Agassi no Rio Open: a coletiva completa
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André Agassi esteve no Rio de Janeiro nesta sexta-feira como uma das atrações paralelas do Rio Open. O norte-americano, um dos maiores tenistas da história e detentor de todos os quatro Grand Slams ao longo da carreira, participou de uma entrevista coletiva no Jockey Club Brasileiro e recebeu jornalistas de diferentes países para uma conversa franca sobre tênis, memórias e o presente do esporte.
O nome de João Fonseca dominou boa parte do encontro. Agassi, que conviveu com o brasileiro durante a última edição da Laver Cup, não poupou elogios ao jovem de 19 anos e foi além das qualidades técnicas: destacou a maturidade emocional e intelectual do tenista carioca como diferenciais que podem levá-lo longe. "Ele é emocionalmente além da sua idade", afirmou o americano, acrescentando que torce para que Fonseca saiba separar as próprias metas das expectativas externas. Uma lição que o próprio Agassi levou anos para aprender.
A coletiva também abriu espaço para reflexões sobre as transformações do tênis moderno, o avanço do esporte para o Oriente Médio, o futuro de talentos como o argentino Francisco Cerúndolo e o chileno Cristian Garín.
Agassi falou também da relação sempre especial com o Brasil. Em novembro de 1987, o norte-americano venceu o Sul America Open, disputado em Itaparica, na Bahia, derrotando o brasileiro Luiz Mattar por 7-6 e 6-2 na fina. Foi o primeiro título de simples da carreira dele, tendo entradp no torneio como wild card.
Confira abaixo a íntegra da entrevista coletiva com André Agassi.
Jornalista: Você tem algum conselho para o João Fonseca sobre como lidar com o peso das expectativas?
Eu encorajaria o João a encarar isso como um grande elogio — o fato de as pessoas acharem que ele deveria vencer todas as partidas. É um elogio enorme. Mas também o encorajaria a entender que corresponder às expectativas dos outros não é responsabilidade dele. A responsabilidade dele é buscar sempre melhorar.
Espero que ele encontre conforto nessa separação entre o que os outros esperam e o que ele escolhe fazer por si mesmo. Às vezes fica difícil porque você se adianta, começa a dar valor demais à vitória ou à derrota, e esquece o que precisa fazer para melhorar — porque vencer é um subproduto de fazer mil coisas certas.
Ele tem o luxo de ser jovem, mas carrega o peso de uma expectativa enorme. E o conheço bem o suficiente para entender as sensibilidades dele. Como já mencionei, ele é emocionalmente mais maduro do que a idade sugere, muito inteligente e emocionalmente estável. Você torce para que ele seja conduzido de forma cuidadosa e focada, porque não há razão para ele não estar melhorando a cada semana, mesmo com derrotas.
Jornalista: Você vê diferenças significativas entre o tênis da sua época e o atual?
Sim, há uma grande diferença. O jogo está sempre evoluindo. A primeira mudança que me parece ter alterado de forma mais marcante a estratégia e a geometria do tênis foi a corda poliéster de longa duração — quando o Guga trouxe isso, o spin passou a ser central. Quando você é recompensado por bater mais forte e ainda ter controle, as trajetórias mudam, a geometria muda, o posicionamento em quadra muda e, consequentemente, tudo muda.
A criança que cresce vendo isso começa a ter mais ou menos sucesso dependendo do seu biotipo — quão grande é, quão atrás ela joga para ganhar tempo. É um pêndulo lento, mas o jogo sempre se adapta.
Eu tive a sorte de jogar de uma forma que me permitia enfrentar tanto quem vinha para a rede quanto quem jogava muito atrás, porque eu sempre joguei no meio-termo. Mas hoje os atletas são muito maiores, muito mais rápidos, e há muito mais tênis de transição. Você nunca sabe bem quando está ganhando o ponto, porque de qualquer parte da quadra esses atletas podem te pressionar. O jogo mudou dramaticamente. Ainda há muita estratégia, mas as condições do jogo são outras.

