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A quadra não tem prazo de validade

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Atualizado: há 2 dias

"Teríamos que tirá-los do cemitério."

À esquerda, Francisco Javier Jacir e Tito Zerené, após ganhar o primeiro lugar                                                                                 no torneio do Club Palestino, categoria Honor, em 1962 (Foto: aldamir.com) Dois tenistas se cumprimentam na rede após partida. Ambos vestem roupas brancas. Fundo com espectadores e quadra aberta.
À esquerda, Francisco Javier Jacir e Tito Zerené, após ganhar o primeiro lugar no torneio do Club Palestino, categoria Honor, em 1962 (Foto: aldamir.com)

Foi a resposta que Tito Zerené recebeu quando perguntou se haveria adversários da sua faixa etária no próximo torneio. Faz sentido. Tito tem 101 anos. Encontrar alguém para jogar na mesma categoria não é algo exatamente fácil.


O que também não é fácil, mas acontece mesmo assim, contra todos os prognósticos, toda semana, em quadras espalhadas pelo mundo, é o que esta matéria tenta contar. Porque Tito não está sozinho. Longe disso.


Ao redor do planeta, uma geração improvável de centenários insiste em aparecer na quadra. Com marcapassos, joelhos artificiais, aparelhos auditivos e, no caso de pelo menos um deles, "dois novos narizes". Eles sobreviveram a guerras, enterraram amigos, viram a raquete mudar de madeira para carbono. E toda semana estão lá — esperando a bolinha amarela quicar, para devolvê-la para o outro lado da rede.


A Federação Internacional de Tênis tem categorias para jogadores acima de 90 e acima de 95 anos. Está discutindo criar uma para acima de 100. O motivo é simples: tem gente jogando.


A ciência, aliás, há muito desconfia que o tênis seja algo especial nesse sentido. O Copenhagen City Heart Study — um dos maiores estudos longitudinais sobre estilo de vida e mortalidade já realizados, com mais de 8.500 participantes acompanhados por 25 anos — chegou a uma conclusão que surpreendeu até seus próprios autores: entre todos os esportes analisados, o tênis é o mais associado à longevidade. Jogadores recreativos vivem, em média, 9,7 anos a mais do que pessoas sedentárias. Natação acrescenta 3,4 anos. Corrida, 3,2. Ciclismo, 3,7. Nenhum chega perto.


Por que? Os pesquisadores apontam a combinação singular do tênis: aeróbico e anaeróbico ao mesmo tempo, com explosões de intensidade seguidas de recuperação — treinamento intervalado natural, antes do conceito virar moda. Equilíbrio, força muscular, tomada de decisão rápida, leitura de espaço. Mas, talvez acima de tudo, um fator que nenhuma esteira em casa replica: é um esporte social. Há alguém do outro lado da rede. Há um clube, uma comunidade, um compromisso. "Pertencer a um grupo que se encontra regularmente cria um ambiente de apoio que pode ser tão determinante quanto o exercício em si", concluíram os pesquisadores. Uma pesquisa publicada no British Journal of Sports Medicine reforçou: praticantes de esportes de raquete têm risco de mortalidade por qualquer causa 47% menor do que pessoas sedentárias.


Tito poderia ter explicado isso com outras palavras, se alguém lhe tivesse perguntado antes.


Dois homens sorrindo; um faz joinha. Plantas ao fundo com decorações estreladas. Ambiente iluminado e alegre.
Os brasileiros Francisco Vianna, 100 anos, e seu filho caçula Carlos Eduardo, 70 (Foto: Divulgação)

Tito Zerené, 101 anos — Chile: o homem que nunca parou

Tito nasceu em 1924 numa pequena cidade a quase 300 quilômetros de Santiago. Quando a família se mudou para a capital chilena, ele tinha 18 anos — e foi a primeira vez que viu uma quadra de tênis. O impacto foi imediato. "No primeiro dia em que vi uma, disse: este é o esporte que quero praticar. Isso já faz mais de 80 anos e nunca deixei de jogar." A Federação Internacional de Tênis (ITF) reconhece Tito como um dos tenistas mais longevos do mundo em atividade — um título que, nos últimos anos, ele disputou palmo a palmo com outros atletas centenários espalhados pelo planeta.


