Bia estreia em Roland Garros neste domingo contra tenista com rara condição genética e calendário restrito
- 22 de mai.
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Beatriz Haddad Maia estreia a participação brasileira em Roland Garros neste domingo, por volta das 8h de Brasília, na quadra 14, contra a britânica Francesca Jones. A número 1 do Brasil, atual 78ª do mundo, encara a 105ª do ranking em um confronto que abre o primeiro dia de chave principal do Grand Slam francês.

Será a sexta participação da paulistana em Paris, palco da semifinal de 2023, melhor campanha brasileira em Slams desde Maria Esther Bueno, em 1968. Nos dois últimos anos, no entanto, Bia caiu já na estreia. A canhota de 29 anos vem de uma temporada ruim, com quatro vitórias em 19 partidas, vai deixar o top 100 na próxima segunda-feira, além de ainda não ter vencido em chave principal de torneio acima da categoria WTA 125. Reformulou a equipe, trocou de treinador, tenta reencontrar o saque.
Em coletiva nesta sexta-feira, Bia tratou o momento sem rodeios.
"A real é que eu não estou ganhando, não tenho que ter expectativa, vou ser bem realista, não estou vindo de vitórias, não estou hiper confiante, minha realidade é essa, não vou esconder pra mim e ficar fazendo fantasia. Mas é isso, vou trabalhar e que minha atitude seja forte e confiante até o último ponto", afirmou.
O histórico contra Jones, porém, é animador. As duas se enfrentaram duas vezes, ambas em 2021, ambas no saibro. Bia venceu nas duas, uma na final do ITF de Montreux, na Suíça, outra no ITF de Villa Maria, na Argentina.
Os médicos que erraram o prognóstico
Francesca Jones tem 25 anos e nasceu com a síndrome da displasia ectodérmica ectrodactilia (EEC), condição genética rara que resultou em três dedos e um polegar em cada mão, três dedos no pé direito e quatro no esquerdo. Cirurgias frequentes foram o preço da rotina, e o impacto no tênis vai além do estético: a empunhadura é diferente, a corrida é diferente, o equilíbrio passa pelos pés e dedos de um jeito que não está em nenhum manual. Médicos disseram à britânica, ainda criança, que o tênis de alto nível estava fora do alcance.

"Me contaram que eu nunca poderia jogar tênis devido às desvantagens que eles achavam que eu teria. Quando fui limitada por alguém, ou houve uma tentativa de me limitar, isso só me levou a me dedicar ainda mais", disse Jones ao site da ITF, em 2021.
"Obviamente, há muito mais risco de lesões. Na minha mão esquerda, acho que já fiz mais de dez cirurgias. Isso é algo que tenho que lidar de uma maneira diferente, porque tive que trabalhar muito mais no preparo físico. Meus pés funcionam de maneira diferente e isso significa que corro de maneira diferente. Meu equilíbrio passa por meus pés e dedos de uma maneira diferente", completou.
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O calendário que se ajusta ao corpo
Aos nove anos, Jones se mudou de Bradford, no norte da Inglaterra, para Barcelona, e cresceu treinando na academia Sanchez-Casal. A formação espanhola explica o jogo no saibro. A condição genética explica algo mais sutil. Mesmo no top 100, Jones não pode jogar tudo. Em entrevista ao TenisBrasil durante o SP Open do ano passado, ela detalhou o motivo.
"Eu não posso disputar a mesma quantidade de torneios que as outras jogadoras. Tento fazer um calendário mais curto. E minha rotina de treinos é bem meticulosa quanto a isso. Meu time faz o possível para me manter em forma. Não acho que sou especial por isso, apenas diferente", explicou a tenista.
Miami, Venus Williams, e o melhor ranking
Em janeiro deste ano, depois de uma campanha de quartas de final em Auckland que incluiu a primeira vitória da carreira sobre uma top 15, a americana Emma Navarro, Jones chegou ao 69º lugar do ranking. Top 70, o melhor da carreira. Em março, no Miami Open, conquistou a primeira vitória da história em chave principal de WTA 1000 contra uma ex-número 1 do mundo: derrotou Venus Williams por duplo 7/5 na primeira rodada. Aos 45 anos, Venus jogava com wild card e arrastava uma sequência de derrotas. Jones, do outro lado da rede, derrubava a ídola de infância.
"Não é segredo que me disseram que eu não conseguiria jogar tênis. E Venus e Serena foram duas das pessoas que realmente me fizeram acreditar", afirmou à WTA Tour após a partida.
O salto não se sustentou. Uma lesão glútea, derrotas seguidas e a campanha apagada depois de Miami devolveram a britânica para a 105ª posição. Ainda assim, Jones chega a Roland Garros com nove vitórias em 19 jogos na temporada, mais que as quatro de Bia em igual número de partidas.
Jones e o Brasil
A relação de Jones com o tênis brasileiro tem outro capítulo. Em março do ano passado, ela conquistou o título do ITF W75 de Vacaria, no Rio Grande do Sul. Aproveitou a viagem para passar em uma escola da cidade gaúcha e contar a história.
"Um dos motivos pelos quais eu comecei a jogar tênis era tentar inspirar as pessoas que não têm as melhores condições para se desenvolver. Mas a paixão que eu tenho pelo esporte é o que me ajuda a ter sucesso na vida", disse na ocasião.
A chave principal de Roland Garros, no entanto, é território novo. Em seis aparições anteriores em Grand Slams, Jones nunca venceu uma partida. Quem passar do duelo deste domingo pode enfrentar na segunda rodada a tcheca Marie Bouzkova, cabeça 27, ou a italiana Lucia Bronzetti, vinda do quali.
O domingo brasileiro
João Fonseca fecha o dia. O carioca de 19 anos, cabeça 28 e principal nome do tênis brasileiro hoje, joga por último na quadra Simonne Mathieu, por volta das 11h, contra o francês Luka Pavlovic, vindo do quali e estreante em Grand Slam. Novak Djokovic, tricampeão de Paris, também entra em quadra no domingo. Mas o sinal de partida do tênis brasileiro na temporada do saibro francês quem dá é Bia. Às 8h. Na quadra 14.
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