Eliminação de Fonseca em Roma provoca debate sobre o tratamento da imprensa ao tenista
- 12 de mai.
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A derrota de João Fonseca para o sérvio Hamad Medjedovic na estreia do Masters 1000 de Roma ainda repercute nas redes. Debates simultâneos que correm em paralelo e quase sem se cruzar: um sobre o tênis que o carioca de 19 anos está jogando; outro sobre como a mídia brasileira repercute cada tropeço dele; e um terceiro sobre o comportamento da torcida brasileira nas arquibancadas das quadras onde ele joga.
Críticas à cobertura da imprensa
No sábado, enquanto o placar negativo ainda esfriava, a ESPN Brasil anunciou uma entrevista exclusiva com Fonseca sobre o comportamento da torcida, e o momento em que ele se irritou com o árbitro. Uma das páginas mais engajadas na cobertura do tenista no X, antigo Twitter, não escondeu a irritação: "O que vocês estão fazendo com o garoto? Entrevista nesse momento? Deixem ele ser feliz! Ele não queria dar [entrevista] ontem, por que insistiram para ele dar hoje? Deixem o João em paz!"
O GloboEsporte publicou uma matéria sobre a eliminação em Roma ilustrada com uma foto de João quebrando a raquete em Madri, na semana anterior. Outra conta, dedicada ao jovem brasileiro, foi direta:
"Sério mesmo que colocaram o João quebrando a raquete em Madri como capa de uma matéria sobre o jogo de Roma dando a entender que foi hoje, @geglobo? Preocupante ver até mesmo veículos grandes apelando para contexto distorcido e sensacionalismo barato em troca de clique."
Galvão Bueno também entrou no debate, com um post que questionava o que estava "faltando" ao brasileiro. Usando o ranking máximo de carreira do sérvio como se fosse o atual, o narrador escreveu que Fonseca havia perdido para "o nº 57 do mundo" e concluiu com uma sequência de perguntas sobre agressividade, condicionamento físico e equilíbrio mental. O perfil @JFFTENNIS resumiu: "Galvão Bueno entende de tênis o mesmo que eu entendo de astronáutica."
O jornalista Mauricio Savarese foi mais técnico em sua abordagem, mas igualmente debatido: "Essa derrota do João Fonseca é pra ele repensar como está jogando e é pra torcedores e imprensa repensarem — ao menos por enquanto — se ele merece o status de potencial estrela que recebeu até agora." O tuíte chegou a dezenas de milhares de visualizações. O @InfoTenisBrasil respondeu sem rodeios: "Está havendo um delírio coletivo, inclusive por parte da mídia esportiva, o que me choca mais, sobrevalorizando a derrota de hoje."
O dado que os fãs do carioca mais circularam foi levantado pela conta @fonsecaupdates: no mesmo dia, outros oito cabeças de chave caíram na estreia em Roma, incluindo o quarto (Felix Auger-Aliassime), o quinto (Ben Shelton) e o 15º (Arthur Fils) do torneio.
"Fico muito impressionado como pro restante é vida que segue, enquanto a cobertura pra derrota do João é sempre em tom de uma enorme tragédia", escreveu o perfil.
Críticas à assessoria de imprensa
Algumas críticas são do final de abril, anteriores à derrota em Roma. E foram repostadas após a eliminação na capital italiana, ganhando nova circulação. Servem para mostrar que a tensão com a mídia e a assessoria já estava sendo questionada antes do resultado do último sábado.
A página @fonsequism foi mais extensa. Começou pelo que considera um equívoco de posicionamento: Fonseca carregaria, segundo o autor, um peso que não é seu. "Ele tem que tirar esse peso que ele se coloca de representar o Brasil. Ele representa a ele próprio e a quem, por conta própria, decidiu gostar e torcer por ele." A única exceção, na visão do perfil, é a Davis Cup. "Ele não é time de futebol. Ele representa a ele próprio. Só na Davis ele representa o Brasil."
A partir daí, a crítica foi diretamente para a assessoria. O argumento central: exclusivas para canais premium de nicho não ampliam audiência, só alimentam quem já tem opinião formada. "Comunica com quem essas entrevistas exclusivas pra canal premium? Quem já assiste tênis, já é fã, ou já é hater. Mais ninguém." A conclusão não deixou margem: "Urge a assessoria dele rever os conceitos."
E foi mais fundo. "O martírio que rolava com a Bia não pode se repetir."
Uma análise mais fundamentada
Enquanto o ecossistema de redes sociais debatia a cobertura, alguns dos analistas mais qualificados tentavam falar sobre o jogo.
Em sua coluna no UOL (Saque e Voleio), Alexandre Cossenza identificou o nó da partida com precisão cirúrgica. No texto "O ovo, a galinha e o jogo agressivo de João Fonseca", o jornalista aponta que João foi mais consistente numericamente, acumulando 24 winners e apenas 23 erros não forçados, contra 39 e 49 de Medjedovic respectivamente. O problema, segundo ele, não foi a quantidade de erros: foi a postura.