Em mais de oito décadas de raquete, Tito passou por todas as categorias do tênis chileno. Não chegou a ser profissional. Trabalhou na Índústria, importava máquinas da França e dos EUA para o setor têxtil. O tênis era o que sobrava de melhor do dia. No início dos anos 60, quando o Clube Palestino de Santiago ainda não tinha uma única quadra, foi Tito quem reuniu oito amigos e fundou o departamento de tênis. Hoje há um quadro com a foto de todos eles na sede do clube. Dos oito, ele é o único vivo.


Tito Zeneré, chileno, Homem idoso sorrindo em quadra de tênis, vestindo roupa azul e boné. Ele segura uma raquete enquanto se prepara para jogar.
O chileno Tito Zerené *Foto: Reprodução/Instagram)

Essa constatação, que aparece quase de passagem numa entrevista, carrega um peso que vai além do esporte. Aquele grupo de amigos virou história, e Tito é o único que ainda pode contá-la. E ainda joga onde eles treinaram juntos. Quando tinha 97, convocado pelos filhos, foi ao campeonato sênior da ITF nos Estados Unidos pela primeira vez na vida. Levou toda a família, ficou em terceiro lugar, visitou a NASA e ainda achou que foi principalmente um "passeio".


"Fui mais por insistência dos meus filhos", admite. "Pensei: no mínimo vai servir como passeio, viagem e prazer." No final, trouxe uma medalha que nunca planejou ganhar. E não foi a única vez que a família toda foi à quadra junto: há poucos meses, Tito jogou com o filho, que levava o bisneto do patriarca no colo. O neto também estava presente no dia. Quatro gerações numa única partida. "Não sei se existe alguém mais que jogue tênis com o filho, o neto e o bisneto ao mesmo tempo", disse, com a calma de quem já viu muita coisa nessa vida.


Seu segredo declarado é quase um anticlímax: nunca fumou, bebe no máximo uma taça de vinho em festas, e quando quer jogar tênis sempre encontra tempo. "Pode acordar mais cedo, almoçar mais tarde, sempre há tempo." Sobre o futuro, não tem dúvidas: "Enquanto o senhor lá de cima não me chamar, continuarei jogando."


Henry Young, 102 anos — Austrália: o piloto que aterrissou na quadra

Henry Young nasceu em 1923 em Glenelg, no sul da Austrália. Aos 19 anos, com a guerra explodindo, alistou-se na Fleet Air Arm da Marinha Real Britânica. Voou Spitfires. Sobreviveu. Quando a guerra acabou, tentou conseguir terra de colonos na Nova Zelândia. Havia 2.000 candidatos para cada lote disponível. Não conseguiu. Transferiu-se para a Marinha australiana. Conheceu Madge, com quem ficaria casado por 72 anos, até a morte dela, em 2025. Juntos foram para uma fazenda em Keith, no sudeste. Vieram décadas de trabalho duro, com os bancos "no seu pescoço", como ele descreve. Os três filhos cresceram e foram para a universidade. Henry vendeu a fazenda e se aposentou em Adelaide, aos 70 anos.