Jornalista: Qual é a parte mais difícil de jogar em casa, diante da torcida?
É uma reação muito individual. Alguns jogadores se recolhem quando estão competindo num ambiente em que a torcida está contra eles — isso pode fazer aflorar o melhor deles, dependendo de como são. Vimos isso durante anos com [o sueco Mats] Wilander— parece que ele quase provoca um ambiente hostil para se superar. Em outros casos, a energia da torcida da casa eleva demais e acaba gerando pressão.
O nível de exigência em casa é sempre alto, e a reação emocional é muito sensível e única para cada pessoa. No meu caso, era sempre 50 a 50. Às vezes a torcida me dava tudo o que eu precisava. Outras vezes, eu queria tanto fazer aquilo por elas que acabava querendo demais — e isso tornava as coisas mais difíceis. Sempre agradeci o apoio, mas às vezes saía pela culatra.
Jornalista: Você trabalhou com Francisco Cerúndolo na Laver Cup. Você acha que ele tem condições e habilidades para entrar no top 10?
Ah, o Cisco! Ele é incrível. Foi um pilar para a Equipe Mundo na Laver Cup. É um dos adversários mais difíceis de enfrentar no tênis — sempre aparece, tem uma ética de trabalho exemplar, se movimenta muito bem, tem um forehand poderoso e é um ótimo competidor.
Nunca desconto ninguém quando se trata de alcançar o que é capaz, ou até mais, porque muito disso acontece na cabeça, não só nas habilidades técnicas. Ele tem as habilidades e a dedicação para isso. Adoro estar perto dele, adoro vê-lo jogar, e acho que ele só está melhorando. Eu sempre prefiro trabalho duro a talento excepcional — já vi talento imenso ser desperdiçado, mas nunca vi dedicação deixar de impressionar.
Jornalista: Você jogou contra Marcelo Rios e Fernando González. Conhece os tenistas chilenos atuais, como Alejandro Tabilo e Cristian Garín?
Vi o Garín jogar pela primeira vez na TV essa semana. Infelizmente, só consigo acompanhar esses jogadores quando estão passando na televisão, então precisam ir longe nos torneios para chegar à minha sala. Mas não demoro muito para analisar o jogo deles. Adoro ver a tradição de grandes jogadores do Chile continuar.
Jornalista: Qual é sua impressão de estar de volta ao Brasil e de reencontrar o João Fonseca?
Primeiro, é ótimo estar de volta e ter um motivo para voltar ao Brasil. Tenho tantas memórias aqui. Tive apenas uma breve chance de caminhar pelo clube, que é extraordinariamente bonito — tanto pela estrutura quanto pelo ambiente, muito íntimo.
Encontrei o João nas quadras de treino e pude passar uma semana com ele na Laver Cup, então foi muito bom revê-lo. Ele é claramente uma grande sensação, mas é uma pessoa ainda melhor — muito além da sua idade mentalmente e emocionalmente, muito autoconsciente, muito atento ao ambiente ao redor, muito inteligente, processa muito bem as situações. Sempre é bom ver alguém que respeito tanto dentro e fora de quadra.
Jornalista: O que você acha da expansão do tênis para o Oriente Médio, com torneios em Doha, Dubai e agora um Masters na Arábia Saudita, em contraste com a tradição do tênis na América do Sul?
Não tenho uma cadeira privilegiada nos bastidores para entender todas as razões por trás das decisões, mas o que vejo é que o esporte virou um grande negócio. Cresceu muito — alguns jogadores são tratados quase como corporações, tamanha é a quantidade de negócios envolvidos. A condição humana é imbatível: se você quer saber para onde algo está indo, siga o dinheiro.
