Brasileiros quebram marca como a dupla nacional mais velha da história na ATP
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Paulo Camargo, de 53 anos, e Lucas Feltes Engel, de 44, entraram para a história como a dupla brasileira mais velha a disputar o circuito profissional de tênis da ATP. Juntos, jogaram a chave principal de M15 de Maringá, no Paraná. A estreia, contra os compatriotas Victor Braga e Rafael Tosetto, terminou em derrota. O resultado, porém, é a parte menos importante.

A soma das idades passa de 98 anos. O recorde foi homologado pelo RankBrasil, o Livro dos Recordes Brasileiros, e oficializado com a participação dos dois no Circuito Paraná Santa Terezinha Tennis, torneio profissional que integra o circuito da ATP na cidade paranaense. Nenhuma outra dupla formada integralmente por brasileiros havia chegado a uma chave principal do profissional com tanto tempo acumulado de vida.
O que torna a marca ainda mais difícil de quantificar é o que está por trás de cada um dessas trajetórias.
A volta de Paulo Camargo

Paulo Camargo conheceu o tênis na adolescência, em Itapetininga, no interior de São Paulo, mas saiu das quadras aos 18 anos depois de sofrer um acidente de moto. Sem capacete no momento do impacto, a reabilitação foi marcada pelo ganho de peso, pelo abuso de álcool e por quase doze anos longe de qualquer atividade esportiva. Aos 30 anos, numa idade em que muitos profissionais já cogitam encerrar a carreira, ele decidiu retomar o sonho de pontuar na ATP.
Seu melhor momento no circuito veio em 2006, quando chegou ao número 706 do mundo nas duplas. O último torneio profissional foi em 2008. Desde então, trabalhou como professor de tênis. Para a volta às quadras em 2026, Camargo mudou alimentação, rotina de treinos e passou a contar com acompanhamento médico especializado, em parte por causa de uma lesão no ombro que carrega há anos.
O retorno às quadras vem acompanhado de outro projeto. A história de Paulo já rendeu um livro, 1%: Até onde você iria?, e agora caminha para virar filme. A produção está nas mãos das consagradas Ultra Violeta e Fábrica Filmes, com orçamento na casa dos milhões. Se o cronograma se confirmar, as filmagens começam ainda em 2026.
O tênis, porém, será coadjuvante. "É um filme que vai ter uma parte de comédia muito grande. Tem uma parte de drama, porque passei por muitas coisas pesadas na vida, mas ele vai ser voltado para um humor leve, passando essa mensagem de sonho de superação. Vai falar de tênis, mas não é um filme sobre tênis", explicou Camargo à CNN Brasil.
A matéria-prima não falta. Paulo perdeu 79% das partidas que jogou no circuito. Chegou ao número 706 do mundo depois de dormir no chão quando precisava, ficar sem comer e abordar pessoalmente organizadores de torneios em busca de convites.
"Brinco que sou um grande perdedor bem sucedido, porque realizei o sonho da minha vida assim, perdendo a maioria das partidas", disse. "Fui o anti-herói ali, eu fui o cara que alcançou o que uma pessoa normal poderia alcançar, não o que um fenômeno do tênis poderia alcançar."
O parceiro que venceu o linfoma
Lucas Feltes Engel carrega um histórico de circuito muito mais longo. Natural de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Engel chegou a ser 207º do mundo nas duplas e 297º em simples, com vitórias sobre nomes como Juan Martín del Potro, Fabio Fognini, Gaël Monfils e Marcelo Melo.

Em 2020, foi revelado que ele passava por quimioterapia para tratar um linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer do sistema linfático. Levou cinco anos para vencer a doença. A convocação para voltar às quadras veio de Paulo Camargo, com quem mantém uma amizade que antecede o recorde.
A resiliência de Lucas, porém, não começa no diagnóstico. Em 2001, seu irmão mais novo, Thomás, promissor juvenil do tênis gaúcho, foi morto aos 16 anos em uma ação policial em Novo Hamburgo. Um tenente da polícia foi condenado pelo crime. Desde então, Lucas organiza a Copa Thomás Engel, torneio que em 2025 disputou sua 24ª edição, e que mantém vivo o nome do irmão dentro do esporte que os uniu. Vencer um linfoma não Hodgkin, após cinco anos de quimioterapia, foi mais um capítulo numa vida que já conhecia perdas que nenhum ranking consegue medir.
"Ele estava há 5 anos lutando contra o câncer e agora, que ele conseguiu vencer, aceitou na hora jogar comigo. Vai ser uma dupla [quase] centenária e ele é um cara muito especial. A gente tem um propósito muito grande por trás dessa volta", disse Camargo à CNN Brasil, em março deste ano, ao anunciar a parceria.
Editorial
Propósito não é pouca coisa quando se tem quase 100 anos somados e uma quadra de tênis profissional à frente. Que venham mais quadras, mais torneios, mais recordes. O esporte brasileiro anseia por mais capítulos dessa bela história.
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