Copa Davis: O Brasil quase rasgou o roteiro. E, sinceramente, merecia ter rasgado
- 9 de fev.
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Sabe aquela história de que ninguém acredita no azarão até ele quase ganhar? Pois é. O Brasil foi para Vancouver com um elenco que, no papel, não assustava nem o frio canadense. Sem Fonseca, sem Wild, sem Monteiro, cada um cuidando do próprio calendário no saibro sul-americano, o que é compreensível, mas dói. Jaime Oncins levou para o sintético coberto do Canadá um grupo que o circuito olhava de cima. Gustavo Heide, 253º do mundo. Matheus Pucinelli, 292º. João Lucas Reis, 207º. E a dupla Matos/Luz, essa sim com grife, mas insuficiente para mudar o favoritismo.
Do outro lado, o Canadá também não estava completo. Nada de Auger-Aliassime, nada de Shapovalov. Mas tinha Gabriel Diallo. Top 40. Sacador brutal. Jogando em casa, no piso que mais gosta, com a torcida gelada mas presente. O script era óbvio: Canadá passa, Brasil volta pra casa, vida que segue.
Só que ninguém combinou com Heide.

Na sexta-feira, o paulista entrou em quadra e fez algo que beira o absurdo: não conquistou um único break point contra Diallo. Nenhum, zero, nada. E mesmo assim venceu. Como? Sacando como se a vida dependesse disso e mantendo uma frieza nos dois tie-breaks que poucos esperavam. Heide não fazia um jogo sequer desde a derrota no qualificatório do Australian Open, e havia dúvidas legítimas sobre ritmo e condição física. Respondeu a todas em duas horas e meia de quadra.
Para quem não é do tênis: vencer dois tie-breaks fora de casa, contra um cara ranqueado 214 posições acima, num piso que não é o seu, é como um time da Série C eliminar um da Libertadores no Maracanã. Acontece? Acontece. Mas ninguém aposta nisso.
Antes, João Lucas Reis tinha perdido para Liam Draxl em dois sets. Reis não jogou mal. Teve chances no saque do canadense mas Draxl, esse sujeito que vibra como se cada ponto fosse o último da vida, foi mais eficiente nos momentos grandes. O Brasil terminou a sexta empatado em 1 a 1, e o clima era de "opa, peraí, isso aqui pode ficar interessante".
Ficou.
A dupla que segurou a onda e a cartada que quase virou o jogo
No sábado, Matos e Luz entraram para as duplas e fizeram o que se esperava. Mas com muito mais suor do que o previsto. Draxl e Cleeve Harper começaram empurrados pela energia do canadense, que parecia ter tomado um galão de café antes de entrar em quadra. Os brasileiros demoraram para encontrar o ritmo, mas quando encontraram, a experiência falou mais alto. Destaque para o primeiro saque oportuno de Orlandinho e para a movimentação de Matos, que, e vale bater nessa tecla sempre, é um dos melhores duplistas do circuito atual. Ponto. Venceram por 3/6, 6/4 e 7/5, com direito a quatro match points no caminho, porque nada podia ser fácil nesse fim de semana.

Detalhe de bastidor: Oncins tinha escalado Fernando Romboli e Marcelo Melo para as duplas. O rompimento inesperado da parceria forçou a mudança. Às vezes, o plano B funciona melhor que o A.
Brasil 2 a 1. Uma vitória para a classificação. E aí veio a cartada mais inteligente do fim de semana.
Oncins tirou Reis e colocou Pucinelli contra Diallo. A lógica era simples: sem um saque de peso, seria suicídio enfrentar o canadense naquele piso. Pucinelli tem saque. E tem mão. E tem coragem.
O que aconteceu em quadra foi quase cruel de tão bonito. Pucinelli venceu o primeiro set, mostrou transições à rede de dar inveja, executou voleios que lembravam por que tanta gente acredita no potencial dele. Diallo reagiu no segundo, encurtando pontos e sendo mais agressivo. Mas o terceiro set foi palmo a palmo, com Pucinelli tendo break point antes do tie-break — aquele ponto que, se entra, muda tudo. Não entrou. No desempate, uma dupla falta logo no primeiro ponto colocou o brasileiro atrás, e ele não conseguiu se recuperar.
Pucinelli era o melhor tenista em quadra. E perdeu. O tênis é assim: nem sempre o melhor ganha. Às vezes, o mais decisivo no momento certo leva.
O peso da responsabilidade
Com o placar empatado em 2 a 2, Heide voltou à quadra para decidir tudo contra Draxl. E o que se viu foi um tenista diferente daquele da véspera. O desgaste físico e mental da batalha contra Diallo cobrou seu preço. O primeiro saque, que tinha sido a espinha dorsal da vitória, oscilou nos piores momentos. Draxl, que tinha acabado de jogar duplas e ainda torceu o tornozelo no quinto game, estava a mil. Vibrava, corria, sacava, devolvia. O canadense jogou o fim de semana inteiro como se fosse o último da carreira.
Heide até melhorou no segundo set, mais determinado, mais firme de fundo. Teve três break points no quarto game — e desperdiçou dois com erros evitáveis, incluindo uma curtinha ruim e um erro não forçado na devolução de segundo saque. Mas veio a quebra dolorosa no sétimo game, quando subiu à rede sem pressionar e levou uma passada, e Draxl fechou o jogo num game que parecia de Roger Federer. Limpo, cirúrgico, sem apelação.
3 a 2 Canadá. Fim de linha.
O que sobra quando a poeira baixa
Leitor atento vai lembrar que este texto começou dizendo que o Brasil merecia ter rasgado o roteiro. A afirmação se mantém. Heide jogou a melhor partida da carreira contra um top 40 e mostrou que, quando saudável, pode estar entre os 150 melhores do mundo. Pucinelli provou que o 292º lugar no ranking é uma mentira. O cara pode ir muito além do 190º posto que já ocupou, e as duas passagens por contusões sérias explicam mais do que qualquer número. Matos e Luz confirmaram que são dupla de elite. Até Reis, que não brilhou, fez o que pôde.
Muita gente perguntou nos grupos e redes sociais: valeu a pena sem os titulares? A resposta é sim, sem hesitação. Porque agora se sabe que o tênis brasileiro tem mais gente do que parece. E porque esses caras honraram a camisa de um jeito que merece reconhecimento.
Aliás, um recado direto para os organizadores do Rio Open: vocês viram o que Heide e Pucinelli fizeram em Vancouver? Com a saída de Gael Monfils, sobrou convite na chave. Usem com inteligência. Esses dois merecem.
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