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Virou rotina. Mais tenistas relatam ameaças de morte em menos de 60 dias

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura
Mensagem de ameaça em chat: "Como quieres morir???" e "Te tienen que matar", com fundo preto. Inclui imagem de jogo de tênis.
Marina Bassols recebeu ameaças em seu perfil no Instagram (Foto: Reprodução/X)

O calendário de 2026 mal começou e o circuito já acumula ao menos quatro novos relatos de ameaças diretamente ligadas a apostas esportivas. Em menos de dois meses, um espanhol jogou sob escolta policial num Challenger argentino, e mais três tenistas europeias receberam ameças.


Fotos de armas chegaram pelo WhatsApp de duas delas, antes de partidas. Para outra, mensagens de morte depois de uma derrota na fase classificatória. O que mudou em relação ao que Emma Raducanu descreveu, em entrevista ao jornal espanhol AS em fevereiro, como algo que ela "aceitou que continuará acontecendo"?


Pouca coisa.


Rosário: jogo com polícia, sem público

Rosário, Argentina, 5 de fevereiro. Nikolas Sánchez, espanhol de 26 anos e então número 274 do ranking ATP, disputava o Challenger 125 da cidade quando recebeu mensagens de um número desconhecido, com código de área de Rosário, exigindo que ele se deixasse perder "de maneira disimulada" contra o argentino Valerio Aboian. A ameaça não deixou margem para dúvidas: os remetentes diziam conhecer o nome completo, o endereço e os detalhes dos familiares dele. O sequestro da família era a contrapartida pelo resultado errado.


"Basicamente, me incentivaram a perder discretamente o jogo que estava prestes a jogar e me disseram para não falar uma palavra, senão minha família seria sequestrada e eu sofreria sérias consequências e não sairia vivo", relatou Sánchez, em entrevista ao podcast espanhol Punto de Break após o ocorrido.


Nikolas Sánchez (Foto: João Pires)
Nikolas Sánchez (Foto: João Pires)

Sánchez seguiu o protocolo anticorrupção do circuito, notificou a ITIA, fez boletim de ocorrência na Polícia e só então entrou em quadra, quase duas horas depois do horário marcado. O jogo foi disputado a portas fechadas, com presença policial, sem torcedores nas arquibancadas. Ele perdeu, cancelou sua participação no torneio de duplas e voltou para a Espanha no mesmo dia. "O que me preocupava era a segurança, a falta de privacidade, o medo de pensar: será que tem alguém na porta do meu prédio? O jogo em si é secundário", disse. "Terminei o jogo chorando, com os olhos vermelhos."


A nota de desfecho foi de tolerância zero. Nas redes sociais, Sánchez escreveu: "Durante anos suportei os excessos verbais nas redes, como muitos outros tenistas. Dada a gravidade das últimas ameaças recebidas, a partir de hoje denunciarei qualquer mensagem que represente uma falta de respeito ou ameaça a mim ou à minha família".


Indian Wells: fotos de arma antes do quali

Menos de um mês depois, o cenário se repetiu em outro continente. Em Indian Wells, Califórnia, a italiana Lucrezia Stefanini, número 138 do ranking WTA, recebeu uma foto de uma arma pelo WhatsApp antes de sua partida na fase classificatória do WTA 1000 californiano. "Recebi uma mensagem na qual fui ameaçada por causa da minha vitória na partida de ontem. Ameaçaram a mim e à minha família, mencionaram meus pais, o lugar onde nasci e me enviaram uma foto de uma arma", relatou Stefanini em vídeo publicado no Instagram diretamente do BNP Paribas Open.


A tenista notificou imediatamente a WTA e entrou em quadra mesmo assim. Perdeu para a andorrana Victoria Jimenez Kasintseva por 4/6, 6/4 e 6/4 e ficou de fora da chave principal. "Estou gravando este vídeo e explicando o que aconteceu porque não acho certo me submeter a essa pressão e desconforto antes de uma partida", declarou. "Apesar de tudo, lutei até o fim para tentar vencer meu jogo, porque não posso permitir que essas pessoas me intimidem."


Stefanini (Foto: ITF Tennis)
Stefanini (Foto: ITF Tennis)

Angelo Binaghi, presidente da Federação Italiana de Tênis, reagiu com dureza: "Enviar imagens de armas, obter informações pessoais e intimidar uma atleta demonstra um comportamento preocupante que não tem nada a ver com o esporte. Esse tipo de comportamento merece uma resposta legal imediata." Não era o primeiro caso italiano: o mesmo tipo de ameaça havia chegado antes ao tenista Mattia Bellucci.


Antalya: e se vazaram dados da WTA?

