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Alcaraz é mais um a criticar calendário e propor mudanças

  • há 13 minutos
  • 5 min de leitura

O espanhol Carlos Alcaraz, 3º do ranking mundial, tornou-se nesta quarta-feira mais um nome de peso a engrossar o coro de críticas ao calendário do tênis profissional. Depois de vencer o português Jaime Faria por 4/6, 6/0, 6/3 e 6/2, na segunda rodada do US Open, o espanhol declarou que pretende tirar pausas mais longas nas próximas temporadas e apontou o excesso de torneios obrigatórios como parte da explicação para o aumento de lesões no circuito.



O momento carrega um peso específico. Depois de ficar quase cinco meses fora das quadras por causa de uma lesão no punho, que o tirou de Roland Garros e de boa parte da temporada de saibro e grama, Alcaraz volta a tocar no assunto já na sua segunda partida de retorno ao circuito.


E não fala sozinho: nas últimas semanas, o alemão Alexander Zverev e o norte-americano Taylor Fritz reclamaram do formato dos Masters 1000 em Cincinnati, o sérvio Novak Djokovic pediu um "reinício" completo do esporte em Wimbledon, e do lado feminino a polonesa Iga Swiatek repete a queixa desde o ano passado.


O jogo contra Faria

Contra o português, o espanhol perdeu o primeiro set e precisou de quatro parciais para fechar a vitória, um teste físico que ele próprio via com bons olhos depois de tanto tempo parado.


"Para ser sincero, queria que fosse mais rápido, não vou mentir. Mas no fim, percebi que jogar quatro sets foi muito bom para mim, para testar tudo fisicamente, para ver como meu corpo reage, como me sinto e como vou me sentir amanhã depois desta partida. Estou feliz por ter conseguido jogar um bom tênis durante os quatro sets", analisou.


Alcaraz garantiu que o punho não voltou a incomodar durante os treinos, nem durante as partidas: "Nem durante o treino nem durante as partidas", disse o espanhol.


"Sei que quando entro em quadra, preciso dar tudo de mim todas as vezes. Preciso me sentir normal. Preciso bater na bola como fazia antes da lesão e ver o que acontece. Estou me sentindo ótimo. Não há motivo para ter medo e não bater na bola normalmente", acrescentou o tenista de Múrcia.


A chave da virada

Depois de estrear em partida diurna, Alcaraz teve pela frente uma sessão noturna já na segunda rodada, mudança que o obrigou a reajustar o jogo.


"Jogar à noite é um mundo completamente diferente de jogar durante o dia. A bola fica maior. É mais difícil movimentá-la e causar dano. Tive um break-point e não aproveitei. Depois disso, só quis jogar pontos curtos, e isso foi um erro da minha parte", avaliou.


"Eu precisava jogar com mais paciência, construir os pontos com trocas de bola longas de três, quatro ou cinco golpes, e então partir para o ataque. Mas eu estava tentando construir o ponto desde os primeiros golpes e não consegui. Diria que foi por isso que ele conseguiu a quebra e levou o primeiro set", ponderou Alcaraz.


"Depois disso, percebi o que precisava fazer. Precisava ser mais paciente, construir os pontos desde o início. Consegui uma quebra logo no começo, o que me ajudou muito a jogar com mais calma e pensar com mais clareza sobre tudo. Diria que esse foi o ponto de virada", finalizou o espanhol, que avança à terceira rodada, onde enfrenta o chinês Yibing Wu.


Novas pausas no radar

Foi ainda tratando do retorno após a lesão que Alcaraz abriu o tema que dá nome a esta reportagem.


"Para ser sincero, tive uma pausa mais longa do que gostaria, obviamente não queria ter essa pausa por causa de uma lesão. No entanto, considerando o quão apertado está o calendário, no futuro, pretendo fazer algumas pausas, algumas mais longas", comentou.


"Talvez não quatro meses, mas um ou dois meses, perdendo alguns torneios, porque é impossível jogar todos. E estão adicionando mais torneios importantes. Isso é impossível, estamos vendo muitos jogadores se lesionando, muitos jogadores se cansando. Se não fizerem nada a respeito, veremos ainda mais casos no futuro", acrescentou Alcaraz.


