Chuva, hangar e muito tênis: a clínica de Sylvio Bastos e Tico no Portobello
O plano era simples: três quadras, três professores e grupos divididos por nível, trocando de estação a cada 20 ou 25 minutos. Quando Sylvio Bastos acordou, às 7h do sábado, no Portobello Resort & Safári, em Mangaratiba, as quadras de saibro estavam encharcadas. O treinador, também comentarista da ESPN, refez horários, remontou grupos e espremeu numa única quadra coberta o que estava previsto para três. "Todo mundo que joga tênis aprende a improvisar. Foi isso que precisamos fazer aqui", contou.

A cobertura que salvou as atividades tem história. A estrutura já foi parte do hangar de aviões de Neymar, cedida numa permuta entre Carlos Borges, dono do resort, e o pai do jogador. "Não é uma quadra para chuva, é uma quadra para sol", brincou Tico, coordenador de tênis do Portobello, apontando para pequenas goteiras que não deixava os participantes esquecerem do mau tempo.
Os 29 alunos da clínica vieram de Flores da Cunha, Caxias do Sul, São Paulo, Campinas, Niterói e do Rio de Janeiro. Na sexta-feira, a avaliação de nível chegou a ter 18 pessoas na mesma quadra. Com o terceiro professor, Léo Bartinik, puxando a dinâmica no fim de cada bloco, ninguém saiu seco. Dessa vez não pela chuva. Mas pelo suor.
Do Rio Cricket a Mangaratiba
A clínica nasceu de uma amizade de quadra. Gaúcho de Flores da Cunha e cofundador do Circuito de Tênis da Serra Gaúcha, Ronaldo Stuani chegou ao esporte por recomendação médica, sedentário e acima do peso, antes mesmo dos 30 anos. "O médico falou para mim: tu quer viver até quantos anos? Tem que arranjar alguma coisa para fazer", lembra. Há cerca de oito anos, mudou-se para Niterói ao assumir a franquia da Florense, a famosa fábrica de móveis, na cidade. A primeira coisa que procurou foi um clube: o Rio Cricket ficava a um quarteirão da loja. Ali conheceu Sylvio, com quem treina duas vezes por semana desde então.
Como Sylvio é amigo antigo de Tico, a ideia de reunir a turma no Portobello saiu do papel em dois meses. A própria mudança de Stuani tem raiz na quadra. "Hoje moro em Niterói por causa do tênis. Joguei com um dos proprietários da fábrica lá no Sul, e esse relacionamento abriu a oportunidade de comprar a franquia", conta. Daí a convicção sobre o esporte: "No tênis, você tem que fazer muito esforço para arranjar inimigo. É uma verdadeira família".
O comentarista na quadra
Sylvio calcula que metade dos alunos veio por causa da TV. "Tem gente que me manda mensagem de Dubai, do Japão, de tudo quanto é canto do mundo", conta. Luciana Lemos Mendes, de 45 anos, é um exemplo mais próximo. Conheceu o comentarista pela ESPN, fez uma clínica com ele e hoje sai da Barra às seis da manhã, três vezes por semana, para treinar em Niterói no contrafluxo, com o laptop na mochila. "Ela é apaixonada por treinar. E trabalhar com quem é apaixonado pela mesma paixão que você tem é maravilhoso", diz Sylvio. Ela já tem meta definida: "Quero jogar até os 80, pelo menos. Boto um teto baixo, que, se eu passar, já estou feliz."
A ideia de Sylvio para o fim de semana era aproveitar justamente essa relação: filmar os golpes de cada aluno e gravar por cima um comentário, no mesmo tom das transmissões. "Eu vou falar do Ronaldo, da Carol, da Luciana. É o mesmo comentário, com a mesma voz, só que a pessoa ouvindo dela mesma", explica. "Tênis é tênis em qualquer nível", insiste. No amador, ninguém dá um winner a 200 km/h, mas a 60 pode bastar, dependendo de quem está do outro lado. "Ser João Fonseca, sonhar em ser Alcaraz. Um sonho talvez inatingível, mas um sonho legal de ser sonhado."
O formato em grupo, base de qualquer clínica, é uma bandeira antiga dele. Sylvio passou cerca de três anos trabalhando nos Estados Unidos nos anos 1980, onde as aulas eram coletivas, e voltou para um Niterói em que só se dava aula individual. Montou grupos de quatro no Rio Cricket e ouviu que era maluco. Hoje, quem insiste em aula particular recebe uma proposta pouco tentadora: "Vai arrumar um horário teoricamente ruim, às 11 da manhã, e vai pagar o preço de quatro alunos." A explicação é de jogo, não de negócio: "O cara do outro lado não tem que te ajudar a jogar. Tem que te superar, tem que te complicar. Num grupo de quatro, você pode ter um canhoto, um destro, um que bate a esquerda com uma mão, outro com duas, um que joga saque e voleio, outro que fica no fundo trocando bola mais alta. Olha que amplo é jogar com três pessoas diferentes no mesmo treino. Não faz sentido treinar sozinho", defende.
