"Efeito zumbi": onda de calor varre Roland Garros e leva tenistas ao colapso
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A primeira semana de Roland Garros 2026 trouxe aos tenistas um adversário extra. A onda de calor que castiga a Europa fez Paris registrar temperaturas que superaram 35°C à tarde e não desceram abaixo de 20°C à noite, com anomalias de quase 15 graus em relação às normais sazonais, marcas muito acima do esperado para o final de maio.
O fenômeno tem nome e explicação. A "cúpula de calor" ocorre quando uma massa de ar quente proveniente do norte da África fica aprisionada sob um sistema de alta pressão sobre a Europa Ocidental. O mecanismo funciona como uma tampa de panela: o ar é comprimido para baixo, acumula calor e não consegue se dissipar por dias ou semanas. O resultado, neste ano, é uma série de recordes históricos para o mês de maio. No Reino Unido, Londres registrou seu dia mais quente de maio, com 34,8°C nos Jardins Botânicos Reais de Kew, dois graus acima do recorde anterior. Na terça-feira, a cidade chegou a 35°C. Na França, o indicador térmico nacional médio atingiu 24,8°C, também recorde para maio.
O custo humano é real. O governo francês registrou sete mortes direta ou indiretamente ligadas ao calor, incluindo pelo menos cinco por afogamento, com as altas temperaturas levando a população a praias sem vigilância para se refrescar. No Reino Unido, foram confirmadas cinco mortes. Esse é o contexto europeu em que Roland Garros está sendo disputado. Para um Grand Slam masculino em melhor de cinco sets, sob sol direto sobre o saibro, o cenário não poderia ser mais hostil.
O número 1 não sobreviveu
O caso mais impactante foi o de Jannik Sinner. O italiano, número 1 do mundo e apontado como o principal favorito depois da saída precoce de Carlos Alcaraz antes do torneio, entrou em quadra nesta quinta-feira com 30 vitórias seguidas e tudo encaminhado para transformar a disputa do Grand Slam numa formalidade. Liderava 6/3, 6/2, 5/1 contra o argentino Juan Manuel Cerúndolo (56º) quando o roteiro virou.
Sinner pediu atendimento médico, deixou a quadra para tratamento e na volta não conseguiu se recuperar. O físico seguiu limitando o italiano, que cometeu uma série de erros ao tentar forçar soluções rápidas. Cerúndolo, que instantes antes já se encaminhava para o vestiário convicto da derrota, virou o terceiro set, controlou o quarto e o quinto sem sustos e fechou por 3/6, 2/6, 7/5, 6/1 e 6/1 em 3h36. Foi a primeira derrota de Sinner no saibro na temporada, em 19 partidas, e a primeira vez desde 2000 que o cabeça de chave número 1 masculino cai antes da terceira rodada em Roland Garros.
"Esta manhã eu já acordei me sentindo mal, não dormi bem. Mas isso pode acontecer", disse Sinner em entrevista coletiva após a partida. Não explicou mais. Não precisava. O placar explicou por ele.
Cerúndolo, que pela primeira vez na carreira vencia um top 10, foi lacônico no melhor sentido. "Estou muito feliz. Tentei jogar o meu melhor e vou continuar tentando", afirmou após a vitória.
O caso Ruud
A primeira história reveladora da semana, dois dias antes de Sinner, havia sido a de Casper Ruud (5º) diante do qualifier russo Roman Safiullin (141º). O vice-campeão em 2022 e 2023 abriu 6/2 e 7/6(5), chegou a 5/2 no terceiro set e teve cinco match-points. Não fechou nenhum. Perdeu o terceiro set por 5/7. E em seguida foi varrido por 6/0 no quarto, em um jogo no qual passou a apenas existir dentro da quadra.
Foram onze games seguidos sem vencer um único, do 5/3 no terceiro ao 0/1 no quinto, com paralisações médicas, toalhas com gelo no pescoço, água jogada na cabeça, gelo passado no rosto. No banco, Ruud cogitou desistir. Disse que estava perto de tomar o avião para casa:
"No fim do terceiro e do quarto set, me senti muito mal, muito tonto. Estava difícil de ver a bola. Acho que minha temperatura corporal estava alta demais e eu não conseguia baixá-la com o calor que fazia". Caminhou pelo quarto set, nas próprias palavras, quase como um zumbi. Conseguiu recuperar o suficiente para fechar por 6/2 no decisivo, depois de 3h56 de jogo. Na segunda rodada, Ruud confirmou mais uma vez o favoritismo e derrotou o sérvio Hamad Medjedovic.
Mensik: vitória, colapso, cadeira de rodas
Entre Ruud e Sinner, houve Mensik. O tcheco Jakub Mensik (26º) viveu na última quarta-feira o episódio mais perturbador da semana. Após 4h41 de batalha em cinco sets contra o argentino Mariano Navone, Mensik venceu por 6/3, 2/6, 6/4, 1/6 e 7/6(11) com uma direita no match-point. Depois de bater a bola, simplesmente desabou.

O tcheco ficou no chão por vários minutos, incapaz de se levantar. Navone veio cumprimentá-lo. O árbitro apareceu. Ninguém conseguiu ajudá-lo. Foi preciso a intervenção de uma equipe médica de emergência para que Mensik saísse da quadra, em cadeira de rodas, com toalhas de gelo no pescoço, no peito e uma compressa gelada na testa.
Em entrevista coletiva, o tcheco de 20 anos explicou o que aconteceu e foi à jugular das condições do torneio. "No começo do quarto set, comecei a ter muita dificuldade para absorver eletrólitos e líquidos. Basicamente parei de beber. E isso causou todos os problemas depois. O fim diz tudo."