Henry Young no Memorial Drive Tennis Club em Adelaide (Sia Duff/The Guardian). Homem idoso com raquete de tênis, vestindo jaqueta branca com texto e boné, em quadra coberta. Ambiente esportivo e descontraído.
Henry Young no Memorial Drive Tennis Club em Adelaide (Sia Duff/The Guardian)

Foi aí que passou de carro pela frente do Memorial Drive Tennis Club e viu um cartaz pedindo "bons jogadores de tênis". "Quando vi aquela placa, tentei a sorte. O resto é história", conta. O que veio depois ninguém imaginava. Nem ele. Aos 100 anos, Henry se tornou o primeiro centenário a competir no ITF Masters World Individual Championships, em Mallorca, na Espanha. Sua primeira partida neste torneio terminou 6/2 e 6/3: uma vitória contra um espanhol de 95 anos. Fez tudo isso com dois joelhos artificiais, um quadril novo, um marcapasso, aparelhos auditivos e o que ele mesmo acrescenta com humor afiado: "dois novos narizes". Sobre o recorde histórico, foi sucinto: "É bom ser o primeiro. É algo que ninguém pode me tirar."


Questionado sobre o segredo da longevidade, respondeu com a ironia de quem já está cansado de ser perguntado: "Mente sã e nada de mulheres fáceis — o que elimina todos os meus amigos." Mais sério, credita à dieta simples: leite, mel e cereais. "Beba leite, coma mel, faça exercício e durma bastante", recomenda. Sobre o tênis em si, não tem dúvidas sobre por que continua: "Adoro o espírito competitivo do tênis. Fui competitivo a vida toda, é isso que amo no esporte. O que você vai fazer quando se aposentar? Pode vegetar, ou pode se divertir."


No Australian Open de 2023, entrou pelo túnel do Rod Laver Arena com 99 anos e 15 mil pessoas de pé. Do outro lado da rede estava Leonid Stanislavsky, de Kharkiv, com 98 anos. Os dois jogaram. "Quando caminhei por aquele túnel, com todos os grandes do tênis nas paredes dos dois lados… foi uma experiência incrível", recordou Henry depois. "É o sonho de todo tenista." E acrescentou, com franqueza: "Vou continuar jogando até começar a envergonhar meu parceiro de duplas. Acho que ainda tenho alguns anos."



Ele estava certo. Em outubro de 2025, com 102 anos recém-completados, voltou a competir no ITF Masters World Championships — desta vez na Croácia — tornando-se o único jogador da história a disputar o torneio com mais de cem anos em duas edições diferentes. Em fevereiro de 2026, foi lançado o documentário Forever Young sobre sua trajetória (confira o trailer abaixo). Henry esteve presente na estreia para um Q&A ao vivo.

Cen-to-e-do-is-a-nos!



Leonid Stanislavsky, 100 anos em 2024 — Ucrânia: tênis como ato de resistência

Do outro lado daquela rede histórica em Melbourne estava Leonid Stanislavsky — e sua história é talvez a mais densa de todas. Nascido em Kharkiv em 1924, Leonid foi engenheiro durante a Segunda Guerra Mundial, projetando e fabricando aviões de guerra soviéticos para combater os nazistas. Sobreviveu. Reconstruiu a vida. Começou a jogar tênis aos 30 anos. Passou décadas na quadra. E quando chegou aos 90, algo mudou: passou a competir a sério — campeonatos mundiais, campeonatos europeus, viagens internacionais.


Rafa Nadal com Leonid Stanislavsky, aos 97 anos. Dois homens sorrindo para a câmera. Um usa camiseta laranja e boné branco, o outro, casaco amarelo. Fundo azul cria contraste.
Rafa Nadal com Leonid Stanislavsky, aos 97 anos (Foto: Reprodução/Instagram)

Em outubro de 2021, um dos maiores sonhos da sua vida se realizou: jogou uma partida com Rafael Nadal na academia do espanhol, em Mallorca. "Sentimentos indescritíveis", disse sobre o encontro. "Nadal me tratou com atenção e respeito. Depois do jogo, ele mesmo pegou uma caneta e assinou minha camiseta com símbolos ucranianos." Quatro meses depois, as bombas começaram a cair em Kharkiv. Stanislavsky, com 97 anos, ficou em casa. Recusou os pedidos da filha para ir à Polônia. "Tenho mau ouvido, durmo à noite e não ouço nada. À noite havia bombardeios, de manhã as sirenes tocavam de novo", contou à Reuters. "Já sobrevivi à Segunda Guerra Mundial. Vou sobreviver a essa também." E então: "Espero chegar aos 100 anos. Preciso sobreviver a essa situação assustadora."


