Do ombro operado à final em Dubai: a semana monumental de uma veterana de volta ao circuito
- Raphael Favilla

- 6 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Sob a brisa quente de dezembro nos Emirados Árabes, onde a temporada costuma se despedir em ritmo mais lento, o ITF W100 de Dubai ganhou inesperadamente o enredo mais fascinante do fim de 2025. O que começou como um torneio de nível intermediário transformou-se em palco de uma história fascinante: o retorno triunfal de Vera Zvonareva, ex-número 2 do mundo, hoje com 41 anos, que voltou ao circuito depois de mais de um ano afastada e, contrariando todas as projeções, está na final de simples e duplas.

A russa, que não atuava desde maio de 2024 — quando disputou o qualifying de Estrasburgo, perdendo para Ashlyn Krueger — chegou a Dubai sem ranking, sem ritmo, sem expectativas e longe do brilho que a fez vice-campeã de Wimbledon e do US Open em 2010. Mas trouxe algo que nunca perdeu: a obstinação. O primeiro triunfo veio sobre Wurth, ex-top 150, e seguiu com vitórias sobre Tara Wuth, Tereza Martincová e Sofya Lansere, esta última em uma batalha de 2h45 (7/5, 2/6, 6/3), que garantiu sua primeira semifinal em qualquer categoria desde 2021.
No sábado, a história ganhou outro capítulo impressionante. Zvonareva derrotou a britânica Mika Stojsavljevic, de apenas 16 anos, ex-número 5 juvenil e campeã do US Open da categoria, por 6/3, 6/7 (4-7) e 7/6 (7-0). A vitória não apenas a colocou na final, como simbolizou um raro duelo de eras: experiência contra juventude crua, resiliência contra potência.
“Foi um jogo duro, como sempre acontece contra as mais jovens. Minha experiência ajudou, mas no fim precisei jogar um tênis muito físico. Na minha idade, você vive um dia de cada vez — e essa é a minha mentalidade nesta semana”, disse ela após vencer Wurth, dias antes, deixando claro o espírito que a guiaria até a final.
Agora, na decisão, ela enfrenta a croata Petra Marcinko, de 20 anos e número 103 do mundo, que superou Xinyu Gao por 4/6, 6/3 e 6/0. E não para por aí: Zvonareva também decidirá o título de duplas ao lado da compatriota de 17 anos Rada Zolotareva, depois de virarem contra Shrivalli Bhamidipaty e Ankita Raina por 3/6, 7/5 e 10-3. A final será contra Gao (novamente no caminho) e a tailandesa Mananchaya Sawangkaew.
O Legado que Precede o Momento
A façanha em Dubai ganha ainda mais profundidade quando se revisita quem é, de fato, Vera Zvonareva. Profissional desde setembro de 2000, ela soma 12 títulos em 30 finais, dois vice-campeonatos de Grand Slam e uma final do WTA Championships (2008). Foi medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 e construiu uma das carreiras de duplas mais completas de sua geração, com três títulos de Grand Slam (US Open 2006, Australian Open 2012 e US Open 2020) e mais dois Slams em duplas mistas (US Open 2004 e Wimbledon 2006).
A partir de 2015, porém, a carreira tomou rumos inesperados. Lesões sucessivas a tiraram do circuito, e em 2016, ano em que se casou e teve sua filha, anunciou a aposentadoria. Uma “aposentadoria definitiva”, segundo ela própria. Passou a trabalhar como comentarista da Eurosport, mantendo-se conectada ao esporte enquanto priorizava a maternidade.
Mas o tênis não havia terminado com ela. Em 2017, movida pela paixão, voltou ao circuito ITF, reconstruindo a carreira tijolo por tijolo. Em 2023, reencontrou regularidade nas duplas, vivendo uma temporada de destaque ao lado de Laura Siegemund: foram finalistas do US Open e campeãs do WTA Finals em Cancún. Um ano antes, porém, enfrentara polêmica internacional ao ser barrada na fronteira da Polônia, em meio às tensões geopolíticas. “Que ameaça um atleta pode representar para a Polônia?”, protestou Svetlana Kuznetsova, sua ex-companheira de equipe.
Em setembro de 2024, uma cirurgia no ombro novamente interrompeu seus planos. Sua última vitória antes de Dubai havia sido em março daquele ano, num W35 no Chipre. Parecia o fim, mais uma vez.
Até esta semana.
Um Retorno que Desafia a Lógica
Sua presença em Dubai, mesmo sem ranking, já era uma história. Tornar-se finalista e, quem sabe, campeã, mexe com a percepção do que é possível no esporte. O técnico e ex-jogador Dmitry Tursunov não hesitou:
“Conhecendo a Vera e os retornos dela, eu não me surpreenderia nada se ela terminasse o ano no top 150. Ou até acima.”
O torneio também proporcionou uma das narrativas mais simbólicas do ano. À imprensa, antes de enfrentar Stojsavljevic, a russa comentou:
“Não vai ficar mais fácil a partir de agora. Já vi a Mika jogar, e entendo por que ela tem sido tão bem-sucedida. Será mais um grande desafio.”
A britânica, por sua vez, reconheceu a dureza de seu caminho até o duelo:
“Houve muitas oscilações no jogo. No tie-break, fui para os golpes, e funcionou. Cada dia traz um desafio novo, e estou mais sábia depois de um jogo assim.”
A semifinal foi, como esperado, a representação perfeita de duas eras se encontrando em quadra. E a final promete seguir esse roteiro.
O Desfecho que o Tênis Vai Parar para Ver
Independentemente do resultado, a campanha de Vera Zvonareva em Dubai já é um marco do tênis em 2025. Ela não joga por ranking, não joga para provar algo ao mundo. Joga porque ama, porque ainda vê sentido no desafio, porque sua história não havia terminado.
E talvez essa seja a essência que faz sua semana em Dubai ser tão memorável: não é apenas um retorno. É uma resistência. Uma recusa em aceitar o fim. Uma lenda que, contra todas as probabilidades, decidiu que ainda tinha algo a dizer.
E disse.
.png)


.png)




Comentários