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Cincinnati começa nesta quinta com a lembrança do último grande título de Guga

13 de ago.
8 min de leitura

A chave principal do Masters 1000 de Cincinnati começa nesta quinta-feira, e é uma boa data para abrir o baú. Foi ali, em agosto de 2001, que Gustavo Kuerten conquistou o último grande título da carreira. Ninguém sabia disso à época e, de certa forma, ali foi o início do fim das grandes conquistas do nosso eterno número 1.


Tenista sorridente, de faixa na cabeça e camiseta amarela, ergue o braço em quadra com público desfocado ao fundo.
(Foto: Tennis TV)

O domingo em que Guga entrou duas vezes na quadra central de Cincy

Choveu em Ohio no sábado à noite. É um detalhe que nenhuma tabela registra, mas foi a chuva que escreveu o resto da história.


Gustavo Kuerten estava em quadra contra Tim Henman, semifinal do Masters Series de Cincinnati, quando o céu desabou sobre o Lindner Family Tennis Center (antigo ATP Tennis Stadium). O jogo parou no meio. Do outro lado da chave, Patrick Rafter já tinha vencido a sua semifinal e ido dormir com a agenda limpa. Guga foi dormir com um jogo pela metade e uma final marcada para o dia seguinte.


No domingo, entrou duas vezes na quadra central. Ganhou as duas.


Agosto de 2001 e o torneio no meio do milharal

Vale reconstruir o mundo, porque ele era outro.


Goran Ivanisevic tinha vencido Wimbledon havia menos de dois meses, entrando como convidado e sem ranking para nada, na campanha mais improvável da história do torneio inglês. Pete Sampras vinha de perder para um suíço de 19 anos chamado Roger Federer, na única vez em que os dois se enfrentariam. Rafter era vice em Wimbledon pelo segundo ano seguido e já falava, entre linhas, em aposentadoria. Um garoto americano de 18 anos, dono de um saque descomunal, e que meses antes tinha batido Sampras em Miami, estava aprendendo a ganhar de todo mundo, e se chamava Andy Roddick.


E o número 1 do mundo era um catarinense de 24 anos que naquele junho tinha desenhado um coração no saibro de Roland Garros e se deitado dentro dele. O Brasil, que quatro anos antes mal sabia soletrar tie-break, parava para ver tênis.


O US Open ainda estava a um mês. O 11 de setembro, a pouco mais.


Cincinnati é um nome de conveniência. A cidade serve para ir e vir do aeroporto, que fica em Kentucky, e o torneio acontece em Mason, Ohio, num complexo construído à beira de uma estrada. O hotel dos jogadores também fica à beira de uma estrada, ao lado de um supermercado, com um Applebee's como restaurante mais próximo. O trajeto entre um e outro atravessa casas espalhadas entre campos de golfe e plantações de milho. Do alto do estádio, onde ficava a sala de imprensa, dava para ver um parque de diversões.


O calor e a umidade da região são parte do jogo. No ano anterior ao título, uma partida de Guga contra o austríaco Stefan Koubek precisou ser interrompida porque a umidade tinha chegado a níveis altíssimos.


E, no entanto, aquilo lotava.


A revanche que abriu a semana

A chave começou com uma conta a acertar.


Quatro dias antes, em Montréal, Guga tinha perdido para Roddick. O catarinense era o primeiro cabeça de chave também no Canadá. Perdeu em três sets, e o circuito inteiro repercutiu.


O curioso não foi a derrota. Foi a reação. Em vez de reclamar do fenômeno adolescente que acabara de eliminá-lo, o número 1 do mundo saiu defendendo o mercado do adversário. Segundo o relato publicado pela revista americana Slate, na semana seguinte à partida, Guga disse à imprensa que o tênis precisava de uma nova estrela americana, porque sem um americano no topo os Estados Unidos perdiam o interesse pelo esporte.


Não era diplomacia. Era leitura de negócio, feita por um sujeito que crescera vendo Bruguera, Sampras e Agassi de longe, num país sem tradição popular no esporte, e que sabia exatamente o quanto um circuito depende de gente para assistir.


