top of page
Banner Home_Parceiros Nittenis Club (1000 x 500 px) (Site).gif

A frase de Djokovic sobre "o momento se aproximando" ganha novo peso depois deste domingo

  • há 3 dias
  • 8 min de leitura

Novak Djokovic perdeu a estreia do US Open pela primeira vez em 20 participações no torneio, superado pelo argentino Mariano Navone por 7/6 (7-5), 5/7, 4/6, 6/2 e 6/1, em 4h36 de partida disputada na noite de domingo, em Nova York. Depois de sair na frente e abrir dois sets a um, o sérvio viu o corpo ceder por completo no quarto set e chegou a chorar no quinto.


A queda carrega um peso que vai muito além do resultado isolado. Ela tira Djokovic do top 10 do ranking pela primeira vez desde julho de 2018, quando aparecia na 21ª colocação, encerra uma sequência de 78 estreias vitoriosas seguidas em Grand Slams (a última derrota em jogo de abertura de um major havia sido em 2006, ainda aos 18 anos, diante do norte-americano Paul Goldstein no Australian Open) e o afasta da possibilidade de alcançar o recorde de vitórias em Flushing Meadows: ele segue com 95, três atrás das 98 de Jimmy Connors. Mais do que qualquer estatística isolada, porém, o episódio se encaixa em um padrão que vem se repetindo ao longo de toda a temporada de 2026.


Novak Djokovic (Foto: Mike Lawrence/USTA)
Novak Djokovic (Foto: Mike Lawrence/USTA)

O próprio sérvio, em entrevista coletiva após a partida, não escondeu que o problema já o acompanha há meses.


"Acho que ficou óbvio que foi uma sensação horrível para mim na quadra. É algo que tenho carregado comigo, infelizmente, praticamente em todas as partidas deste ano. Vômito, ânsia de vômito, um problema sério. Aí meu corpo todo começa a desmoronar, basicamente com cãibras e dor", lamentou o ex-número 1 do mundo.

O quarto set em que tudo desmoronou

Na quadra, o desenho da partida ajuda a entender o tamanho do colapso. Djokovic abriu vantagem logo nos primeiros games do primeiro set, chegando a 4/1, mas viu o batalhador Navone buscar o empate em 4/4 e definir a parcial no tiebreak, no qual liderou do início ao fim. O sérvio reagiu bem, evitou fugir dos longos ralis e usou a qualidade de sua devolução para virar o segundo set e igualar o confronto. No terceiro, aproveitou o fechamento do teto retrátil do Arthur Ashe, que deixou o jogo mais rápido, para quebrar o saque pouco contundente do argentino no nono game e fechar a parcial com um forehand espetacular na paralela, abrindo dois sets a um.


Foi aí que o corpo o traiu. Depois de confirmar mais uma quebra e abrir 2/1 no quarto set, Djokovic passou a demonstrar sinais evidentes de desgaste físico, chegando a parecer que ia vomitar e sofrendo com espasmos musculares. Perdeu os games seguintes em sequência, já com mais de quatro horas de partida, e teve a mobilidade seriamente reduzida. Chamou o fisioterapeuta para tratamento na lombar, tomou um comprimido e voltou à quadra, mas sem condições de sustentar o nível do início do jogo. Tentou encurtar os pontos, mas viu Navone abrir rapidamente 3/0 no quinto set. Quando finalmente venceu seu único game da parcial, alcançando o 1/3, as lágrimas escaparam.



"No final das contas, as costas e o ombro cederam e eu não consegui finalizar o movimento. Eu estava com uma quebra de vantagem no quarto set, mas tive dificuldades desde então. Novamente, não quero tirar o mérito da vitória dele. Parabéns para ele, que é um cara legal, um lutador. Mas eu não me diverti", acrescentou Djokovic.


A situação física chegou a ser tão grave que o sérvio admitiu ter cogitado abandonar a partida. "Sim, mas aí ganhei um set e depois o terceiro. Aí pensei: 'Ok, talvez haja uma chance'. Não queria desistir no quarto ou quinto set, então queria terminar a partida", afirmou o tenista de 39 anos.


