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"ATP está sabotando o Rio Open", diz Demoliner em desabafo que virou o assunto da gira

  • 23 de fev.
  • 5 min de leitura

Marcelo Demoliner foi direto ao ponto logo nos três primeiros segundos do reels que publicou no Instagram durante o Rio Open 2026. "ATP está sabotando o Rio Open."


O vídeo tem dois minutos. Demoliner fala sentado, olhando para a câmera, com o trânsito do circuito na cabeça de quem viveu 20 anos dentro dele. O resultado é uma das análises mais honestas sobre a crise da gira sul-americana que alguém do tour já expôs em público.


"Esse vídeo é um desabafo e um alerta sobre o que está acontecendo com a gira sul-americana", anuncia ele. E é exatamente isso.


Paixão, moeda fraca e um torneio numa armadilha

Demoliner começa pelo que sente, não pelos dados. "Jogar na América do Sul nunca foi sobre dinheiro, sempre foi sobre paixão. A moeda é fraca, a economia é menor, mas o público comparece e joga junto." É a premissa que ancora tudo o que vem a seguir: o problema não é o público, não é o torneio, não é o país. O problema é a estrutura em que esse torneio foi colocado.


"O problema é que hoje a própria ATP colocou o torneio numa posição quase que inviável", diz ele. "E só a ATP pode mudar isso."


A construção é precisa. Demoliner identifica o culpado, mas não fecha a porta. Ele não quer que o Rio Open morra. Quer que a entidade que criou o problema resolva.


A linha do tempo que explica tudo

O tenista gaúcho vai à raiz. "O Rio Open nasceu em 2014 com o ATP 500 e sonho de Master 1000." A ambição sempre existiu. O que nunca funcionou foi o encaixe no calendário. "Desde o início, o desafio era claro: não faz sentido sair do Australian Open direto para o saibro antes de Indian Wells e Miami." Qualquer tenista orientado pela temporada de quadra dura tem razão de evitar essa janela. Não é capricho. É profissionalismo.


Depois veio a pandemia, e com ela uma virada de mesa. "Piorou. Entrou dinheiro pesado do Oriente Médio." A partir daí, o roteiro foi um só: "O Rio tentou mudar o piso, a data, e só viu não. Enquanto isso, a ATP fortaleceu concorrentes. A escolha para os jogadores ficou óbvia."


Uma frase, e o argumento está fechado. "Nos bastidores, o consenso é claro: o dinheiro falou mais alto."


Demoliner não precisa citar Doha, Dubai ou a Arábia Saudita pelo nome para que qualquer pessoa do circuito entenda exatamente do que ele está falando. A linha do tempo que ele traça é suficiente.


O CEO veio. Tarde demais?

Há um sinal de que algo pode estar mudando, e Demoliner o menciona sem euforia. "O CEO da ATP veio ao Brasil discutir mudanças." A visita de Andrea Gaudenzi ao Jockey Club, a primeira de um presidente da entidade à América Latina em 12 anos, não passa despercebida. Mas a leitura de Demoliner é a de quem já assistiu a muitos torneios sendo prometidos e poucos sendo cumpridos.


"Para muitos, tarde demais. E mesmo assim, ainda dá tempo."


Duas frases curtas, com pesos opostos. É toda a síntese possível para uma situação que arrasta há anos.


João Fonseca e o argumento mais suave do vídeo

O único momento em que o tom de Demoliner muda é quando ele fala de João Fonseca. A dureza sai um pouco do quadro. "O Rio Open está no holofote, principalmente pela ascensão de João Fonseca. Anos atrás, ele viu Rafael Nadal de perto e sonhou em estar em quadra. Porque referência é tudo e demonstra que você pode sonhar alto. Isso é poder do esporte, é inspirar e nos permitir sonhar."


É o argumento mais estratégico do vídeo, justamente por ser o mais humano. Demoliner não está falando de ranking ou de prize money aqui. Está dizendo que o torneio importa além do circuito, que ele existe para alguma coisa que vai além de pontos e contratos. Desperdiçar isso seria um erro de outra ordem.