Na segunda-feira, 6 de agosto, os dois se reencontraram na estreia de Cincinnati. Guga venceu por 7/6 (3) e 6/1. A ESPN registrou, no mesmo dia, a ressalva que faltava: o duelo foi desigual porque Roddick se lesionou ainda com o primeiro set empatado, e a partir dali teve dificuldade enorme para enfrentar o brasileiro.


A chave que ruiu em volta dele

O que veio depois é aquilo que hoje soa como invenção.


Andre Agassi, segundo cabeça de chave, caiu na estreia. Marat Safin, terceiro, também. Sampras não passou da segunda rodada. A parte de cima da chave virou terra arrasada, e o único do topo que continuava de pé era o brasileiro, com três top 10 ainda pela frente.


Ele passou por Tommy Haas, 16º. Depois por Ivanisevic, 19º, o campeão de Wimbledon de dois meses antes, com aquele saque que ninguém conseguia devolver. Depois por Yevgeny Kafelnikov, 6º.


Essa última vitória, na sexta-feira, valeu mais do que uma vaga na semifinal. Foi ali que Guga unificou a liderança dos dois rankings da ATP, o de entradas e a Corrida dos Campeões. Naquele momento, ele era o número 1 do mundo por qualquer critério que se quisesse usar.


Há uma forma de medir o tamanho da chave que Guga atravessou. A média de ranking dos seis adversários foi 13,8. Entre eles, quatro campeões de Grand Slam.


O sábado partido ao meio

E então choveu.


A semifinal contra Henman foi a partida mais dura da campanha: 6/2, 1/6 e 7/6 (4), em 2h04. Tinha também aquele tempero pessoal que só a Copa Davis e os Masters produzem, porque o inglês havia eliminado Guga na mesma fase, no mesmo torneio, no ano anterior. O brasileiro cobrou a dívida num tie-break.


O problema é que a cobrança terminou no domingo. E a final era no mesmo dia. Quanto tempo Guga teve entre uma coisa e outra é uma daquelas informações difíceis de checar na pesquisa de vinte e cinco anos.


Não foi uma chuva. Foi uma tempestade. O entorno do torneio alagou, com cadeiras flutuando e carros quase boiando, e os raios caíam por toda parte. Chegaram a tentar retomar o jogo. Desistiram. Guga deixou o estádio depois da meia-noite, tendo vencido o primeiro set por 6/2 e perdendo o segundo por 5/1.


Rafter, àquela hora, já dormia. Tinha jogado a semifinal dele na hora do almoço.


No domingo, Guga voltou à quadra central dezoito horas depois de ter começado a partida contra Henman, e venceu por 6/2, 1/6 e 7/6 (4). O intervalo entre uma coisa e outra foi de poucos minutos: quando a final começou, a assessoria do brasileiro ainda estava terminando de enviar os releases da vitória sobre o inglês.


Todo mundo já dava o título para o australiano.


Uma hora

O australiano tinha perdido as três finais anteriores que disputara: Wimbledon para Ivanisevic, Montreal para o romeno Andrei Pavel, e agora entrava para a terceira. Rafter também não era um estranho naquela quadra: tinha sido campeão ali em 1998. Vinha inteiro, com o serve and volley afiado, e havia sido quebrado apenas duas vezes em cinco partidas ao longo da semana inteira.


Perdeu o saque quatro vezes em cerca de uma hora.


O primeiro game da final foi tudo o que Rafter conseguiu no primeiro set. Guga venceu os seis seguintes, fechando em 6/1. No segundo, quebrou na primeira oportunidade, com 3/2, administrou a vantagem e sacou para o título em 5/3. Comemorou fazendo o gesto de uma marretada na quadra, que era como ele e Larri Passos chamavam a devolução de saque.

A tática saiu do banco. O técnico gritava "marreta", e o brasileiro devolvia o serviço do australiano de um jeito que ia deixando o estádio boquiaberto.


Uma hora de jogo. Oito aces, duas duplas-faltas, 55% de aproveitamento de primeiro serviço, 22 pontos ganhos em 27 com o primeiro saque, e 58 dos 99 pontos da partida.