Completou 100 anos em março de 2024, com Kharkiv ainda sob a guerra. Até onde há registro, não parou: treinava, participava de competições internacionais e organizava partidas em apoio às forças ucranianas. Virou personagem de um documentário britânico chamado Silver Servers, ao lado de outros veteranos do tênis. Desde então, não há notícias. Nenhum obituário — mas também nenhum sinal de vida pública. Para alguém que viveu tanto e resistiu a tanto, o silêncio pesa de um jeito especial.



Bill Newman, 100 anos — EUA: entre as quadras e a escola

Em Morro Bay, no litoral da Califórnia, Bill Newman passou 35 anos na educação pública — foi diretor da Morro Elementary e superintendente do San Luis Coastal Unified School District. Conhece todo mundo, todo mundo o conhece. Começou a jogar tênis aos 39 anos porque sim, porque gostou, porque dava para encaixar na rotina. Nunca mais parou.


Bill Newman ao centro, com familiares e amigos (Foto: KSBY News). Grupo de pessoas sorrindo em quadra de tênis, segurando raquetes. Céu nublado, fundo com árvores e rede ao centro. Atmosfera alegre.
Bill Newman ao centro, com familiares e amigos (Foto: KSBY News)

Completou cem anos em junho de 2025 cercado dos filhos, seis netos e três bisnetos — e dos amigos do clube, que apareceram com bolos e raquetes. "Não parece muito diferente de um ano atrás, mas é muito diferente de alguns anos atrás", disse, com o humor suave de quem não precisa exagerar. "De vez em quando ainda consigo passar a bola por essas pessoas." Seus parceiros de quadra, que o conhecem há décadas, têm outra perspectiva. "Somos uma grande família feliz. O homem é uma influência absoluta para todo mundo aqui", resumiu Gregory Doyle, companheiro de quadra. Sua filha Leigh acrescentou: "Ele inspirou todos a terem uma visão diferente sobre o que a vida pode ser — durante a carreira e depois dela." Para o próprio Bill, a resposta é mais simples: "Uma grande família. É uma das coisas que me manteve vivo por tanto tempo."


Bill Newman nunca foi veterano de guerra nem piloto de Spitfire. Não tem uma história de dramaturgia cinematográfica. Sua história é a da consistência discreta — décadas na mesma quadra, com os mesmos amigos, fazendo a mesma coisa que ama. E talvez seja exatamente isso que o torna tão valioso como personagem: a prova de que não é preciso ser extraordinário para viver extraordinariamente.


Lloyd Lettis, 101 anos em 2022 — EUA: o cara que dirigia até a quadra sozinho

Numa manhã de outubro de 2020, quando o sol ainda começava a aparecer sobre o Los Altos High School no Vale do Silício, Lloyd Lettis chegou às quadras alguns minutos atrasado — e pediu desculpas. Tinha acabado de completar 100 anos. Era o primeiro dia da segunda centúria. Nada de pausa. Nada de reflexão solene. A partida estava marcada.


Lettis nasceu em 1920, formou-se em engenharia elétrica na UC Berkeley — onde conheceu a mulher com quem ficaria casado por 75 anos — e serviu na Força Aérea americana na Segunda Guerra como engenheiro de radares. Depois, décadas de trabalho na indústria aeronáutica do Vale do Silício. Aposentou-se e fez o que os dados do Copenhagen Study previam sem saber de sua existência: continuou ativo, continuou social, continuou com propósito. Três vezes por semana na quadra. Bridge competitivo. Astronomia. Voluntariado na biblioteca. Aos 101 anos, o filho confessava com mistura de orgulho e ansiedade: "Adoro que ele jogue tênis três vezes por semana. Odeio que ele dirija sozinho até lá e não chame um Uber." O último registro público de Lloyd data de 2022. Teria hoje mais de 105 anos.


