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Assédio online já atinge centenas de tenistas, e Raducanu dispara "não há como impedir"

  • 26 de fev.
  • 5 min de leitura

Em entrevista publicada nesta quinta-feira pelo jornal espanhol AS, Emma Raducanu encarou de frente uma das questões mais desconfortáveis do circuito moderno: o assédio virtual que ela, assim como centenas de colegas, recebe nas redes sociais. A britânica de 22 anos, atualmente no 25º lugar do ranking WTA, não tentou minimizar o problema. Mas também não fingiu que tem solução.


Raducanu chora em Dubai com presença de stalker na arquibancada (Foto: Reuters)
Raducanu chora em Dubai com presença de stalker na arquibancada (Foto: Reuters)

"Aceitei que o assédio online continuará acontecendo. Não importa o quanto se faça a respeito, há muitas pessoas por aí, e não há como impedi-las", disse Raducanu à publicação.


"Faz parte de estar sob os holofotes ou ser uma figura pública. Se eu não conquistasse nada, ninguém falaria de mim, então acho importante estar ciente disso e aceitar que não há como impedir."

Uma frase de conformismo que carrega mais resignação do que paz. E que não veio do nada.


O que Raducanu já viveu

A entrevista acontece um ano depois de um dos episódios mais perturbadores da carreira da britânica. Em fevereiro de 2025, durante o Dubai Championships, ela ficou visivelmente perturbada e precisou se esconder atrás da cadeira do árbitro quando avistou nas arquibancadas um homem que a WTA descreveu como exibindo "comportamento obsessivo". O mesmo indivíduo a havia abordado duas vezes fora de quadra, e estava presente em seus jogos anteriores em Singapura, Abu Dhabi e Doha, antes de chegar a Dubai.


"Vi ele no primeiro game da partida e pensei: 'Não sei se vou conseguir terminar'. Literalmente não conseguia ver a bola por causa das lágrimas. Mal conseguia respirar", disse Raducanu, em declarações à imprensa em Indian Wells, na primeira vez que falou publicamente sobre o ocorrido.



O homem foi expulso do torneio, recebeu uma ordem de restrição da polícia de Dubai e foi banido de todos os eventos da WTA. Não adiantou de todo: posteriormente, ele tentou se inscrever no sorteio público de ingressos de Wimbledon, mas o sistema de segurança do All England Club identificou seu nome na lista de alertas e bloqueou a tentativa.


Não era o primeiro stalker de Raducanu: em 2022, outro homem recebeu uma ordem de restrição de cinco anos depois de aparecer três vezes na casa da tenista em Londres. Pouco depois do incidente em Dubai, ela desativou sua conta no Instagram, onde tinha 3 milhões de seguidores.


A questão, portanto, não é nova para ela. Mas também não é exclusividade sua.


458 atletas, 40% dos ataques de apostadores

Em junho de 2025, WTA e ITF publicaram o primeiro relatório completo sobre assédio digital no circuito, com dados coletados ao longo de todo o ano de 2024. O serviço de monitoramento Threat Matrix, da Signify Group, analisou 1,6 milhão de publicações e comentários e verificou cerca de 8.000 posts de 4.200 contas diferentes como abusivos ou ameaçadores.


Os números têm escala. 458 tenistas receberam ameaças ou ataques diretos ao longo do ano. Apenas cinco delas concentraram 26% de todo o conteúdo abusivo verificado. Um grupo pequeno de 97 contas foi responsável por quase um quarto do total.


O principal motor desse ódio? As apostas esportivas. Apostadores frustrados enviaram 40% de todo o conteúdo abusivo detectado no ano. Nos casos de abuso direto, reportados pelas próprias jogadoras ao serviço, esse índice sobe para 77%. É o apostador que perdeu dinheiro num resultado e decidiu cobrar a conta no direct da atleta. Quinze casos foram considerados graves o suficiente para serem encaminhados a autoridades policiais: três ao FBI, 12 a órgãos nacionais de outros países.