Dois dias depois do caso de Stefanini, em 6 de março, a húngara Panna Udvardy, número 95 do mundo, publicou um relato ainda mais perturbador. Ela estava em Antalya, Turquia, para um torneio nível 125, quando recebeu mensagens em seu número pessoal de WhatsApp por volta da meia-noite. O conteúdo era o de sempre, a especificidade era diferente: além dos nomes dos familiares, os remetentes mandaram fotos deles.


"A pessoa me disse que, se eu não perdesse minha partida hoje, eles fariam mal à minha família, dizendo saber onde todos moram, quais carros dirigem e que tinham seus números de telefone. Chegaram até a enviar fotos de familiares meus e uma imagem de uma arma", descreveu Udvardy.


Udvardy (Foto: Getty Images)
Udvardy (Foto: Getty Images)

A húngara acionou o supervisor da WTA, enviou capturas de tela, avisou os pais, que contataram o consulado. O Consulado Húngaro na Turquia enviou três seguranças para acompanhá-la. Ela foi ao boletim de ocorrência, jogou, perdeu e então disse algo que acendeu um alerta diferente: "Fui informada de que ameaças semelhantes aconteceram recentemente com outras jogadoras e que eles acreditam que informações pessoais podem ter vazado do banco de dados da WTA, o que está sendo investigado neste momento."


Um possível vazamento de dados na WTA. A organização confirmou que a investigação está em andamento, mas não deu detalhes. Se confirmado, o problema deixa de ser sobre apostadores raivosos e passa a ser sobre uma brecha estrutural no sistema que deveria proteger, em tese, as jogadoras do circuito.


"Quero dizer algo com muita clareza: isso não é normal. Mesmo sendo atletas ou figuras públicas, não é aceitável receber ameaças contra nossas famílias. Não podemos normalizar esse tipo de abuso no esporte", afirmou Udvardy.


Bogotá: depois da derrota, a lista de execução

Marina Bassols (Foto: RFET)
Marina Bassols (Foto: RFET)

O caso mais recente chegou nesta quarta-feira, 1º de abril, e talvez seja o que mais explicita a mentalidade por trás dessas ameaças. A espanhola Marina Bassols, número 203 do ranking, caiu na última rodada do qualifying do WTA 250 de Bogotá para a russa Anastasia Tikhonova e, como consequência de uma derrota num jogo de tênis, recebeu o que ela mesma descreveu como uma "enxurrada" de mensagens. O nível do conteúdo dispensa comentários.


"Contrate um bom seguro de vida e um advogado, porque vou te matar assim que você chegar em casa", dizia uma das mensagens. Outras prometiam contratos com cartéis, afirmavam saber onde ela mora e usavam uma linguagem de execução sistemática. Bassols publicou as capturas de tela sem filtro. "As coisas continuam… e estão piorando", escreveu.


Piorando é a palavra certa.



O que o circuito já sabia

Esses quatro casos não vieram do nada. Em fevereiro deste ano, a Nittenis publicou reportagem sobre o depoimento de Raducanu ao jornal AS, no qual a britânica descreveu sua resignação diante do assédio virtual como postura de sobrevivência. "Aceitei que o assédio online continuará acontecendo. Não importa o quanto se faça a respeito, há muitas pessoas por aí, e não há como impedi-las", disse ela à época.


Naquele texto, o relatório conjunto de WTA e ITF referente a 2024 já apontava que 458 tenistas receberam ataques diretos ao longo do ano, com apostadores frustrados responsáveis por 40% de todo o conteúdo abusivo detectado. Em casos de abuso direto reportado pelas próprias jogadoras, esse índice subia para 77%. Quinze casos foram encaminhados à polícia, três deles ao FBI.


A ATP lançou o Safe Sport em julho de 2024, com inteligência artificial para ocultar comentários abusivos em tempo real nos perfis dos jogadores. Em seu primeiro ano, o sistema identificou mais de 162.000 comentários ofensivos entre 3,1 milhões monitorados. A WTA opera o Threat Matrix, que cobre automaticamente qualquer tenista que compita no circuito. As ferramentas existem. O problema evoluiu mais rápido do que elas.


O que os casos de 2026 mostram com clareza é uma escalada qualitativa: não são mais só insultos nas menções do Instagram. São fotos de armas pelo WhatsApp, endereços residenciais, nomes de familiares, ameaças de sequestro. E uma suspeita de que os dados pessoais das jogadoras podem estar circulando por canais errados.


Resignada, Raducanu disse que já havia "aceitado" a atual e alarmante situação: "não há como impedir". O circuito ainda não sabe muito bem o que fazer com isso.

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