Lloyd Lettis (Foto: The Mercury News). Homem idoso sorrindo, segurando uma raquete de tênis. Ele veste boné e agasalho escuro. Fundo desfocado, ar descontraído e feliz.
Lloyd Lettis (Foto: The Mercury News)

Quando alguém perguntou sobre o segredo da longevidade, Lettis não hesitou: "Nenhum segredo. Talvez tenha sido a fazenda. Talvez todo aquele trabalho colhendo maçãs." E sobre o futuro no esporte: "Vou continuar jogando enquanto puder — ou enquanto eles me aguentarem." Seus parceiros de duplas, um grupo de "jovens" na casa dos 80, nunca deram moleza. "Qualquer dia em que você está de pé é um bom dia, não é?", brincou seu parceiro Tony Plutynski, de 84 anos, naquela manhã histórica.


Gardnar Mulloy — o "pai" de todos eles

Antes de Tito, de Henry, de Leonid e de Lloyd, havia um homem em Miami que já estava provando que isso era possível. Seu nome era Gardnar Mulloy. Ele faleceu em 2016, aos 102 anos, ainda sendo lembrado por adversários e companheiros como alguém que nunca, em momento algum, pareceu disposto a deixar o tênis.


Gardnar Mulloy, aos 100 anos, homem mais velho jogando tênis ao ar livre. Ele segura uma raquete preta enquanto acerta a bola. Veste camisa branca e parece concentrado.
Gardnar Mulloy, aos 100 anos (Foto: Associated Press)

Mulloy nasceu em 1913 em Washington, cresceu perto do Miami River, e começou a jogar numa quadra de terra batida que o pai construiu no quintal de casa. Virou número 1 dos Estados Unidos, venceu cinco títulos de Grand Slam em duplas, quatro deles no que hoje é o US Open, ao lado de Billy Talbert. Aos 43 anos, ganhou Wimbledon com Budge Patty, recebendo o troféu das mãos da Rainha Elizabeth II. A imprensa britânica já o chamava de "Grand Old Man" do tênis décadas antes de qualquer centenário contemporâneo aparecer. O Sports Illustrated foi ainda mais direto: "não houve nenhum homem que tenha jogado melhor por mais tempo."


Mas o que Mulloy fez fora da era de ouro é o que o coloca nesta história. Ele competiu por 75 anos, ganhou títulos sênior até perto dos 90 e continuava aparecendo em quadras locais em Miami até os 90 e tantos. Fundou o torneio que levaria seu nome — a Mulloy Cup, para jogadores com mais de 80 anos. Foi o primeiro membro do International Tennis Hall of Fame a ultrapassar a barreira dos 100. Quando perguntado sobre o segredo, respondia com a impaciência de quem já estava cansado da pergunta: "Fui mais velho do que a maioria dos jogadores da minha era. E geralmente estava em melhor forma do que eles. Não bebi, não fumei e cuidei da dieta." E sobre continuar jogando na terceira idade: "Você não é campeão a menos que se coloque em jogo. As pessoas me perguntavam por que eu queria jogar seniors e arriscar minha reputação. Minha resposta é: você não é campeão a menos que se coloque na linha."


Mulloy, membro do Hall da Fama Internacional do Tênis, conquistou 129 títulos nacionais nos EUA.                            (Foto: Associated Press / Arquivo 1959)
Mulloy, membro do Hall da Fama Internacional do Tênis, conquistou 129 títulos nacionais nos EUA. (Foto: Associated Press / Arquivo 1959)

Mulloy foi, em muitos sentidos, o ancestral simbólico de tudo o que está descrito nesta matéria. Não sabia que estava abrindo um caminho, estava apenas jogando mais uma partida. É o que todos eles fazem.


E o Brasil?