Dito isso, tenho um lugar especial no coração por estar aqui, pelos fãs do esporte e do tênis na América do Sul. Gosto de ver a equidade disso sendo compartilhada. Acho que a mudança de superfície pode influenciar a decisão de alguns jogadores de vir para cá, porque é uma transição muito difícil sair daqui direto para as quadras rápidas americanas. Vimos isso no ano passado com o Sinner, que veio aqui e demorou um tempo para encontrar o ritmo.
Em certos aspectos, a superfície mais lenta poderia incentivar mais jogadores a continuarem no circuito sul-americano. Mas os jogadores precisam gerenciar o calendário, o jogo e as decisões de onde jogar para garantir que estejam no seu melhor nos momentos mais importantes. Não é fácil sair de quadra rápida para a pesada deste ambiente — você sente a umidade, a densidade do jogo, o peso, a lentidão — e então voltar para o piso duro. Não é fácil para o corpo, para a mente nem para a logística de viagem.
Gosto de ver o jogo crescer, as instalações melhorando, novos países se envolvendo, mais competição. Mas quanto aos pormenores dos prós e contras de cada decisão, não estou nos bastidores para falar com propriedade.
Jornalista: Você trabalhou brevemente com Grigor Dimitrov. Pensa em voltar a trabalhar em tempo integral com algum jogador?
Acho que nunca trabalhei realmente em tempo integral com nenhum jogador — isso exige muita viagem e muito tempo, e eu não tenho disponibilidade para isso. Conheço o Grigor desde que era adolescente. Ele veio a Las Vegas me ver muitas vezes. É uma pessoa linda, e sempre quis o melhor para ele. Trabalhei mais intensamente com ele por cerca de um ano e meio, e acho que ambos saímos mais ricos dessa experiência.
Não me vejo viajando como técnico em tempo integral. Seria preciso uma conjunção muito especial de circunstâncias para isso acontecer, levando em conta as minhas prioridades atuais. Mas, de muitas formas, acho que se pode fazer a maior diferença quase à distância — sendo uma espécie de estrela-guia para alguém ouvir algo de forma objetiva. O que importa nunca é o que você diz, mas o que a pessoa escuta. Quando você está com alguém o tempo todo, as coisas podem ficar turvas. À distância, você pode dizer: "olha, é isso que estou percebendo — como você está se sentindo? Porque é isso que estou vendo." E isso ajuda o jogador a se manter mais claro consigo mesmo. Às vezes posso ser mais eficaz de longe, mas o tempo presencial também é sempre importante.
Jornalista: Você já pensou em uma edição da Laver Cup no Brasil, considerando sua relação com o João Fonseca?
Queria ter mais controle sobre essas decisões — especialmente quando se pode escolher o time, a superfície, o local. Há muita coisa envolvida para fazer um evento desse acontecer num calendário com uma demanda tão pesada sobre os jogadores. A localização precisa estar no fluxo natural do circuito, próxima ao torneio anterior e ao seguinte. A Laver Cup tem feito um ótimo trabalho em resolver essa logística.
Mas jogar aqui, com aquele formato, seria extraordinário. Este é um país muito apaixonado pelo esporte, e eu vi isso de perto — os brasileiros torcendo pelos seus favoritos, eu jogando aqui, minha primeira vitória no Brasil em 1987. Aprendi na prática que tipo de paixão e ambiente o Brasil traz a qualquer evento esportivo — imagine então numa Laver Cup.
É um fim de semana de tênis muito intenso. Conheci muitos fãs que foram a vários Grand Slams e à Laver Cup, e você ficaria surpreso com quantos escolheriam a Laver Cup se tivessem que optar por apenas um, tamanha é a intensidade e a singularidade de ver tantos estilos diferentes se enfrentando, do simples ao duplas, com jogadores competindo lado a lado com seus pares. Os caras entram em quadra com uma intensidade enorme. Ter a Laver Cup aqui seria incrível — mas infelizmente não tenho poder de decisão sobre isso.

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