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De Jones a Osaka, de Murray a Nadal: quando o adversário mais difícil não está do outro lado da rede

  • há 4 dias
  • 9 min de leitura

Neste Miami Open, duas atletas que enfrentam condições de saúde relevantes entraram em quadra com a missão de superar a estreia nas quadras rápidas da Flórida. Uma delas nasceu com uma síndrome genética rara que afetou a formação dos dedos das mãos e dos pés, exigiu diversas cirurgias e chegou ao circuito profissional carregando o veredito médico de que jamais jogaria em alto nível. A outra passou sete anos sem diagnóstico enquanto seu corpo sabotava tudo que ela havia construído, perdeu o top 100 por uma doença autoimune sem cura e voltou de qualquer jeito. Francesca Jones e Venus Williams não precisavam de placar para tornar aquela partida especial.


Francesa Jones e Venus Williams (© Miami Open, 2026 Getty Images). Jogadora de tênis de laranja e boné branco comemora com raquete. Dois insetos mostram abraços com adversária de branco em quadra. Fundo nublado.
Francesa Jones e Venus Williams (© Miami Open, 2026 Getty Images)

Jones venceu por duplo 7/5, de virada em ambos os sets. Tornou-se a primeira jogadora, desde a criação do formato em 2009, a conquistar sua primeira vitória em WTA 1000 sobre uma ex-número 1 do mundo. Quando o último forehand de Venus foi para a rede, Jones ergueu os braços. Antes de chegar à rede, fez uma reverência. Venus sorriu, abriu os braços e as duas se abraçaram. Quem reverencia a adversária logo depois de vencê-la está dizendo algo que nenhuma entrevista traduz. Jones estava diante de sua ídola.



"Se não fossem essas duas mulheres, não tenho certeza se eu teria dado o passo. Elas são a razão de eu estar aqui hoje", disse a britânica à Associated Press, referindo-se a Venus e Serena Williams. Jones ainda tem pôsteres das irmãs no quarto onde passou a infância com sua família, desejando boa noite a elas todas as vezes que dorme lá.


Na segunda rodada, retirou-se da partida contra Pegula quando perdia por 6/1, 3/0. A ironia: ela mesma havia contado, na entrevista pós-Venus, que estava tossindo durante toda a partida. "Eu estava preocupada em passar a doença para uma lenda", disse ao site oficial do Miami Open. O corpo cobrou a fatura logo na rodada seguinte.


Mas o que aquele duelo deixou foi algo maior do que o resultado.


O tênis tem uma lista longa de atletas que jogaram com condições que poderiam ter encerrado carreiras. Raramente esses nomes aparecem no mesmo parágrafo. Deveriam.



Jones: três dedos, um polegar, e os médicos que erraram

Francesca Jones nasceu com a síndrome EEC, condição genética rara que resultou em um dedo a menos em cada mão e três dedos a menos nos pés, exigindo cirurgias frequentes ao longo da vida. O impacto no tênis é concreto e imediato: a raquete é segurada de forma diferente, o equilíbrio é comprometido, movimentos que qualquer iniciante aprende sem questionar precisaram ser completamente reconstruídos para ela. Médicos disseram que o tênis de alto nível estava fora do alcance.


Ela mudou-se para Barcelona aos nove anos para treinar na academia Sanchez-Casal. Passou a adolescência fora de casa, em outro país, aprendendo a jogar com o que tinha.


Chegou ao top 70 em janeiro deste ano, o melhor ranking da carreira, e em Miami conquistou a primeira vitória da história em WTA 1000 contra uma ex-número 1.


"Não é segredo que me disseram que eu não conseguiria jogar tênis. E Venus e Serena foram duas das pessoas que realmente me fizeram acreditar", disse à WTA Tour.

Do outro lado da rede, Venus Williams carregava outra conta.


Venus: sete anos sem diagnóstico

Desde 2004, a americana acumulava sintomas que nenhum médico conseguia nomear: fadiga extrema, dores nas articulações, perda de sensibilidade nas mãos. Só em 2011, após anos de diagnósticos errados, ela recebeu o nome correto para o que sentia: síndrome de Sjögren, doença autoimune que ataca as glândulas produtoras de umidade no corpo. A síndrome forçou seu abandono do US Open de 2011, tirou-a do top 100 pela primeira vez desde 1996 e colocou em questão sua continuidade no circuito.