Em Niterói, há um homem de 100 anos que vai fazer 101 em maio. Seu nome é Francisco Vianna Soares Filho — Vianna com dois "n", como faz questão de destacar Carlos Eduardo Leal. O caçula de quatro filhos conta que o tênis sempre foi a espinha dorsal da família. Nunca foi só um esporte — era rotina, era encontro, era vida.


Carlos Eduardo e o pai Francisco Vianna, em seu centésimo aniversário
Carlos Eduardo e o pai Francisco Vianna, em seu centésimo aniversário

"Quando eu nasci, há 70 anos, já existia a quadra de tênis na família", conta Carlos Eduardo. Enquanto conta histórias do passado, ele folheia fotos antigas — imagens da inauguração da quadra de saibro no sítio de Tribobó, onde nasceu. Em uma delas, aponta o pai do lado direito, raquete Dunlop Maxply na mão. Em outra, identifica o avô embaixo de uma placa, o tio-avô ao lado, e outros tenistas ao redor. Todo mundo de branco — não era só estética. Era regra. "Só se entrava em quadra com tênis branco, meia branca, short e camiseta branca, como em Wimbledon." E em algum canto de uma dessas fotos, no colo da mãe, estava ele — pequenininho, de blusa xadrez, olhando para a quadra e perguntando quem ia lhe dar uma raquete. Confira as fotos, diretamente do álbum de família.



Mineiro de Carangola, Vianna sempre foi mais comerciante do que advogado, embora fosse formado em direito. Foi dono do BIM — Banco de Intercâmbio Mercantil, o primeiro banco a oferecer caderneta de poupança para crianças. Depois, a Niterói Automóveis S.A., uma revenda Ford que ocupava toda a área onde hoje é o Plaza Shopping. Homem de negócios, homem de tênis. As duas coisas andavam juntas. Na Noronha Torrezão, no bairro niteroiense de Santa Rosa, tinha a sua própria quadra — o Vianna Tênis Clube. Lá reunia amigos todas as terçar, quintas e sábados. Às vezes domingo também. Alex Grael, Thorben Grael e a mãe deles, Ingrid, passaram por ali. Era um centro de referência no tênis de Niterói. "Muita gente começou como boleiro lá em casa e depois virou jogador", lembra o filho psicanalista, vizinho do Rio Cricket, onde em 1888 foi inaugurada a primeira quadra do país.


Até os 95 anos, um amigo passava na casa dele, pegava-o e os dois iam ao Clube Naval jogar. A rotina era sagrada. E então veio a pandemia. "Se posso dizer uma tristeza na vida do meu pai, foi ter parado de jogar tênis", diz Carlos Eduardo, com uma pausa que carrega o peso da frase. Depois, quando foi possível se reunir novamente, foram até a quadra do sítio do irmão Horácio. Francisco entrou em quadra aos 97 anos. Jogou. E ainda encontrou tempo para elogiar o backhand do filho: "Ele dizia que eu batia melhor de esquerda do que de direita, mesmo sendo destro."



Francisco Vianna tem 100 anos, quatro filhos, dez netos e nove bisnetos. Bebe uma taça de vinho com moderação — como sempre fez. Não joga mais tênis, mas o tênis ainda joga nele: está na família, nos filhos, nos netos, na quadra que existe desde antes de qualquer um deles nascer. "A vida dele girava em torno do tênis", diz Carlos. "Reunir amigos, jogar, fazer churrasco. Ele fez disso a vida dele."


Perguntado sobre o que o tênis representava para ele, Vianna não titubeou:


"Foi minha vida. Me deu saúde, alegrias, muitas alegrias, disciplina e amigos".

Existe outro brasileiro que merece ser lembrado. José Nepomuceno, cearense de Pacatuba radicado em São Paulo, foi em 2021 um dos tenistas mais velhos do mundo em atividade, com 94 anos. Esbanjando bom-humor e vitalidade, foi personagem de uma ótima matéria do UOL, quando disputava a 35ª edição do Golden Lake Multiplan Seniors Internacional - Porto Alegre, duas categorias abaixo, a partir de 80 anos.


