Técnico de Guto Miguel abre os bastidores do prodígio de 17 anos: "Não temos que ter pressa"
- 3 de mar.
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Enquanto Luis Guto Miguel aquece para enfrentar nesta tarde o argentino Juan Pablo Ficovich, sexto favorito e 178º do mundo, na quadra central do Iate Clube de Brasília, o técnico Santos Dumonta abriu os bastidores do processo que transforma o garoto de 17 anos em uma das apostas mais concretas do tênis brasileiro dos últimos anos.
O jogo, marcado para por volta das 17h30, é o último da programação da quadra central e tem peso considerável: seria a primeira vitória de Guto Miguel em nível Challenger, num torneio ATP que distribui 75 pontos no ranking e premiação de US$ 107 mil. E, de quebra, em casa.
O peso de jogar no próprio clube
"Estamos ajustando, ele está empolgado, sempre quis jogar aqui perto da família e dos amigos. Agora a responsabilidade aumenta, está jogando em casa. Mas tenho certeza que ele vai levar pelo lado bom e não pelo lado da pressão, vai ser muito bom; ele gosta desses desafios e ele sem dúvida vai aproveitar ao máximo", disse Dumont, que acompanha o jovem há mais de três anos nas quadras do Iate Clube, onde Guto treina cotidianamente.

É o primeiro torneio profissional do tenista jogado no local onde se formou. Dumont lembra que a única experiência anterior de Guto ali foi num Interclubes no ano passado, ao lado do irmão Luis Otávio, o Lipe. Palco conhecido, mas pressão nova.
O técnico, mineiro natural de Araxá e radicado em Brasília há 37 anos, também tocou num ponto específico: a capital do país tem personalidade própria para o tênis. "Aqui tem horários que a bola anda mais. Brasília tem essa peculiaridade, tem uma altitude, à noite a bola anda menos. Eu entendo bem como funciona aqui e tem alguns toques que a gente dá pra ele que se ele aproveitar, vai se dar bem", explicou. A altitude de cerca de mil metros na capital federal é detalhe técnico que poucos treinadores conhecem tão bem quanto quem vive ali há décadas.
O aprendizado do Rio Open
O Brasília Tennis Open é a sequência imediata do Rio Open, onde Guto estreou na chave principal de um ATP 500. Dumont avalia a experiência como positiva, mesmo com a eliminação na primeira rodada diante do lituano Vilius Gaubas, 126º do mundo: "A gente estava no Rio, com uma expectativa gigante, o maior torneio que ele jogou na vida, o maior torneio da América do Sul. Foi uma coisa que ele segurou bem a onda, aproveitou, jogou bem, poderia até ter ganho e ele sabe disso. Jogou bem nas duplas também, quase indo para a semi."
Detalhes. A diferença entre ganhar e perder nesse nível hoje é exatamente isso. E o treinador parece trabalhar essa consciência no atleta: saber que estava no nível, que faltou pouco, sem deixar isso virar frustração.
A evolução do jogo: saque, direita e o que vem pela frente
Dumont é preciso ao descrever o arsenal de Guto: "Ele tem a direita e a esquerda muito boas, a direita é matadora, a esquerda está bem, não erra e machuca o adversário." O saque foi o golpe que mais evoluiu na reta final de 2025 e no começo de 2026. "Ele sacou muito bem no Rio Open, o saque dele evoluiu bastante", afirmou.
O jogo ofensivo com trânsito à rede também é marca registrada: Guto não é apenas um baseline player. Dumont vê espaço para crescimento em todas as frentes, mas não quer atalhos. "Não temos que ter pressa, ele vai desenvolver o tênis, evoluir. Também estamos bem focados em melhorar o físico, algo importante no profissional. Ele vai se desenvolvendo como um todo, e não um golpe específico. Esse ano será para entender o que ele pode fazer de melhor."
A flexibilidade de piso é outro trunfo que o técnico destaca. Guto já venceu J300 no saibro e na quadra rápida, chegou às semis na grama e fez quartas no Australian Open. "Hoje em dia acho que acabou um pouco aqueles especialistas, que jogam só em um piso. Hoje em dia os tops do mundo jogam bem em todas as quadras", observou Dumont.
João Fonseca, Instagram deletado e o amadurecimento fora de quadra
Um dos episódios mais reveladores da entrevista foi sobre o Instagram. Guto contou recentemente que deletou a conta após conversa com João Fonseca durante o Rio Open. Dumont contextualiza: "Agora no Rio Open ele parou com tudo, conversou com o João Fonseca, e ele sabe que tem que sair. Ele está amadurecendo, está num momento que está em um ambiente de pessoas adultas, saindo da adolescência."
O técnico não fecha a porta para uma volta eventual às redes: "Não vai ser de uma hora pra outra, daqui a pouco ele volta e vê um pouco o instagram, não dá pra largar tudo." O que importa é o gatilho: a influência do carioca de 19 anos sobre o garoto de 17 não é pouca.
E não foi só na conversa sobre o celular. Os dois treinaram juntos por duas semanas na pré-temporada no Rio de Janeiro, passando ainda três dias na Tennis Route. "A relação com o João é boa, treinamos duas semanas, foram semanas boas, legais, eles brincam bastante entre eles. Essas duas semanas fizeram muita diferença, o Guto amadureceu muito", revelou Dumont. Vale lembrar que a Bia Haddad tem hábito similar: em período de torneio, deleta o aplicativo e mantém um número privado só para a família. São referências certas num momento de formação.
O plano para 2026: mesclar mundos
A estratégia da equipe para a temporada é clara e bem calibrada. Guto tem direito a quatro wildcards para Challengers até julho, reservados aos top 10 do ranking juvenil, categoria em que ocupa atualmente o terceiro lugar. Dois convites já estão confirmados: Brasília e São Paulo. A vaga especial para juniors será usada na Europa. "A ideia é mesclar futures, challengers e juvenil", resumiu Dumont.
Os objetivos estão postos. No juvenil, Guto quer terminar o ano como número 1 do mundo e conquistar um Grand Slam. No profissional, a meta é chegar entre os 500 e 600 do ranking ATP. "Conforme ele vai crescendo no ranking, ele vai tendo direito a entrar nos torneios maiores através da vaga especial do Juvenil. A única meta específica que colocamos foi a de chegar ao top 10 (juvenil) para ganhar as vagas especiais nos torneios profissionais", detalhou o treinador, que comanda Guto ao lado de Kike Grangeiro e uma equipe multidisciplinar.
O Australian Open ficou como lição: Guto ainda não havia perdido um set para aquele adversário antes da partida, mas não se adaptou à condição de quadra. "Ele sabe que poderia ter ganho, acabou não dando certo no momento, ele ainda não tinha perdido set para aquele rival, a quadra era um pouco mais rápida e o adversário jogou um nível muito bom, mas ele não jogou tão bem o torneio, não se adaptou, o que também é normal para o tenista", avaliou Dumont. Normal. Mas anotado.
Próximos compromissos
Nesta terça-feira (03/03), Guto entra em quadra por volta das 17h30 na quadra central do Iate Clube de Brasília contra Ficovich. Se avançar, enfrentará o vencedor do duelo entre o argentino Facundo Díaz Acosta e o espanhol Nikolas Sanchez Izquierdo. Além do simples, o jovem compete nas duplas ao lado do irmão Lipe Miguel. O Brasília Tennis Open vai até 8 de março, com semifinais e final transmitidas pela CazéTV.
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