A Ferrari e o paralelepípedo

A síntese final é uma imagem que dispensa qualquer glossário técnico. "A verdade é que hoje o Rio Open é uma Ferrari presa numa rua de paralelopípedo e sem saída. E só quem pode tirar essa barreira e mudar essa situação é a ATP."


Não poderia ser mais claro. O problema não é o carro. O problema é a rua. E quem construiu a rua é quem pode reconstruir.


O vídeo termina com uma pergunta aberta para os seguidores: "Qual a mudança mais importante para o Rio Open? Mudar de piso? Mudar de data? Quero escutar aí de vocês." Mais que uma estratégia de engajamento, uma pergunta real que a ATP ainda não respondeu com clareza ao torneio.


Nos comentários, o debate foi extenso. Ninguém ficou em cima do muro.


Uma voz importante

Demoliner tem cinco títulos ATP, quartas de final de Grand Slam no US Open 2022 e ouro pan-americano em Santiago. Credencial não falta. Mas o que transforma esse reels em algo fora do comum é que ele poderia ter dito exatamente isso numa coletiva de imprensa e ninguém teria prestado atenção da mesma forma. Com 126 mil seguidores no Instagram (@mdemoliner), ele construiu ao longo de anos um canal onde fala como alguém que está dentro, não como alguém que está lendo o comunicado oficial.


É uma posição rara no tênis profissional. E, nesta semana, ficou claro para que serve.


Fernando Romboli e Marcelo Demoliner (Foto: Fotojump)
Fernando Romboli e Marcelo Demoliner (Foto: Fotojump)
Desfecho à vista?

A visita de Andrea Gaudenzi ao Brasil não foi surpresa para quem acompanha o noticiário do circuito. O jornal argentino La Nación já havia revelado que o presidente da ATP estaria primeiro em Buenos Aires e depois no Jockey Club com um objetivo concreto: discutir a realocação da gira sul-americana no calendário a partir de 2028, ano em que a entidade planeja estrear um novo Masters 1000 na Arábia Saudita, em fevereiro. O problema é que fevereiro já está ocupado pelos ATP 500 de Doha e Dubai. E pelo Rio Open. Com um Masters 1000 nessa janela, o regulamento da ATP elimina qualquer outro torneio da semana. O torneio carioca, encravado exatamente ali, ficaria sem saída legal no calendário.


A intenção de Gaudenzi é mudar os dois torneios sul-americanos para outubro ou novembro. As posições, porém, são diferentes. O ATP 250 de Buenos Aires, com contrato garantido com a ATP até 2033, é contra a mudança de data e prefere aproveitar o momento para pleitear uma elevação de categoria para ATP 500.


O Rio Open caminha na direção oposta: defende há anos a troca do saibro pela quadra dura, e a mudança de data seria o gatilho para viabilizar essa transição. Lui Carvalho, diretor do torneio, confirmou à CNN Brasil que as negociações estão em curso. "A gente tá nessa luta de mudança de piso há alguns anos já", disse ele. "Eu tenho certeza que ajudaria a atrair os mais principais nomes do tênis mundial para o Rio." Carvalho também revelou que a visita de Gaudenzi foi motivada em parte pela visibilidade que o esporte brasileiro ganhou internacionalmente com a ascensão de João Fonseca: "Ele veio pro Rio Open esse ano para ver o evento, muito em função desse volume, dessa atratividade do esporte pelo brasileiro que eles estão acompanhando lá de fora através das redes sociais."


Vale o registro histórico: a última vez que um presidente da ATP pisou na América Latina tinha sido em 2014, quando Chris Kermode esteve na região. Doze anos de ausência. Uma visita agora, com o calendário em rearranjo e o Oriente Médio como força gravitacional do circuito, tem peso diferente do que teria em qualquer outro momento. Depois do encerramento do torneio, Carvalho confirmou que a reunião com Gaudenzi não produziu acordo formal, mas manteve o tom positivo: "Confio que estamos chegando perto de um desfecho feliz para fazer essa mudança." Prazo, por enquanto, nenhum.

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