O "gênio das clínicas"
Foi assim que Sylvio apresentou o parceiro no vídeo-convite. Aos 71 anos, Marcos dos Anjos, o botafoguense Tico, chegou a ser chamado pelo Vasco como jogador de futebol juvenil, mas o pai se recusou a assinar o contrato. Aprendeu tênis batendo bola no paredão, com a raquete de um amigo. "Eu sempre fui vagabundo, entre parênteses: surfava, jogava futebol", diverte-se. Em 1983, entrou como estagiário na inauguração da Clínica de Tênis Kirmayr, na paulista Serra Negra, e foi contratado já na segunda semana. "Era o primeiro a acordar e o último a dormir", lembra. Virou coordenador e depois sócio, numa época em que a clínica recebia de 80 a 90 alunos por semana. O método, ele mesmo define: "É uma mistura do Bernardinho, do vôlei, com o Fernando Diniz, do futebol. Tiro, porrada e bomba." E não esconde a fama de difícil no meio: "Sou amado e odiado, mas tenho sorte. Me amam mais que me odeiam".
Num fim de semana de imersão, o aluno pode somar 14 horas de quadra. "Coisa que às vezes um adulto demora dois meses para fazer", compara Tico. A lição que ele mais repete não é de técnica, e sim de decisão: cada bola pede uma escolha, que depende de como ela chega, de onde o jogador está e do placar. "A única bola que você bate no tênis é o saque. Todas as outras você rebate." O conceito, que ele resume como "respeitar a bola", vale até para o maior nome do país: "É o fator em que o João Fonseca mais tem que melhorar. E está melhorando cada vez mais, jogando cada vez mais com a cabeça."
Três gerações e um coreano
Entre os alunos, a família Martins Pereira e Souza levou quatro raquetes. O avô, Fernando Luiz, de 79 anos, jogou tênis aos 14 só para fazer par com o próprio pai, no Piraquê, e trocou o esporte pelo vôlei aos 16. Voltou cinquenta anos depois, quando o neto Pedro, hoje com 16, largou o futebol — em que vivia machucado — e o chamou para a quadra.
"Agora que eu melhorei um pouquinho, ele melhorou muito mais. Ele tem a turma dele, e eu estou começando a jogar com os da minha idade", conta o avô. E acrescenta: "Você tem que pensar na jogada, então está sempre estimulando o cérebro. O tênis trabalha corpo e mente". O pai, Bruno, reuniu os quatro, incluindo Mariana, de 15, para comemorar os seus 50 anos. O clima familiar, segundo Pedro, inclui discussão: "Meu pai com meu avô em quadra brigam mais do que jogam", brincou.
Jonghyun Woo, o John, de 53 anos, deixou a Coreia há 30 anos "para não ser mais uma gota no oceano" e hoje tem um comércio de roupas em São Paulo. Entrou no tênis por causa de uma aposta: um amigo garantiu que ele jamais jogaria como ele. "A partir daí eu jogava todo dia, chorava de dor. Tomava Tylenol e voltava para a quadra." Hoje disputa o circuito ITF Masters. Stuani conta que, numa quarta-feira, John saiu de São Paulo às 22h, dormiu meia hora no carro e estava às 7h em Pendotiba, em Niterói, para um treino marcado. A justificativa veio pronta: "Compromisso marcado é compromisso realizado." Perguntado sobre a bandeira com que joga, John resolve assim: "Nasci coreano, mas vivo como brasileiro."
Nem todos foram atrás apenas de evolução técnica. "Pela minha idade, sei que melhorar vai ser complicado. Eu venho para conhecer pessoas que falam a mesma linguagem, ou seja, que amam jogar tênis", diz Robson Antoniazzi, de 42 anos, que viajou de Flores da Cunha a convite do amigo Stuani.
Plantar a semente
Os professores não prometem milagre, e os alunos sabem disso. "Você não vai entrar de um jeito e sair de outro, porque não dá tempo. Mas vai pegar algumas dicas que podem melhorar o seu jogo", diz Luciana. Sylvio vê a clínica como ponto de partida, não de chegada. "O que você pode é plantar uma semente na cabeça daquela pessoa, para que ela possa germinar lá, no treino, no clube dela", diz ele, que já deu, só no Portobello, cerca de dez clínicas nos últimos anos. "As clínicas têm o poder de unir pessoas e lugares."
.png)
%20(Site)_gif.gif)



Comentários