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Livro de neurologista cita tênis e tênis de mesa como aliados da plasticidade cerebral

28 de ago.
6 min de leitura

Lançado recentemente em Porto Alegre, um livro colocou o tênis e o tênis de mesa lado a lado com a dança numa lista bem específica: a de atividades físicas com maior potencial para proteger o cérebro. Em Cérebros Quebrados: Uma Epidemia Invisível, o neurologista Pedro Schestatsky cita dois estudos científicos para sustentar a ideia de que o cérebro se beneficia menos da quantidade de exercício físico e mais da complexidade cognitiva embutida no movimento.



Schestatsky é neurologista, coordenador de programas de pós-graduação em saúde mental e em autismo e TDAH, com pós-doutorado em Harvard e mais de 50 artigos científicos publicados ao longo de duas décadas de pesquisa. O livro, publicado pela Editora Gente com prefácio do escritor Fabrício Carpinejar, mergulha profundamente na onda de problemas de saúde mental, frequentemente provocada pela sobrecarga imposta pelo mundo moderno sobre o funcionamento cerebral. O autor aponta que fatores como má alimentação, sedentarismo e privação de sono não apenas antecipam diagnósticos, mas também contribuem para a formação de uma geração cronicamente inflamada.


Schestatsky defende que sair da rotina de movimento obriga o cérebro a se adaptar, abrindo espaço para a plasticidade cerebral. É nesse contexto, o de exercícios com forte componente cognitivo: "o tênis e o pingue-pongue mostram achados promissores", sobretudo por exigirem coordenação, tempo de reação, atenção e tomada de decisão ao mesmo tempo.


No lançamento na capital gaúcha, o neurologista reforçou o tom de alerta que dá título ao livro. Lembrou que o Brasil lidera rankings de ansiedade, depressão e declínio cognitivo precoce, e chegou a afirmar que "metade dos idosos em 2050 terá Alzheimer". O pano de fundo do capítulo em questão é justamente esse: caminhar, dançar, jogar tênis ou tênis de mesa não protegem o cérebro pelo gasto calórico, mas por forçarem o órgão a processar informação nova e imprevisível, o mesmo mecanismo, segundo o livro, por trás dos ganhos observados em caminhada nórdica, caminhada para trás e outras variações que fogem do automatismo.


O que o tênis faz pela memória infantil

O livro cita o estudo japonês assinado por Toru Ishihara e Masao Mizuno, da Universidade Hokkaido, que comparou ao longo de 12 meses dois grupos de crianças de 6 a 11 anos que já praticavam tênis: um de alta frequência, quatro vezes por semana, outro de baixa frequência, uma vez por semana.


Crianças jogam tênis em quadra de saibro, uma menina rebate a bola e um menino observa atrás da rede.
(Foto: Reprodução/pixelshot)

A frequência afetou de forma desigual os três pilares das chamadas funções executivas. A flexibilidade cognitiva, a capacidade de alternar entre regras ou estratégias diferentes sem perder o fio da meada, melhorou mesmo no grupo que treinava apenas uma vez por semana.


Já a memória de trabalho, usada para reter e manipular informações relevantes enquanto se ignora o que distrai, precisou da frequência mais alta para mostrar ganho relevante: o grupo de quatro sessões semanais teve uma melhora significativamente maior do que o de uma sessão. O controle inibitório, terceiro componente das funções executivas, não apresentou desenvolvimento associado à frequência de prática dentro desse desenho específico.


A distinção importa porque contraria uma intuição comum, a de que mais esporte produz ganho cognitivo de forma linear e uniforme. Não é bem assim: cada função executiva parece responder a um volume mínimo diferente de estímulo, e é justamente essa exigência variável, mais do que o esforço físico em si, que aparece como fio condutor do capítulo de Schestatsky.


O achado dialoga com um estudo companheiro do mesmo grupo de pesquisa, publicado também em 2018, agora na revista Developmental Science, que avaliou 68 crianças de 6 a 12 anos (34 meninos, 34 meninas) já matriculadas em aulas regulares de tênis, com experiência média de 2,4 anos no esporte. Ali, os pesquisadores usaram três testes específicos, o Stroop Color-Word Test para controle inibitório, a tarefa 2-back para memória de trabalho e a tarefa Local-Global para flexibilidade cognitiva, e mediram a atividade física diária de cada criança com acelerômetros triaxiais. A conclusão foi que os três componentes das funções executivas se relacionavam mais com o condicionamento físico do que com o volume bruto de atividade, e que apenas nos meninos o tempo de prática de tênis esteve associado a uma flexibilidade cognitiva maior.


Há ainda um terceiro artigo do mesmo trio de pesquisadores, de 2019, que acompanhou jovens tenistas competitivos por 18 meses e encontrou uma relação direta entre a flexibilidade cognitiva medida no início do período e a evolução no ranking júnior nos meses seguintes, mesmo depois de descontadas a idade e a colocação inicial de cada atleta. Para quem cobre tênis de base no Brasil, o dado é sugestivo: a vantagem cognitiva que a quadra ajuda a construir na infância pode, segundo essa linha de pesquisa, se converter com o tempo em vantagem competitiva dentro do próprio circuito júnior.