Não existe cura. Sete anos de sintomas se acumularam antes do diagnóstico correto, tempo em que Venus não sabia por que seu corpo se recusava a acompanhar o que ela exigia dele. A partir dali, sua carreira virou um exercício de adaptação: pausas, retornos e recomeços. Ainda assim, competiu por mais de uma década depois de descobrir o que tinha. E entrou em quadra em Miami na semana passada, aos 45 anos, com wild card, para jogar contra uma britânica de 25 que tem pôsteres dela e de sua irmã pendurados no quarto desde a infância.


Nadal: o osso que não tem cura

Desde 2005, Rafael Nadal conviveu com a síndrome de Müller-Weiss, condição degenerativa rara que afeta o osso navicular do pé, causando dor crônica e deformidade progressiva. Sem cura conhecida. Diagnosticado aos 19 anos, apenas três anos depois de iniciar a carreira, Nadal passou duas décadas gerindo o problema com palmilhas ortopédicas, infiltrações e, mais tarde, ablações por radiofrequência para adormecer os nervos do pé. "Não me lembro da sensação de jogar sem dor", disse em algumas de suas milhares de entrevistas.


Rafael Nada. Wimbledon. Tenista sentado, vestindo branco, troca curativo no pé em quadra. Público desfocado ao fundo. Expressão de dor e esforço.
(Foto: Getty Images)

A dimensão do que isso significa em prática foi revelada na final de Roland Garros de 2022, quando levantou seu 14º e último troféu na Philippe Chatrier. Jogou com o pé anestesiado por injeção no nervo durante a partida. Ganhou. A condição era degenerativa e piorava com o tempo e com cada metro percorrido em quadra. No total, somou 22 Grand Slams, com um pé que dói desde que ele tinha 19 anos.


Murray: o metal no quadril e a coletiva em que chorou

Andy Murray entrou numa sala de imprensa no Australian Open de 2019 e, na frente de jornalistas, começou a chorar. Contou que havia meses dormia mal, que dor no quadril era parte do dia, e que provavelmente aquele seria o último torneio da carreira. Tinha 31 anos.

Após a deterioração irreversível do quadril esquerdo, Murray optou pela cirurgia de resurfacing, que consiste em remover o osso danificado e adicionar uma capota de metal sobre a cabeça do fêmur e uma cúpula metálica no acetábulo, preservando mais do osso original que uma substituição total do quadril. Publicou no Instagram uma radiografia com o novo implante e escreveu: "Agora tenho um quadril de metal como você pode ver". Não havia garantias de que voltaria a competir.



Voltou. Voltou a vencer torneios ATP, voltou ao top 50, e seguiu competindo até 2024. Com um quadril de metal cobalt-cromo dentro do corpo. Na história do tênis profissional, isso não tinha precedente.


Tipsarevic: o número 8 do mundo de óculos

Quando Jones dava os primeiros saques no circuito, havia um sérvio de óculos de prescrição fazendo bonito nos principais torneios do mundo. Janko Tipsarevic chegou ao número 8 do mundo usando armação Oakley feita sob medida para ele. Míope severo, tentou lentes de contato mas se sentiu desconfortável, e descartou o laser: "Minha visão sem os óculos de prescrição é ruim na luz do sol, mas preciso deles também em condições fechadas".


Janko Tipsarevic. Homem com óculos prepara arremesso de tênis; foco na bola amarela. Fundo desfocado azul, expressão concentrada.
(Foto: Pinterest)

Ganhou quatro títulos ATP, chegou às quartas do US Open em 2011 e 2012, e integrou a equipe sérvia campeã da Copa Davis. Passou por sete cirurgias entre 2014 e 2017, nos dois pés, nos dois joelhos e nos isquiotibiais, antes de se aposentar em 2019.


