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Vamos olhar o esporte e o Tênis a longo prazo?

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Por Haroldo Zwetsch Júnior


O tênis brasileiro vive hoje uma excelente realidade, e o que essa realidade revela, quando se olha de perto, não é sorte nem talento súbito, mas permanência: as grandes revelações que o país tem entregue vêm quase sempre de gente que ficou, que atravessou os anos difíceis, que sustentou o sonho justamente quando ele deixou de ser evidente e continuou treinando depois que a plateia diminuiu, e o exemplo mais nítido disso hoje se chama Orlando Luz, que ao lado de Rafael Matos conquistou dois ATP Masters 1000 nesta temporada.


Primeiro em Montréal, dez dias depois em Cincinnati, uma dobradinha que nenhuma dupla cem por cento brasileira havia feito desde que o formato existe, e que só ganha o tamanho verdadeiro quando se conhece o caminho que levou até ali, porque Orlando foi, desde muito cedo, o jogador promissor de que todo mundo fala: em 2014, aos dezesseis anos, campeão de Wimbledon juvenil nas duplas e ouro nos Jogos Olímpicos da Juventude, número um do mundo entre os juniores, cercado de benefícios, de convites, de apoio e daquela expectativa que costuma pesar mais do que ajuda.


Rafael Matos e Orlando Luz (Foto: Cincinnati Open)
Rafael Matos e Orlando Luz (Foto: Cincinnati Open)

Até que a carreira encontrou o que carreira nenhuma anuncia com antecedência, o ceratocone, uma condição degenerativa da córnea que distorce a visão, exige cuidado permanente e cobra do atleta uma adaptação diária num esporte em que ler a bola é tudo, somada a outras dificuldades próprias do ofício, e então aquilo que parecia traçado passou a ser duvidoso, e a pergunta que rondava não era mais até onde ele iria, era se ainda iria, e a resposta que ele deu não foi uma frase, foi uma década: ele ficou, seguiu treinando, seguiu perdendo, seguiu voltando, e quase dez anos depois do auge juvenil encontrou nas duplas um caminho legítimo e um lugar entre os melhores do mundo.


O que me leva à reflexão que quero deixar para pais, treinadores e patrocinadores, porque a parte mais difícil desse processo nunca foi identificar talento, foi permanecer: a maior dificuldade é ficar no esporte, é acreditar no sonho, é construir o sonho do jogador junto com ele e, mais do que isso, construir a vida do jogador, que é feita de altos e baixos, de momentos de glória e de longos períodos de frustração, e é bom que se diga com franqueza o que a quadra ensina todos os dias, que na maior parte do tempo o atleta perde, que a derrota é a matéria-prima da formação e não o sinal de que o caminho está errado, e por isso é um erro grave basear a decisão de continuar apenas no resultado da semana, apenas no ranking do mês, apenas no torneio que não saiu como se esperava.


Porque o resultado é um recorte estreito de um processo longo e quem olha só para ele desiste sempre cedo demais, e aqui está o ponto que trinta anos de quadra me provaram e continuam provando: quem fica no esporte, quem se dedica de verdade, quem quer construir uma carreira e persegue o próprio sonho apesar de todas as dificuldades reais, e elas são reais, chega ao seu ápice — talvez não o ápice de Orlando Luz e Rafael Matos, talvez não um Masters 1000, porque nem todos chegarão lá e prometer isso seria desonesto, mas o seu, aquele que corresponde ao seu limite verdadeiro, e o seu ápice pode ser a universidade americana, pode ser o circuito profissional, pode ser a seleção, pode ser a quadra que ele um dia vai comandar como treinador, pode ser simplesmente o adulto disciplinado, resiliente e íntegro que aquele menino se tornou porque o esporte o formou.


E nenhuma dessas chegadas é pequena, porque formar jogador não é aplicar exercício, é construir sistema, e sistema não se mede em semanas, se mede em anos, então a pergunta que proponho a quem acompanha um atleta é mais simples e mais exigente do que parece: vamos olhar o esporte a longo prazo?, vamos olhar os benefícios do esporte a longo prazo?, vamos parar de pedir ao processo de formação uma velocidade que ele não tem e não terá?, porque o pai que sustenta o filho no esporte está comprando um patrimônio que se revela devagar, o treinador que sustenta o atleta na fase ingrata está construindo o único tipo de resultado que dura, e o patrocinador que entra num projeto de formação precisa entender que está financiando uma trajetória, não uma temporada.


E que o retorno mais valioso desse investimento aparece tarde e aparece inteiro, do jeito que apareceu agora, em Montréal e em Cincinnati, dez anos depois de todo mundo já ter tido tempo de sobra para desistir daquele menino de dezesseis anos, e é por isso que eu insisto, com a serenidade de quem já viu esse filme muitas vezes de dentro da quadra, que o que conta não é o brilho precoce nem o susto da lesão nem o ano em que nada funcionou: o que conta é ficar no esporte e acreditar no sonho, porque o tempo, para quem fica, sempre acaba trabalhando a favor.


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