A mesa entra na conversa

O livro também cita um trabalho bem mais recente e ambicioso. Publicado em 5 de fevereiro deste ano, o artigo de Louis Moustakas e Kathrin Patzsch, da Universidade de Ciências Aplicadas de Kufstein, na Áustria, reuniu 17 estudos feitos entre 2010 e 2025 sobre os efeitos do tênis de mesa fora do circuito competitivo: em escolas, clínicas, prisões e ambientes de trabalho. A pesquisa foi encomendada pela Fundação da Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTFF), que está desenvolvendo um manual para orientar profissionais que usam o esporte como ferramenta terapêutica.


Os 17 estudos, somados, envolveram entre 12 e 329 participantes cada, com média de 113 pessoas por trabalho, das quais em média 78 efetivamente jogaram tênis de mesa.


Olhando estudo por estudo, o retrato fica mais nítido. Entre crianças, um exemplo detalhado vem de Taiwan: Chen e colegas dividiram 91 crianças com deficiência intelectual leve ou funcionamento intelectual limítrofe entre tênis de mesa, terapia ocupacional padrão e grupo de controle, ao longo de 16 semanas, com três sessões de 60 minutos por semana.


As 45 crianças do grupo de tênis de mesa foram avaliadas antes e depois por três testes, o Test of Visual Perceptual Skill, o Wisconsin Card Sorting Test e o Stroop, usados para medir percepção visual e função executiva. Em outro par de estudos taiwaneses, com 32 e depois 60 meninos com TDAH, Pan e colegas registraram melhoras em agilidade, força e composição motora total após 12 semanas de intervenção com raquete, duas sessões de 70 minutos por semana.


Entre adultos, a amostra mais numerosa de toda a revisão vem da Espanha: Aparicio-Chueca e Muñoz-Vila ouviram 329 praticantes regulares de tênis de mesa, a maioria acima de 50 anos, sobre os benefícios físicos, cognitivos, emocionais e sociais que percebem no esporte. Num extremo bem menor, um estudo sueco acompanhou apenas 12 funcionários de um mesmo local de trabalho ao longo de cinco semanas de tênis de mesa e relatou redução de estresse e melhora na dinâmica social do ambiente. Já um estudo nigeriano, com 140 detentos de uma prisão em Ilesa, dos quais 14 jogaram tênis de mesa por oito semanas, documentou ganhos de interação social dentro do presídio.


Entre idosos, a Universidade de Isfahan, no Irã, assina três dos 17 estudos revisados, todos com a mesma amostra de 40 homens acima de 65 anos, medindo composição corporal, densidade óssea e perfil lipídico. É justamente essa repetição de amostra que a revisão aponta como sinal de alerta, um possível caso do que a literatura acadêmica chama de fatiamento de publicações. Já um estudo chinês mais recente, com 93 participantes entre 60 e 70 anos, usou exames de conectividade cortical para associar a experiência em tênis de mesa a um controle motor mais eficiente no cérebro envelhecido.


O caso mais delicado da lista, clinicamente, é o de pacientes com Parkinson. Um estudo japonês acompanhou 12 pacientes por seis meses, com sessões de seis horas por semana, num total de 156 horas de prática, a maior carga horária entre os 17 estudos revisados. Em três meses, os pesquisadores já observavam melhora nos escores motores e nas atividades de vida diária, sem nenhum evento adverso registrado, algo que os autores da revisão destacam como evidência de que o esporte é seguro mesmo para esse público, um ponto que conversa diretamente com o interesse de Schestatsky por doenças neurodegenerativas.


O único estudo brasileiro da lista

Entre as 17 pesquisas mapeadas pela revisão, uma tem origem brasileira. O estudo de Deprá e colegas, publicado em 2022 no periódico Journal of Physical Education, avaliou os efeitos do tênis de mesa sobre o equilíbrio e a aptidão física de idosos. O trabalho teve apenas 16 participantes, divididos entre o grupo que treinou tênis de mesa (oito idosos) e o grupo de controle, instruído a manter a rotina normal e não iniciar nenhuma atividade esportiva nova. Durante 16 semanas, os praticantes treinaram duas vezes por semana, 75 minutos por sessão, total de 40 horas de prática. O equilíbrio foi medido por estabilografia, e a aptidão física, pelas baterias de Rikli e Jones e do Teste de Passos Laterais de Rodrigues, antes e depois da intervenção.


O resultado se soma ao achado mais consistente da revisão inteira: entre idosos, o tênis de mesa aparece associado a ganhos de equilíbrio, força, massa magra e densidade óssea, um conjunto de benefícios particularmente relevante num esporte que exige pouco deslocamento e, por isso, reduz o risco de queda durante o próprio treino.




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