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Saltos no ranking: como os torneios no Brasil transformaram a temporada feminina

  • há 1 hora
  • 7 min de leitura

No dia 1º de abril de 2026, a ex-top 43 do mundo Teliana Pereira abriu o Instagram e fez uma pergunta simples e direta que pegou em cheio o ambiente do tênis feminino brasileiro.


"Não há nenhum torneio previsto no Brasil este ano, com exceção, claro, do WTA 250 de São Paulo", escreveu ela, deixando claro que não estava falando de anos anteriores. Era 2026 o alvo. "Não poder competir em casa é muito triste. Ter que viajar o tempo todo e desembolsar uma fortuna todos os meses para seguir competindo é uma realidade que poucas conseguem sustentar."


E fechou com a pergunta: "Por que será que é tão difícil fazer torneios femininos no Brasil?"

Sete dias depois, os três primeiros torneios femininos do ano no Brasil foram confirmados, todos para julho. A coincidência de datas foi notada na época. O que não era possível prever então era o que esses torneios, e os que vieram depois, fariam pelo ranking de uma geração de tenistas brasileiras.


O calendário completo: 16 torneios, do Amazonas à Santa Catarina

O calendário oficial do Women's World Tennis Tour (anteriormente ITF), filtrado para o Brasil em 2026, confirma um número inédito: 16 torneios internacionais femininos distribuídos de junho a novembro. Mais o WTA 250 de São Paulo em setembro, são 17 eventos de nível profissional feminino no país. Exatamente o que o presidente da CBT, Alexandre Farias, havia prometido em abril.


O mapa geográfico é igualmente revelador. Além dos tradicionais centros de tênis (São Paulo, Rio Grande do Sul, Brasília), o circuito chega em 2026 a Porto Velho, São Luís, Belém, Maceió, Campina Grande e Feira de Santana — cidades que raramente ou nunca receberam uma competição internacional feminina de tênis.


Torneio a torneio: o que aconteceu até aqui

W15 Brasília | 1–7 jun | Arena Mané Garrincha | Quadra rápida

O torneio que abriu a sequência trouxe de volta Brasília ao mapa do circuito feminino e produziu um dos momentos mais emotivos da temporada: uma final 100% brasileira na capital federal.


Campeã: Luiza Fullana (BRA) venceu Marjorie Souza (BRA) — 6/1, 1/6, 6/2 (2h22)


Luiza Fullana (Foto: Divulgação/FPT)
Luiza Fullana (Foto: Divulgação/FPT)

A brasiliense de 25 anos conquista o sexto título da carreira, o primeiro em casa. "Estou muito feliz com esse título. A Marjorie jogou super bem, mas fico feliz por termos feito uma final entre duas brasileiras. Acho que estamos fazendo história", disse Fullana após a vitória.

Destaque também para a jovem brasiliense Maria Eduarda Moretti, de 14 anos, que estreou no circuito profissional com uma vaga na chave principal.


W35 Cuiabá | 8–14 jun | Outdoor — Saibro

Segunda semana consecutiva de tênis feminino internacional no Brasil, desta vez levando o circuito ao Centro-Oeste. Cuiabá sediando pela primeira vez um evento do Women's World Tennis Tour.


W15 Rio Claro | 6–13 jul | Clube de Campo de Rio Claro | Saibro

Quatro brasileiras chegaram às quartas de final — Luiza Fullana (cabeça 1), Ana Candiotto (cabeça 2), Carolina Bohrer e Marjorie Souza. A semifinal mais esperada foi inteiramente nacional: Marjorie virou o roteiro e eliminou Fullana, que havia vencido os dois últimos confrontos entre elas no Brasil, por 6/3 e 6/4.


Campeã: Oceane Babel (FRA) vencendo Marjorie Souza (BRA)


O título foi estrangeiro, mas o Brasil dominou o torneio. Marjorie alcançou sua segunda final no circuito em menos de um mês.


W35 São Paulo | 13–20 jul | Clube Paineiras do Morumby | Saibro

Campo mais pesado, premiação de US$ 30 mil. O Brasil colocou duas semifinalistas: Carolina Bohrer e Carolina Meligeni Alves. Bohrer chegou à semi pelo caminho mais difícil — derrubou a cabeça 2, Ana Sofia Sánchez (MEX), por duplo 6 e 7-6 nas quartas. Carolina Alves eliminou a italiana Giorgia Pedone (cabeça 3) e também chegou às semis.