O problema tem endereço, mas nem sempre tem solução rápida.


Da tela para a quadra

No tênis feminino, o caso mais revelador de 2025 sobre como o assédio virtual pode ultrapassar os limites do digital foi o de Iga Swiatek. Durante uma sessão de treino no Miami Open em março, ela foi confrontada pessoalmente por um indivíduo que já a havia atacado nas redes sociais. O homem apareceu na academia e passou a gritar insultos pessoais contra ela e sua família. A equipe da polonesa descreveu o episódio como "uma transição direta da agressão verbal online para o assédio no mundo real". O torneio reforçou a segurança de Swiatek imediatamente.


Katie Boulter foi ainda mais direta sobre o impacto psicológico. A britânica mostrou à BBC mensagens com ameaças de morte dirigidas a ela e sua família após uma derrota no Grand Slam. "Fica mais evidente toda vez que você pega o celular. Acho que aumenta em número e também em intensidade", ela disse. "Não acho que tenha mais nada fora dos limites."


Jessica Pegula, que integra o Conselho de Jogadoras da WTA, foi objetiva sobre as restrições que as tenistas enfrentam: muitas das maiores estrelas simplesmente não podem "sair das redes sociais", por causa de obrigações com patrocinadores e contratos de marketing. Ou seja: ficar offline não é uma opção real. O problema tem que ser resolvido onde ele acontece.


O que o circuito está fazendo

A ATP lançou, em julho de 2024, o Safe Sport, uma iniciativa para filtrar conteúdo abusivo nos perfis dos jogadores usando inteligência artificial em tempo real. O serviço está disponível para jogadores do Grupo 1, ou seja, o top 250 do ranking de simples e o top 50 de duplas. No primeiro ano de operação, o sistema varreu mais de 3,1 milhões de comentários. Deste total, mais de 162.000 comentários abusivos foram identificados e ocultados automaticamente. Em casos extremos, um em cada dois comentários num mesmo post continha conteúdo ofensivo.


Do lado feminino, o Threat Matrix já opera em 39 idiomas e protege automaticamente qualquer jogadora que dispute eventos da WTA Tour e do ITF World Tennis Tour, totalizando mais de 7.700 atletas cobertas. A cobertura é ampla. A efetividade, parcial.


O que Raducanu também disse

A entrevista ao AS não foi só sobre assédio. Raducanu falou também sobre a fase irregular que atravessa. Após problemas de saúde na sequência de torneios no Oriente Médio, com um vírus contraído em Cluj que a comprometeu por semanas, a britânica mirava Indian Wells como o momento de virada. "A turnê pelo Oriente Médio tem sido muito difícil para mim. Estou me preparando para Indian Wells e tentando me recuperar totalmente, então espero dar o meu melhor", afirmou.


Sobre treinadores, ela foi direta: não está buscando um décimo nome no momento. A separação mais recente foi do espanhol Francis Roig. "Tivemos uma ótima experiência; nos demos muito bem e o relacionamento foi excelente, mas, no fim, não concordamos em pontos-chave. Apesar disso, mantemos uma boa relação", explicou.


Para encerrar, como faz com frequência desde que venceu o US Open de 2021 aos 18 anos e entrou numa montanha-russa de lesões, cirurgias e recomeços, Raducanu recorreu à linguagem da resiliência: "A temporada é muito longa e é muito difícil estar em quadra o tempo todo se você está jogando tantos torneios obrigatórios. Sei que, seja qual for o desafio que eu tenha que enfrentar, cairei sete vezes, mas me levantarei oito."


Queda e levantada ela já conhece bem. No assédio online, como ela mesma disse, ainda não há manual.


Raducanu inicia sua participação no WTA 1000 de Indian Wells na próxima semana. O torneio californiano, que ela classifica como seu favorito fora dos Slams, será sua primeira grande prova após a sequência conturbada no Oriente Médio.

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