Blake: um ano que não deveria ter sobrevivido

2004 é o ano de James Blake em três atos: em maio, correu em direção à rede num treino em Roma, escorregou no saibro e bateu a cabeça diretamente no poste de metal. Fraturou a sétima vértebra cervical, mas sem dano neurológico, o que o médico chamou de sorte considerável. Em julho, o pai morreu de câncer no estômago. E então, os médicos disseram que a perda do pai foi tão intensa que o estresse desencadeou um surto grave de herpes zoster, que paralisou metade do rosto, reduziu a audição, embaçou a visão e afetou o equilíbrio. Tudo no mesmo ano.


James Blake: Jogador de tênis mergulha para alcançar a bola em quadra verde. Ele usa camisa branca, shorts bege e boné, transmitindo determinação.
(Foto: American Tennis Association)

Blake descreveu que, quando tentava se levantar, sentia tonturas como se fosse cair. A paralisia facial poderia ter sido permanente. Chegou ao ranking de número 210. Em 2005, recuperado, foi do nº 210 ao nº 22 em poucos meses, chegou às quartas do US Open e bateu Nadal pelo caminho. Em 2006, chegou ao número 4 do mundo. A frase que ele disse sobre o acidente que quebrou o pescoço resume o raciocínio do atleta que está nessa lista:


"Quebrar o pescoço foi a melhor coisa que aconteceu comigo em 2004, porque me deu seis semanas com meu pai antes de ele morrer", disse à ABC News.

Seles: a faca e o que ficou

Monica Seles tinha 19 anos e havia vencido oito dos onze Grand Slams que disputara quando, em 30 de abril de 1993, um torcedor obsessivo de Steffi Graf a apunhalou pelas costas durante uma mudança de lado em Hamburgo. Ela ficou dois anos afastada do tênis, lutando contra depressão e um transtorno alimentar que se desenvolveu no período de ausência. Sofreu com PTSD, ansiedade e medo persistente de grandes multidões e aparições públicas.


Parte superior: Monica Seles, Jogadora de tênis no chão, cercada por duas pessoas tentando ajudá-la. Parte inferior: Homem sendo contido por outros em meio à multidão.
(Reprodução/Reddit)

O agressor foi condenado a uma pena convertida em liberdade, sem prisão. Seles disse que ficou furiosa com a sentença e jurou que não competiria mais na Alemanha. Voltou ao circuito em 1995, venceu o primeiro torneio sem perder um set, chegou à final do US Open e conquistou um nono Grand Slam no Australian Open de 1996. Nunca voltou a ser a jogadora dominante que era antes do ataque. Martina Navratilova diria, anos depois, que sem o incidente Seles teria o maior número de Grand Slams da história do tênis. Muitos de nós concordamos, provavelmente.


Fish: no carro, a caminho do jogo mais importante da vida

Mardy Fish estava no carro a caminho do US Open de 2012. Era a quarta rodada de Nova York, contra Roger Federer, no Arthur Ashe, no Labor Day. O número 7 do mundo. O jogo pelo qual se trabalha a carreira inteira. Dentro do carro, algo colapsou. Fish sofreu um ataque de pânico tão severo que, mais tarde, descobriu que não tem memória da metade de um jogo anterior contra Gilles Simon, disputado dias antes. Retirou-se horas antes de enfrentar Federer. Não voltou ao circuito por quase três anos.


Mardy Fish - Homem sentado de braços cruzados, expressão pensativa. Parede ao fundo com raquetes de tênis antigas penduradas. Luminária acesa à esquerda.
(Reprodução/ Netflix)

Diagnosticado com transtorno severo de ansiedade, Fish sabia, quando voltou em 2015, que teria de gerenciar a condição todos os dias, incluindo dentro de quadra. Voltou ao mesmo US Open onde havia colapsado. Ganhou a primeira rodada. Perdeu na segunda. Encerrou a carreira em seus próprios termos, no mesmo torneio, no mesmo estádio. Depois contou tudo no documentário da Netflix: Untold: Breaking Point. Assista, vale cada segundo.


Osaka: quando ainda não tinha nome para isso

Naomi Osaka revelou que sofria de longos períodos de depressão desde sua vitória inesperada no US Open de 2018 e que sentia grandes ondas de ansiedade antes de falar com a imprensa. Em 2021, retirou-se de Roland Garros após anunciar que pularia as coletivas para proteger sua saúde mental. Recebeu multa, foi ameaçada de desclassificação e dividiu o esporte inteiramente. O que parece razoável hoje era considerado inaceitável há pouquíssimos anos.