Uma temporada de sinais que já vinham

A imagem de um Djokovic combalido fisicamente não nasceu em Nova York. Há três semanas, ele já havia sofrido um colapso parecido na estreia do Masters 1000 de Cincinnati, quando pediu atendimento médico por conta do calor e da umidade e acabou derrotado de virada pelo argentino Thiago Tirante, então 50º do ranking, por 2/6, 6/4 e 6/4.


Antes disso, em julho, Djokovic havia caído nas semifinais de Wimbledon diante do italiano Jannik Sinner, dois dias depois de sofrer uma queda incômoda no joelho durante as quartas de final. Em Roland Garros, também parou nas semifinais para o próprio Sinner. Em fevereiro, chegou à final do Australian Open, mas ficou preso nos 24 títulos de Grand Slam ao perder para o espanhol Carlos Alcaraz, sem saber, à época, quando teria uma nova chance de voltar a Melbourne. "Só Deus sabe o que acontece amanhã, quanto mais em seis meses", afirmou o sérvio à plateia da Rod Laver Arena, na ocasião, segundo a agência AFP.


O US Open marca, assim, o quarto revés seguido para Djokovic diante de um adversário mais jovem em Grand Slams ou Masters 1000 neste semestre, somado à desistência por lesão na virilha em Toronto. É essa sequência, mais do que qualquer partida isolada, que sustenta a sensação de que a temporada de 2026 está sendo o ano em que a idade finalmente cobrou a conta de um dos corpos mais bem preparados da história do esporte.


Entre negar e aceitar a despedida

Questionado sobre o fim da sequência de 78 estreias vitoriosas em Slams, Djokovic tratou o marco com uma certa distância. "É um bom recorde, mais um. Mas não estou pensando muito nisso. Claro que sempre me orgulhei muito de todas as conquistas do passado, mas agora é agora. Agora o torneio acabou e ainda estou cuidando do meu corpo", comentou o sérvio, que segue afirmando publicamente que gostaria de encerrar a carreira nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, representando a Sérvia.


O discurso vem mudando de tom, ainda que aos poucos. Em julho, durante o Fanatics Fest, em Nova York, Djokovic afirmou concordar com uma frase do ex-tenista Andre Agassi sobre o momento de pendurar a raquete e disse que "o momento está se aproximando", segundo o TênisNews. É uma fala que soa diferente vinda de um atleta que, historicamente, sempre resistiu a qualquer conversa sobre aposentadoria.


A comparação com seus antigos rivais ajuda a dimensionar o quanto Djokovic já estica essa fase da carreira. Roger Federer se aposentou aos 41 anos, em 2022. Rafael Nadal encerrou a trajetória aos 38, em novembro de 2024, na Copa Davis, em Málaga. Andy Murray parou aos 37, nos Jogos Olímpicos de Paris, também em 2024. Aos 39 anos e ainda tentando competir pelo topo do ranking, o sérvio segue sendo, à sua maneira, uma exceção. Mas mesmo as exceções, o US Open deste ano lembrou, têm um limite.


Apesar de abalado, Djokovic reservou elogios ao público do Arthur Ashe, que tentou incentivá-lo mesmo com a partida praticamente definida. "Eles foram super legais. Sou muito grato por ter vivido isso. Quanto à partida em si e à minha sensação geral, tanto física quanto em relação ao meu jogo, não foi nada agradável", disse o atual número 5 do mundo, que deixará o top 10 após o torneio.


"Praticamente detestei cada momento que passei na quadra por causa disso. Mas, da perspectiva da torcida e do apoio, foi incrível, sinceramente, desde o início. Eles tentaram me animar em momentos importantes, e lamento muito não ter jogado tão bem quanto deveria, poderia ou gostaria para eles. Mas o amor e a gratidão que me demonstraram no final realmente tocaram meu coração", finalizou.


Navone: o rival que também escreveu sua história

Do outro lado da quadra, Mariano Navone não escondia a felicidade por ter batido não apenas um dos maiores nomes da história do tênis, mas também um de seus ídolos. Ainda em quadra, o argentino resumiu a emoção do momento. "Com certeza é a melhor sensação que já tive, ainda mais em uma quadra incrível. É incrível a maneira como joguei os cinco sets contra o 'Goat'. Estou muito feliz e não tenho mais nada a dizer", falou Navone, em sua entrevista em quadra, depois de mais de 4h de jogo e cinco sets para derrotar Djokovic.