E sobre as condições em si: "É insano jogar nesse clima, especialmente em pleno sol. Ficar lá por mais de quatro horas e meia. Isso é simplesmente insano. Mesmo nos intervalos, você não tem tempo suficiente. Você tem um minuto, mas quando senta já são só 30 segundos. Não dá para se recuperar."
Mensik garantiu, porém, que estava melhor: "No vestiário, fui direto para o banho de gelo e depois fui para a academia fazer recuperação. Me sinto bem. É só recuperar as forças, beber bastante, comer um pouco, e tudo vai ficar bem." Na terceira rodada, enfrenta o australiano Alex de Minaur.
Moïse Kouamé, francês de 17 anos e apenas 318º do ranking, foi outro que sofreu para avançar. Liderava por dois sets quando viu o paraguaio Adolfo Daniel Vallejo vencer o terceiro e o quarto para empatar. No quinto, chegou a estar 2/5 abaixo antes de salvar dois match-points, forçar o tie-break e fechá-lo por 10/8. O jogo durou quase cinco horas, e com a vitória por 6/3, 7/5, 3/6, 2/6 e 7/6(8) Kouamé se tornou o tenista mais jovem a alcançar a terceira rodada de um Grand Slam desde Rafael Nadal em Wimbledon 2003.
Ao selar o match-point, o adolescente não celebrou com socos para o ar. Fez algo mais honesto com a situação: foi direto para o gelo. A cena, registrada pela France.tv e repercutida nas redes sociais, virou símbolo imediato da semana.
Depois de se recompor, foi ao microfone: "Galera, tenho só uma coisa a dizer: obrigado, essa vitória também é de vocês. Sem vocês, eu nunca teria vencido esse jogo", disse o francês em quadra. Na terceira rodada, enfrenta o chileno Alejandro Tabilo.
Mais casos
Nem todos chegaram ao fim. O canadense Gabriel Diallo (49º) abandonou contra o australiano James Duckworth ainda na estreia, no domingo. "Foi insolação, com certeza. Não estava preparado para algo assim. Sofri muito com o calor e tudo piorou de repente. Estava tudo desandando, então decidi não agravar", afirmou.
Andrey Rublev escapou, mas por pouco. O confronto com o peruano Ignacio Buse durou 3h39 e teve ambos os tenistas pedindo atendimento médico no segundo set. Buse precisou de um time-out, com sais e minerais adicionados à garrafa e um estetoscópio no peito.
Rublev recebeu tratamento poucos games depois. Venceu em quatro sets. A cena mais perturbadora daquele jogo, porém, não envolveu nenhum dos dois. Antes de Buse precisar de atendimento, uma boleirinha passou mal e ficou atordoada no calor extremo. Rublev foi o primeiro a notar: ao entregar a bola gentilmente para ela, a menina não conseguiu sequer segurá-la. A árbitra percebeu na sequência e a partida foi interrompida.
Marta Kostyuk também sofreu com calor. Antes de vencer o terceiro set contra a americana Katie Volynets, precisou colocar gelo sobre a cabeça. A primeira rodada terminou com seis abandonos em meio de partida, quatro deles só na terça-feira.

O saibro mudou de ritmo
O calor não derruba só atletas. Mexe com o jogo em si. O espanhol Alex Corretja, ex-tenista e hoje comentarista dos canais Eurosport, observou que a combinação de ar seco e quente, e top spin acentuado, está acelerando a bolinha e elevando o quique. Saibro mais rápido, bolas com mais peso, quiques mais altos. Os tenistas dizem não ter experimentado condições assim desde as Olimpíadas de Paris, em julho e agosto de 2024.
A regra ATP prevê que, se o índice WBGT ultrapassar os 30,1 graus, os jogos passam a ter dez minutos de paralisação após o segundo set. O WBGT é uma medida de calor ambiental que analisa o efeito no corpo humano: pesa o calor, a umidade, o vento, as nuvens e o ângulo solar. Em casos extremos, a regulamentação prevê até a suspensão de jogos em cinco sets. Mensik, no entanto, foi mais longe: criticou a rigidez com que as regras foram aplicadas em seu jogo.
"No circuito ATP, as coisas são um pouco diferentes. Normalmente você recebe mais flexibilidade e compreensão. Aqui, tudo é super rígido. Eu respeito completamente as regras. Mas, nesse tipo de calor e nessas condições, é honestamente insano."
Daria Kasatkina resumiu o espírito da semana: "Não me lembro da última vez em que esteve tão quente em Roland Garros. Talvez um dia. Mas teremos isso pela semana inteira. De repente, você se levanta do banco e percebe que perdeu o foco. Quem se adaptar melhor às condições, leva o jogo."
Aryna Sabalenka, número 1 do mundo, estreou com vitória tranquila por 6/4 e 6/2 sobre Jessica Bouzas Maneiro e disse "tentar ignorar o clima". Funciona até deixar de funcionar.
O que ainda vem
Roland Garros costuma alternar uma semana seca e quente com outra fria e de chuva, não tanto quanto neste ano. A Météo-France sublinha que ondas de calor tão precoces tendem a ocorrer "cada vez mais cedo, mais vezes e com maior intensidade". É possível que a segunda semana traga algum alívio. Mas quem avançar para as oitavas e quartas precisará mostrar uma versatilidade adicional: a de jogar com o calor como variável de cada ponto, com o saibro mais rápido e a bolinha pulando mais alto. Sinner não aguentou. É também isso, no fim, que faz desses torneios o que são.
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