Na mesma coletiva, o espanhol foi além e detalhou a conta que incomoda o vestiário: "Estamos vendo muitos jogadores se machucando e ficando cansados", disse, ao lembrar que o calendário obrigatório da ATP pode chegar a 40 semanas de competição por temporada para quem disputa todos os torneios exigidos.


A lista de ausentes por lesão no US Open deste ano dá razão ao espanhol: Jannik Sinner, Jack Draper e Holger Rune, entre outros, também ficaram de fora. No tênis masculino brasileiro, o caso mais recente é o de João Fonseca. O carioca, 26º do mundo, anunciou na semana passada que não disputaria o torneio por causa de uma lesão no abdômen sofrida em Cincinnati, no fim de uma temporada já marcada por dores na lombar e incômodos no punho e no ombro.


Zverev, Fritz e a maratona americana

Enquanto Alcaraz ainda se recuperava, o restante do circuito viveu semanas de queixas parecidas durante a sequência de Masters 1000 no Canadá e em Cincinnati que antecede o US Open, hoje esticada para duas semanas em cada sede.


Em coletiva em Cincinnati, Zverev, atual campeão de Roland Garros, foi direto ao apontar o problema: "Muitos dos principais jogadores optam por não jogar mais no Canadá", disse. O alemão defendeu o retorno ao formato de uma semana por Masters 1000 e questionou se os torneios de duas semanas realmente aumentam a premiação para quem avança às fases finais, citando como exemplo ter recebido menos dinheiro ao vencer o Masters de Roma em 2024 do que em 2017. Taylor Fritz, ao seu lado na coletiva, classificou como muito difícil encadear dois torneios longos seguidos sem tempo de recuperação entre eles.


A dupla não fala sozinha.A posição de Zverev converge com queixas antigas de Jannik Sinner e do próprio Alcaraz sobre o número de torneios obrigatórios e o sistema de punições da ATP para quem os descumpre.


Djokovic, o veterano do protesto

Se Zverev e Fritz falam a partir da fadiga da temporada em curso, Djokovic fala a partir de quase duas décadas reclamando do mesmo problema.


Em Wimbledon, depois de vencer Wu Yibing na estreia, o sérvio dedicou boa parte da entrevista coletiva ao tema, criticando a extensão dos Masters 1000 para duas semanas e a falta de união entre os próprios jogadores. "O tênis realmente precisa de algum tipo de reinício em um nível maior", disse. Djokovic também atribuiu a ampliação dos torneios a interesses comerciais dos donos das sedes, e não dos próprios tenistas, além de defender formatos mais curtos e dinâmicos fora dos Grand Slams para atrair um público mais jovem.


O discurso não é novo. Um ano antes, em Xangai, ele já fazia o mesmo alerta, lembrando que o tema é debatido no vestiário havia muito mais tempo do que se imagina. "Mais de 15 anos atrás eu já falava sobre a necessidade de nos reunirmos", afirmou na ocasião, poucos dias depois de Alcaraz, Coco Gauff e Iga Swiatek criticarem o calendário na mesma semana, durante o China Open.


O mesmo discurso do outro lado da rede

Swiatek é a prova de que o desgaste não é exclusividade do circuito masculino. Às vésperas de Wimbledon de 2025, a polonesa foi direta: "Não faz sentido precisarmos jogar mais de 20 torneios em um ano", declarou à imprensa. Meses depois, em meio a uma sequência de lesões no China Open que tirou cinco jogadoras de quadra em um único dia, ela reforçou o ponto: "Não acho que alguma jogadora do topo consiga de fato cumprir isso", voltou a afirmar.


O que diz a ATP

Questionada pela Reuters sobre as críticas, a ATP respondeu que os próprios tenistas controlam seus calendários e afirmou trabalhar para incentivar um número adequado de partidas ao longo da temporada. A entidade também argumenta que os torneios de duas semanas ampliaram o número de jogadores no quadro principal dos Masters 1000, dando a tenistas fora do Top 50 a chance de disputar esse nível de competição.


Para Alcaraz, por ora, a prioridade é mais imediata: a terceira rodada do US Open, diante de Wu Yibing. O debate sobre o calendário, esse, segue sem data marcada para terminar.


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