Outros destaques brasileiros: Ana Candiotto (cabeça 3) nas quartas; Marjorie Souza nas quartas; Carolina Xavier Laydner (qualifier) nas quartas. Pietra Rivoli e Giovana Schincariol também estiveram na chave.


Campeã: Oceane Babel (FRA) venceu Mell Elizabeth Reasco Gonzalez (ECU) — 6/3, 6/4

Babel vence assim seu segundo torneio consecutivo no Brasil, após Rio Claro. Luiza Fullana, cabeça 8, caiu na primeira rodada para a argentina Luciana Moyano.


W75 Vacaria | 20–26 jul | Tênis Santa Teresa | Saibro coberto (RS)

O maior torneio feminino do Brasil no semestre. Atletas de 18 países, campo encabeçado por Julia Riera (ARG, 166ª) e Laura Pigossi (BRA, 249ª), e o único W75 sediado no país em 2026. Nauhany Silva — a Naná, então 669ª e top 10 juvenil — estreou contra Marjorie Souza numa abertura 100% brasileira.


Simples — Campeã: Julia Riera (ARG) venceu Laura Pigossi (BRA) — 6/2, 6/2

Duplas — Campeãs: Nauhany Silva + Laura Pigossi (BRA) venceram Isabella Barrera + Carolina Bohrer — de virada


Pigossi encerrou a semana com vice no simples e título nas duplas, somando 29 pontos no ranking e subindo provisoriamente para o 239º posto — resultado decisivo na disputa por uma vaga no qualifying do US Open. Naná, Pietra Rivoli e Carolina Meligeni Alves também estiveram na chave principal.


A nota de rodapé amarga: logo após o torneio, a organização anunciou que o W75 de Vacaria não será realizado em 2027, citando restrições orçamentárias impostas pela CBT cerca de 40 dias antes do início do evento de 2026. Após três edições consecutivas que mobilizaram mais de 2 mil crianças locais, o torneio fica fora do calendário.


W15 Campos do Jordão #1 | 10–16 ago | Campos do Jordão TC | Sintético

Dezenove brasileiras na chave. Fullana, Bohrer e Marjorie Souza chegaram às semifinais. Na semi, Fullana superou Bohrer em três sets (6/1, 3/6, 6/3) e confirmou o favoritismo na decisão.


Campeã: Luiza Fullana (BRA) — sétimo título da carreira


W15 Campos do Jordão #2 | 17–23 ago | Campos do Jordão TC | Sintético

Campeã: Carolina Bohrer (BRA) — melhor resultado da carreira


Fullana foi à final novamente — vice pela segunda vez na sequência. Nos dois torneios seguidos em Campos do Jordão, as duas dominaram absolutamente: cada uma venceu um título e perdeu uma final para a outra.


Tênis Paulista Pro Series W35 Barueri | 24–30 ago | Alphaville Tênis Clube | Quadra rápid

O torneio encerra três semanas consecutivas de competições profissionais femininas promovidas pela Federação Paulista de Tênis no mês de agosto — os dois W15 de Campos do Jordão mais o W35 de Barueri. Nenhum estado do Brasil havia feito isso antes em 2026.


Oito brasileiras estão confirmadas na chave principal: Carolina Meligeni Alves (cabeça da lista nacional), Ana Candiotto, Luiza Fullana, Julia Konishi, Carolina Bohrer, Marjorie Souza, Nauhany Silva e Victoria Barros. O campo internacional inclui tenistas da Argentina, Canadá, China, Estados Unidos, México e Venezuela. Premiação total de US$ 30 mil e 35 pontos no ranking para a campeã.


"É motivo de muito orgulho para a Federação Paulista de Tênis proporcionar três semanas consecutivas de torneios profissionais femininos no nosso estado. Tivemos dois W15 em Campos do Jordão e agora fechamos essa sequência com um W35 em Barueri, oferecendo às nossas atletas a oportunidade de competir em casa, somar pontos importantes para o ranking mundial e ganhar experiência no circuito. Isso mostra a importância de termos cada vez mais competições desse nível no Brasil", afirma Danilo Gaino, presidente da FPT.