"Sou o mais velho do Brasil e mais velho do mundo. O ucraniano [Leonid Stanislavsky] é o gaiato que desafiou o Federer e jogou com o Nadal, ele é jogador avulso, de clube. Nadal como é solicito foi lá bater uma bola com ele. Não é federado. Eu sou federado e fui 3ª classe", deixou bem claro.


José Nepomuceno, aos 94 anos em 2021 (Foto: Gustavo Werneck). Homem jogando tênis em quadra de saibro, usando roupa azul e boné branco. Publicidade "Golden Lake" no fundo. Ação e concentração.
José Nepomuceno, aos 94 anos em 2021 (Foto: Gustavo Werneck)

Jogava no Clube Pinheiros, a duzentos metros de casa, e não cogitava parar. "A hora que eu começar a me machucar, eu paro", dizia. Seu segredo declarado era quiroterapia e, sem cerimônia, uma cachaça quando possível. Depois de 2021, não há mais registros. Não há obituário — mas também não há notícias. Nascido em 1927, teria hoje cerca de 98 anos. Fica a lembrança de quem jogou até onde pôde.


O que a quadra sabe que a gente esquece

Tito Zerené nunca fumou. Bebeu ocasionalmente. Praticou tênis todos os dias quando era jovem — e hoje joga sempre quando dá.


Henry Young perdeu Madge em 2025, depois de 72 anos juntos — e voltou à quadra.


Leonid Stanislavsky ficou em casa com a geladeira cheia enquanto as bombas caíam em Kharkiv, esperando o dia em que poderia bater uma bolinha novamente.


Bill Newman disse que a família é o que o manteve vivo.


Lloyd Lettis disse que o segredo talvez tenha sido colher maçãs.


Nenhum deles tem uma teoria. Nenhum vendeu um método. O que fizeram — sem saber, sem planejar — foi construir ao longo de décadas uma razão recorrente para sair de casa. Uma quadra reservada. Um parceiro esperando. Uma partida marcada. A ciência chama isso de senso de propósito, ou ikigai na filosofia japonesa. Eles chamavam de dia de jogo.


O próprio circuito organizado começa a refletir o que esses homens já sabem. A ITF hoje tem categorias 90+ e 95+ em seus torneios masters — algo impensável há algumas décadas. E há, dentro da federação, discussões sérias sobre criar uma categoria 100+. O tênis está aprendendo, na prática, que precisa de novos limites porque os antigos já foram superados por pessoas reais, com raquetes reais, em quadras reais.


Dos oito homens com quem Tito fundou o departamento de tênis do Clube Palestino em 1963, ele é o único vivo. Quando fala nisso, a voz muda. "Fico emocionado e um pouco triste", disse. Mas na semana seguinte ele voltou à quadra. Como sempre.


Essa é, talvez, a única lição que importa: não é sobre longevidade. É sobre aparecer. Semana após semana, década após década, com sol ou com nublado, com os amigos de sempre ou com a memória deles — aparecer na quadra, pegar a raquete e jogar mais uma partida.


A questão nunca foi quanto tempo você vive. É o que você faz toda semana enquanto está aqui.


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Para ver com os próprios olhos: Tito Zerené está no Instagram @titozerenetenis. A "Batalha dos Centenários" entre Henry Young e Leonid Stanislavsky no Rod Laver Arena está no YouTube da Tennis Australia — busque por "Henry Young Rod Laver Arena". Reserve alguns minutos. E talvez um lenço.


Fontes: entrevista exclusiva com Tito Zerené (PAGE NOT FOUND, março 2026); ITF Tennis; Tennis Australia; Mallorca Daily Bulletin; ABC News Australia; CNN; Reuters; KSBY News; Mercury News; Copenhagen City Heart Study; British Journal of Sports Medicine.

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