposentadoria por falta de patrocinadores.


D'Agostini nas páginas da Revista Nittenis - edição nº 17, maio de 2001
D'Agostini nas páginas da Revista Nittenis - edição nº 17, maio de 2001

Formada em Comunicação Social, foi trabalhar no departamento de marketing do Comitê Olímpico Brasileiro e em 2021 assumiu a direção de Comunicação e Marketing do Instituto Rede Tênis Brasil, onde permaneceu até o início deste ano. Seu trabalho no IRTB integrou justamente a estrutura que formou Naná Silva.


Próxima parada

Naná parte para Gaspar, onde o Banana Bowl J500 começa esta semana. O mesmo torneio nascido em 1969 numa ideia de Alcides Procópio, que já teve Kuznetsova, Alizé Cornet e Eugenie Bouchard como campeãs, que durante anos foi o maior da América do Sul e hoje voltou a ocupar esse posto. Um grau acima do que ela acabou de vencer.


Com 16 vitórias consecutivas, dois J300 seguidos e o top 20 garantido, Naná chega ao torneio como favorita. Não apenas pela fase. Pela consistência que uma sequência dessas representa no circuito juvenil: ninguém vence 16 vezes seguidas por acidente.


A história de Porto Alegre está corrigida. O próximo capítulo começa em Santa Catarina.


D'Agostini e Martina Hingis nas páginas da Revista Nittenis - edição nº 15, janeiro/2001 - Foto: Marcelo Ruschel
D'Agostini e Martina Hingis nas páginas da Revista Nittenis - edição nº 15, janeiro/2001 - Foto: Marcelo Ruschel

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