O que ainda vem pela frente


O calendário oficial confirma mais oito torneios até o fim de 2026:

Torneio

Período

Superfície

W15 Porto Velho

31 ago – 6 set

Quadra rápida

W15 São Luís

14–20 set

Saibro

W15 Belém

21–27 set

Quadra rápida

W15 Maceió

12–18 out

Saibro (coberto)

W15 Campina Grande

19–25 out

Saibro

W15 Feira de Santana

9–15 nov

Quadra rápida

W35 São Paulo

16–29 nov

Saibro

W75 Florianópolis

23–29 nov

Saibro

O W75 de Florianópolis é o ENGIE Open, programado logo após os playoffs da Billie Jean King Cup em novembro — quando o Brasil receberá o Canadá em casa. A sequência de uma semana entre o confronto da seleção e o maior torneio feminino do fim do ano é exatamente a estratégia que Farias descreveu em abril.


A expansão geográfica para o Norte e Nordeste — Porto Velho, São Luís, Belém, Maceió, Campina Grande, Feira de Santana — é inédita e representa o argumento mais concreto de que o calendário de 2026 não é apenas volumoso, mas estruturalmente diferente de tudo que veio antes.


O que os números provam: quem jogou no Brasil, subiu

Em 20 de abril de 2026 — três semanas após o desabafo de Teliana Pereira —, o ranking das dez melhores brasileiras na WTA tinha uma aparência. Em 24 de agosto, depois de sete torneios no Brasil e com oito ainda por vir, a aparência é outra. A comparação é direta:

Jogadora

Abr/26

Ago/26

Variação

Jogou no Brasil?

Bia Haddad Maia

69ª

154ª

-85

Não (em pausa)

Laura Pigossi

217ª

193ª

+24

Sim

Carolina Meligeni

275ª

313ª

-38

Sim*

Gabriela Cé

329ª

330ª

=

Não

Thaisa Pedretti

473ª

566ª

-93

Não

Luiza Fullana

510ª

478ª

+32

Sim

Ana Candiotto

528ª

466ª

+62

Sim

Nauhany Silva

684ª

594ª

+90

Sim

Julia Konishi

713ª

676ª

+37

Sim

Carolina Bohrer

795ª

689ª

+106

Sim

*Meligeni jogou Vacaria e foi semifinalista no W35 de São Paulo, mas teve queda líquida porque os pontos conquistados em 2026 não compensaram os que expiraram da temporada passada.


O padrão é claro: todas as sete que jogaram o circuito doméstico subiram no ranking. As que não jogaram — Bia em pausa médica, Thaisa Pedretti e Gabriela Cé fora da rota nacional — caíram ou ficaram paradas.


O caso mais expressivo é o de Carolina Bohrer: +106 posições em quatro meses, chegando ao seu melhor ranking da carreira aos 18 anos — e com projeção de alcançar a 611ª posição na próxima atualização após o título em Campos do Jordão. O de Nauhany Silva é o mais simbólico: +90 posições jogando essencialmente um único torneio no Brasil (Vacaria), o que fez dela uma das três melhores do mundo para sua faixa etária. E o de Thaisa Pedretti é o mais revelador pelo avesso: -93 posições sem passar pelo circuito doméstico, enquanto suas companheiras de geração subiram.


Luiza Fullana, de 516ª para 478ª nesta semana e projetada para 452ª na próxima — seu melhor ranking WTA, com sete títulos de carreira, três deles conquistados no Brasil em 2026.


Marjorie Souza (fora do top 10 nacional, mas parte central desta história): 64 posições de salto nesta semana, chegando à 772ª — melhor da carreira. É o primeiro ano em que a paulista de 23 anos compete exclusivamente no circuito mundial, após encerrar o ciclo no tênis universitário dos EUA.


A pergunta de Teliana, respondida na prática

O que a ex-tenista expôs em abril não era só uma crítica a um calendário vazio. Era um argumento estrutural: sem torneios em casa, jogadoras de menor ranking ficam dependentes de viagens caras, sem apoio, numa corrida de gastos que a maioria não consegue sustentar.


Os 16 torneios de 2026 — ainda em andamento — demonstraram de maneira concreta o que acontece quando o circuito chega ao Brasil. Fullana campeã na própria cidade. Bohrer, com 18 anos, conquistando um título internacional. Marjorie Souza batendo a principal favorita em Rio Claro e chegando a duas finais em sequência. Dois semifinalistas brasileiros no W35 de São Paulo. Naná e Pigossi levantando o troféu de duplas em Vacaria.


A pergunta de Teliana foi respondida com saltos nos ranking — e ainda tem oito torneios pela frente.

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