"É inacreditável, significa muito para mim. Antes da partida estava duro, pois iria enfrentar o maior em um palco que ele está mais do que acostumado a jogar. É um sonho que virou realidade. Agora tenho que me recuperar, tentar dormir e seguir em frente", acrescentou.


Já na entrevista coletiva, o argentino de 25 anos, atual 49º do ranking, deu mais detalhes sobre o significado da vitória. "Nunca tinha jogado no Arthur Ashe e enfrentei Novak pela primeira vez. Também foi minha primeira vitória em cinco sets, então é um momento que vou me lembrar por muito tempo. É algo importante para mim e pelo desenvolvimento do meu jogo. Com certeza é um dos melhores momentos que tive no tênis."


Sobre o que pesou mais na vitória, apontou o aspecto mental. "É difícil de dizer, a partida terminou muito tarde e foi bem dura. Foi a primeira vez que joguei contra Novak, em um dos maiores palcos do tênis. Ele nunca havia perdido na estreia que em 20 anos, isso é uma coisa maluca. Acho a parte mental o principal", observou. "Estava mais preocupado com as coisas do meu lado e não ficava olhando muito para ele. No quinto set eu tive certeza que estava com problemas, mas Novak é o maior de todos e sempre encontra saídas para os momentos difíceis, por isso tinha que focar no meu lado e na minha estratégia."


O argentino reconheceu que o último set foi mais tranquilo, sem deixar de valorizar o adversário. "Novak estava com a energia baixa e lutando menos, mas até chegar aí foram quatro horas", brincou. Navone também lembrou de um episódio que lhe deu confiança para acreditar na vitória: um duelo apertado com Rafael Nadal em 2024. "Estive perto de vencer Rafa em Bastad em 2024, perdi no terceiro set por 7/5. Foi uma partida desafiadora para mim. Você cresce vendo esses caras, por isso significa muito. Quando você tem a chance de jogar contra esses caras você quer vencer, é um sonho que vira realidade."


Com o resultado, Navone chega apenas à sexta vez em que avança da primeira rodada de um Grand Slam, e à segunda no próprio US Open. Sua melhor campanha em majors segue sendo a terceira rodada de Roland Garros de 2025. Na próxima rodada, ele espera o vencedor do confronto entre o suíço Stan Wawrinka e o italiano Matteo Berrettini.


O que vem a seguir

Enquanto Djokovic lidava com a eliminação, o restante da chave seguiu seu curso em Flushing Meadows. O cazaque Alexander Bublik, 15º cabeça de chave, teve trabalho para superar o norte-americano JJ Wolf por 6/4, 6/2, 3/6 e 6/1, e agora enfrenta o vencedor de Thiago Tirante (o mesmo que havia batido Djokovic em Cincinnati) contra o francês Adrian Mannarino. Já o argentino Tomas Etcheverry, 27º favorito, avançou com tranquilidade sobre o tcheco Vit Kopriva, por 6/3, 6/4 e 6/0, e aguarda o confronto entre o espanhol Martin Landaluce e o britânico Jacob Fearnley, interrompido pela chuva ainda no oitavo game.


Para Djokovic, a dúvida agora é outra: se valerá a pena se arriscar nos torneios asiáticos do fim de temporada, únicos compromissos que lhe restam além do que ainda decidir. O sérvio sai do US Open sem seu 25º Grand Slam, fora do top 10 pela primeira vez em oito anos e, pela primeira vez de forma tão explícita, admitindo em público que o fim está mais perto do que nunca esteve.


É um momento que, guardadas as proporções, o tênis brasileiro também observa de perto: enquanto a geração de Djokovic caminha para o encerramento, a nova leva de tenistas segue ocupando espaço, e João Fonseca, hoje 26º do mundo aos 19 anos e já elogiado publicamente pelo próprio sérvio, é parte dela. As eras se sobrepõem por um tempo. Depois, uma simplesmente segue sem a outra.



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page