A partir de determinado momento, o brasileiro passou a jogar de forma mais conservadora, sem pressionar nem os segundos serviços do adversário, enquanto o sérvio seguia agredindo. Medjedovic falhou mais ao longo do jogo, mas controlou seu destino quando precisou. No tiebreak, Fonseca cedeu dois mini-breaks errando esquerdas e o sérvio disparou quatro winners. A agressividade foi recompensada. E por isso, Cossenza levantou a questão:
"Não deixa de chamar atenção o fato de João Fonseca, um tenista agressivo e que enxerga seu jogo assim, estar regularmente agredindo menos do que seus oponentes. Mas isso acontece porque o brasileiro não consegue ser tão agressivo diante de certos oponentes? Ou será que João simplesmente não quer mais ser tão agressivo assim? Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?
O jornalista do SporTV Ricardo Bernardes foi ainda mais direto com essa questão, com uma thread que toca num ponto sensível: "SERÁ QUE O JOÃO FONSECA PERDEU SUA IDENTIDADE COMO JOGADOR?", titulou em caixa alta.
A pergunta não era retórica. Bernardes desenvolveu: "Ele surgiu como um fenômeno no juvenil e no profissional por ter a bola muito mais rápida que a maioria. Era o seu diferencial." O comunicador relembrou que no início da carreira profissional, Fonseca foi criticado pelo excesso de agressividade e pelos erros que ela gerava. A correção de rota parece ter acontecido, mas Bernardes questiona se a dose foi a certa: "Será que ele está confortável em quadra? Obviamente foi mais estudado, mas há um componente técnico/tático que parece não potencializar o jogo do João."
O @JFFTENNIS leu a thread e endossou, fazendo a pergunta seguinte:
"Quem foi o responsável por colocar na cabeça de um adolescente cedo demais que ele antes de ser regular nas virtudes tinha que arrumar os 'defeitos'?"
A pergunta ficou sem resposta, mas ficou no ar.
Meligeni e a torcida
Fernando Meligeni escolheu outro ângulo, mas chegou a uma conclusão parecida sobre o conjunto: há um problema real sendo soterrado pelo barulho errado.
Em um vídeo publicado no Instagram e num texto no mesmo perfil, o ex-tenista e comentarista concentrou sua crítica no comportamento da torcida brasileira em Roma, que em vários momentos gritou durante os pontos, levando o árbitro a interromper o jogo repetidamente. "O espetáculo é dos jogadores. A torcida paga para ver o jogador. Sempre foi isso, sempre foi feito assim", disse Meligeni no vídeo. "O que vocês fizeram, mais uma vez, é uma vergonha. Isso não é patriotismo."
E foi além: "pura falta de educação. Babaquice. Vergonha. Mau exemplo para os filhos. Detestável." Meligeni também pediu expulsões sem hesitação: "Atrapalhou? Fora. Sem dó, sem desculpa, sem 'eu não sabia'. Fora." E fez questão de deixar claro que não estava esquecendo do jogo: "Mais uma derrota que não muda nada, mas que mostrou um João muito distante do João que conhecemos. Preocupante? Ainda não. Mas é bom entender os motivos."
Num dos momentos mais reveladores do vídeo, Meligeni antecipou o contra-argumento e o descartou: "Não estou falando pelo João. Não estou falando pela Bia. Não estou falando pelo Fernando. Estou falando pelo esporte. Para mim, é minha vida. É o esporte do meu sustento."
O que disse Fonseca
Na entrevista à ESPN logo após o jogo, Fonseca tocou em quase todos os nós do debate sem saber da extensão que ele tomaria. Sobre a torcida, disse que "foi um ponto dentro da partida, muitas paradas, não posso dizer que isso foi a culpa da derrota, mas isso importa. A torcida brasileira pensa que é um jogo de futebol, mas não é. Adoro a torcida, mas tem que ter um pouco de limite e respeito."
Sobre o árbitro, com quem discutiu no terceiro set e do qual recebeu uma advertência após arremessar uma bola para fora da quadra: "Acho que perdeu o controle da partida. Não tenho nada contra ele, acho uma ótima pessoa, fala português, mas acabou perdendo o controle. Falei que eu nunca reclamei, mas acho que ele estava tomando uma decisão errada, e foi uma análise minha. São coisas da partida, o terceiro set, estava 5 a 5, então a cabeça fica um pouco mais quente."
A autocrítica mais clara veio sobre o segundo set, quando tinha vantagem e desperdiçou cinco break points: "São oportunidades que não posso perder, ainda mais no momento em que eu estava melhor na partida. O 'se' não existe, mas se eu fizesse meu saque, ele poderia ficar mais pressionado. É isso que me machuca tanto." Quando questionado sobre o estilo de jogo, foi objetivo: "Obviamente tento ser cada vez mais sólido, mas o meu jogo é ser agressivo, dar o winner, ir para a rede, comandar os pontos."
A frase resume, sem querer, o debate dos últimos dias.
Próximos compromissos
A derrota em Roma foi a terceira consecutiva de Fonseca, que antes havia caído diante do espanhol Rafael Jódar, na sua estreia em Madri na terceira rodada. O carioca, atual 29º do mundo, segue para o ATP 500 de Hamburgo, entre os dias 16 e 23 de maio, último torneio antes de Roland Garros.
A chave principal do Slam francês começa no dia 24. Até lá, resta saber qual dos debates sobre Fonseca vai ter mais espaço na mídia antes da estreia do brasileiro.
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