Tanto que em 2022, em Indian Wells, a japonesa foi alvo novamente. Uma torcedora gritou da arquibancada: “Naomi, você é um lixo”. Não era a primeira vez que alguém ouvia algo assim em quadra. Mas, naquele momento, algo se quebrou dentro dela. No intervalo, Osaka pediu à árbitra o microfone, disse que já havia sido vaiada naquele mesmo estádio anos antes e que aquilo a afetava mais do que gostaria de admitir. Chorou durante a partida e saiu com a derrota. O episódio tornou-se um ponto de fratura na forma como o esporte reage à vulnerabilidade. Parte do debate saiu do tênis e entrou num terreno mais antigo: o da ideia de fragilidade — com insinuações, explícitas ou não, de que reações como a dela seriam prova de que mulheres não suportariam a pressão competitiva da mesma forma.


Naomi Osaka: Jogadora de tênis sentada, cabelo cacheado preso, segurando toalha no rosto, aparenta estar emocionalmente abalada. Treinadora inclinada, consola.
(Foto: Reuters/Jayne Kamin-Oncea-USA TODAY Sports)

Ela não foi a primeira atleta de alto nível a gerir ansiedade e depressão dentro de uma carreira esportiva. Foi a primeira a dizer isso em voz alta, em público, na frente de câmeras, antes de uma coletiva de imprensa numa Grand Slam. A diferença não é clínica. É histórica.


Raducanu: o peso de vencer cedo demais

Emma Raducanu: Jogadora de tênis de branco, usando viseira Nike, leva a mão ao pescoço em quadra. Fundo desfocado, expressão concentrada.
(Foto: TennisTonic)

Emma Raducanu venceu o US Open de 2021 sem perder um set, vinda do qualifying, aos 18 anos. Um feito estatístico que não existia na história do tênis. O que veio depois foi menos linear. Lesões em sequência, trocas constantes de técnicos e uma pressão desproporcional para alguém que ainda estava aprendendo o que é ser profissional. Em entrevistas posteriores, Raducanu descreveu episódios de ansiedade, dificuldades para lidar com a exposição e a necessidade de reconstruir a própria relação com o esporte. O título em Nova York a colocou em um lugar para o qual nem o circuito nem ela estavam preparados. O caso não é isolado, como vimos. É apenas mais visível porque aconteceu sob holofotes absolutos.


Brooksby: um diagnóstico que reorganiza a narrativa

Jenson Brooksby, americano nascido em 2000, passou anos sendo descrito como “diferente” em quadra. Estilo pouco ortodoxo, ritmo irregular, comportamento introspectivo. Em dezembro de 2024, ele revelou publicamente ter sido diagnosticado ainda na infância com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A informação reconfigura a leitura de sua carreira: não como excentricidade, mas como adaptação.


Brooksby chegou ao top 40 do mundo jogando um tênis que foge aos padrões tradicionais de cadência e construção de pontos. Seu caso amplia o escopo da discussão: não se trata apenas de competir apesar de uma condição, mas de competir com uma forma distinta de perceber o jogo e o ambiente ao redor.


Jenson Brooksby (Foto: Divulgação/Dunlop)
Jenson Brooksby (Foto: Divulgação/Dunlop)

O padrão que une todos esses casos não é a narrativa fácil da superação. É algo mais incômodo: a constatação de que competir com o corpo ou a mente comprometidos é menos exceção do que o esporte costuma admitir. Jones virou de 4-5 nos dois sets contra Venus com febre. Nadal jogou finais de Grand Slam com o pé anestesiado. Murray voltou a vencer torneios com um quadril de metal. Blake foi do número 210 ao número 4 do mundo depois de um ano em que quebrou o pescoço, perdeu o pai e ficou com metade do rosto paralisado. Fish voltou ao mesmo estádio onde havia colapsado três anos antes e ganhou.


Nenhum deles pediu para estar nessa lista. Mas todos fizeram o que o tênis exige de qualquer um que queira continuar: entraram em quadra com o que tinham.

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