Placar final, 6/1 e 6/3. Inapelável.



Rafter não procurou desculpa. "O Guga jogou de forma magnífica. Ele não precisa mais provar que não é apenas um jogador de saibro, ele joga bem em todos os pisos e hoje eu não tive resposta para nada que ele fez", disse ele. Foi um dos últimos jogos importantes da carreira do australiano, que disputaria a última partida em novembro daquele ano.


O campeão, por sua vez, desmontou na hora a narrativa que estava sendo construída sobre ele, a do especialista em saibro que teria se reinventado na quadra rápida. Disse à mesma CBC que não precisou mudar nada do que vinha fazendo, apenas treinar o que funcionava melhor e definir qual devia ser a mentalidade dele em condições diferentes.


A frase é modesta e é falsa por modéstia. Oito meses antes, ao vencer Agassi na final do Masters Cup de Lisboa, ele já havia explicado, com mais clareza, o que tinha aprendido: nas quadras mais rápidas, começou a entender que tinha a capacidade de ser mais agressivo, que precisava assumir riscos e lidar com os erros que vêm junto. Não era um jogador de saibro dando sorte no cimento. Era um jogador que tinha estudado o piso duro.


As contas de uma semana


Seis partidas. Seis adversários do top 30. Três top 10 em três dias. Zero jogos contra alguém de fora da elite.


O sexto título de Guga em 2001. O 16º dos 20 que ele conquistaria em simples na carreira. O terceiro em quadra dura e o primeiro de Masters Series nesse piso. E o quinto e último Masters 1000 da vida dele, de dez finais disputadas nesse nível entre 1999 e 2003. Valeu 500 pontos no ranking mundial e mais 100 na Corrida dos Campeões, onde ele apareceria como líder na segunda-feira.


A comemoração do último Masters 1000 da carreira de Gustavo Kuerten foi uma partida de golfe, seguida de churrasco. No dia seguinte, a caravana parou no parque de diversões que dava para ver do alto do estádio, já a caminho de Indianápolis, onde Guga defenderia o título conquistado no ano anterior e estrearia na quarta-feira contra um tenista vindo do quali.


Nenhum tenista do primeiro escalão do circuito de hoje comemoraria assim. Aquilo era 2001.


O que veio logo depois

Três semanas mais tarde, em Nova York, o quadril começou a gritar. Kafelnikov cobrou a revanche nas quartas do US Open e venceu por 6/4, 6/0 e 6/3 em 92 minutos, a queda mais precoce de um primeiro cabeça de chave no slam da Big Apple desde 1993. No fim do ano, na Masters Cup, Guga perdeu as três partidas da fase de grupos e assistiu Lleyton Hewitt levar o número 1 anual.


O quadril não parou mais de falar. Guga não ganharia outro Masters 1000.


O Brasil naquela quadra, antes e depois

Guga é o único brasileiro campeão de simples em Cincinnati, e um dos poucos a vencer o torneio estando no topo do ranking, ao lado de John McEnroe (1981), Andre Agassi (1995), Pete Sampras (1997 e 1999), Roger Federer, Novak Djokovic e Jannik Sinner.


O Brasil tem dois títulos de duplas ali. Marcelo Melo venceu em 2016 com o croata Ivan Dodig, no mesmo segundo semestre em que a dupla levou também o Canadá. Bruno Soares ergueu o troféu em 2018 com o britânico Jamie Murray.


E tem dois vices que o tempo não apagou: Carlos Kirmayr e Cássio Motta chegaram à final de duplas em 1983, e Luisa Stefani foi vice nas duplas femininas em 2021, ao lado da canadense Gabriela Dabrowski, hoje sua parceira de novo.


Guga havia estreado em Cincinnati em 1997, como décimo do mundo, poucos meses depois do primeiro Roland Garros. Somou 16 vitórias em 22 partidas no torneio ao longo da carreira. No ano passado, João Fonseca estreou na chave principal e chegou à terceira rodada, igualando na ocasião a melhor campanha dele em Masters 1000.



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