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"Fiquei de queixo caído", diz Teliana Pereira sobre quase total ausência de torneios femininos no Brasil em 2026

  • há 19 horas
  • 3 min de leitura
Tenista segura bandeira do Brasil e abraça mulher emocionada em quadra de saibro. Pessoas ao fundo. Faixa "Deloitte" visível.
Teliana comemora com a mãe após título em Florianópolis (Foto: UOL)

"Hoje fui dar uma olhada no calendário da ITF e fiquei de queixo caído ao perceber que até a data de hoje não há nenhum torneio previsto no Brasil este ano, com exceção, claro, do WTA 250 de São Paulo".

A frase é de Teliana Pereira, publicada no Instagram neste primeiro de abril. E não, não se trata de uma mentira. Muito pelo contrário.


O desabafo vem carregado de verdades. E autoridade: a alagoana de Santana do Ipanema tem lastro para falar. Chegou ao top 50 do mundo numa trajetória que começou nas quadras de um clube onde o pai trabalhava como caseiro, em Curitiba. Suou muito até se tornar a primeira brasileira a vencer um título WTA desde 1988, quebrando um jejum que perdurava 27 anos, desde quando Niege Dias havia levantado o troféu pela última vez em Barcelona. Campeã em Bogotá em abril de 2015. Florianópolis, em agosto. Em outubro daquele ano subiria ao 43º lugar do ranking — o melhor posicionamento de uma brasileira até então, desde a era Maria Esther Bueno.


O acaso guiou Teliana até o tênis. Mas o tênis feminino brasileiro não chegou até ela por acaso — tem história, tem nomes, teve Maria Esther Bueno, Patrícia Medrado, Gisele Miró, Niege Dias... O que Teliana aponta não é ausência de tradição. É ausência de memória para enfrentar velhos hábitos: sem torneios em casa, a próxima geração encontra os mesmos obstáculos que a anterior encontrou — e terá que partir para o exterior para resolvê-los.


"Não poder competir em casa é muito triste. Ter que viajar o tempo todo e desembolsar uma fortuna todos os meses para seguir competindo é uma realidade que poucas conseguem sustentar".


"Novas Telianas" deste imenso Brasil bem que poderiam chegar lá sem passar pelo que a Pereira precisou passar, não?


O vazio

A América do Sul já realizou seis torneios ITF femininos neste ano: quatro na Argentina e dois no Chile. Nenhum no Brasil. O WTA 250 de São Paulo em setembro existe, mas é outra conversa — torneio de elite não substitui os W15, W35 e W50 que alimentam o ranking de quem ainda está construindo carreira. Entre janeiro e setembro, o calendário nacional está vazio de competições. Torneios ITF não surgem de última hora. O que não está confirmado agora, na prática, não deve mesmo acontecer.


O dado mais revelador não está no calendário vazio de 2026. Está no que aconteceu em 2025, quando o Brasil recebeu eventos. Luiza Fullana, brasiliense de 24 anos que construiu boa parte do seu ranking dentro do próprio país, venceu três torneios consecutivos em solo nacional: W15 Ribeirão Preto, W15 Mogi das Cruzes e W15 Criciúma. Já Laura Pigossi bronze olímpico em Tóquio ao lado de Luisa Stefani, ganhou o W35 de São Paulo. Quatro torneios femininos no Brasil, quatro títulos para brasileiras. A amostra é pequena, mas aponta uma direção.


Jogar em casa não é luxo. É ponto, é dinheiro, é confiança. É poder passar a semana sem gastar com voo e hotel, sem acumular o desgaste de quem vive desfazendo malas. Para uma tenista tentando galgar posições no ranking, a diferença entre jogar um W35 em São Paulo e ir disputar o mesmo nível no exterior, pode ser de alguns milhares de dólares.


O que Teliana perguntou, o tênis não respondeu

"Porque será que é tão difícil fazer torneios femininos no Brasil?", ela escreveu. Não é pergunta retórica por falta de resposta — é retórica porque a resposta que existe não satisfaz ninguém. Sem calendário, não há público; sem público, não há patrocinador; sem patrocinador, não há calendário. O ciclo é antigo e se sustenta na inércia de quem poderia quebrá-lo e não quebra.


O contraste com o lado masculino é confortável demais para ser ignorado. Em 2026, o Brasil sediou o Rio Open, quatro challengers e tem mais três deste nível previstos até agosto. Outros dois M15 agendados para maio em Maringá. Uma infraestrutura que permite a jovens como Guto Miguel, 17 anos, acumular pontos, ganhar experiência e crescer no ranking sem sair do país.


Teliana encerrou o post com uma ressalva: "lembrando que estou falando da situação atual, e não dos anos anteriores, e que pode ser que surjam torneios, sim. Tomara que isso aconteça." É a frase de alguém que conhece o circuito bem o suficiente para saber que torcer é o que resta quando o planejamento falha.


Nos comentários da publicação, Fernando Meligeni deixou sua resposta: "Boa Te. Passando meu bastão pra você. Fala mesmo. Você tem moral, história, resultado, caráter e postura para cobrar, falar. E se eu fosse eles, respondia te escutando".


Difícil dizer com mais precisão o que o tênis feminino brasileiro precisa ouvir — e de quem.




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