“Era o Guga e eu contra o mundo”: Larri Passos escancara bastidores, denuncia “máfia” da ATP e revela convite recusado de Djokovic em entrevista
- Da redação

- há 4 dias
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A entrevista de Larri Passos ao Abre Aspas, do ge (globoesporte.com), é daquelas que ajudam a entender não apenas a trajetória de Gustavo Kuerten, mas também como o tênis profissional funcionava, e em muitos aspectos ainda funciona, nos bastidores. Em mais de duas horas de conversa franca, sem verniz e sem diplomacia, o técnico que moldou o maior tenista da história do Brasil entregou um retrato cru do circuito, falou sobre poder, interesses, sacrifícios pessoais e deixou claro: nada do que Guga conquistou veio por acaso ou benevolência institucional.
“Era o Guga e eu contra o mundo”, resume Larri, numa frase que funciona como fio condutor de toda a entrevista. Segundo ele, o sentimento não era retórico. A ATP, diz, tinha lado. E o lado não era o de um brasileiro vindo da periferia do circuito europeu.
“Era uma máfia, você tinha que enfrentar. A ATP protegia os ingleses, os americanos. Vocês acham que a ATP torcia para o Guga ser número 1 do mundo? De maneira nenhuma”, dispara, sem rodeios. Para Larri, a ascensão de Guga incomodava interesses comerciais claros. Um número 1 americano ou europeu “vendia mais”, gerava mais contratos, mais mídia e mais dinheiro. Um brasileiro, não.
A fala ganha ainda mais peso quando ele descreve o momento em que Guga alcança o topo do ranking, após vencer a Masters Cup de 2000, em Lisboa. Ao ir ao escritório da ATP buscar a confirmação oficial, Larri se deparou com um cenário simbólico: “Era cara de velório. Velório. Os caras não vibraram. Parecia que tinha morrido alguém”. A reação, segundo ele, escancarava tudo.

Dentro de quadra, a batalha era técnica. Fora dela, política. E Larri assumiu o papel de escudo. Foi aí que nasceu a fama de “pitbull”.
“Batam em mim, mas não batam nele”, conta. Era Larri quem dizia não a empresários, patrocinadores, dirigentes, jornalistas e até à própria ATP. Ele sabia que proteger Guga significava comprar briga. E pagou caro por isso. “Paguei um preço muito caro, tomei muita porrada”, admite. Sua academia virou “bunker”, o acesso era controlado, e a antipatia no circuito cresceu proporcionalmente ao sucesso do pupilo.
Um dos episódios mais reveladores envolve uma proposta milionária de patrocínio de bebida alcoólica logo após Roland Garros 1997. O dinheiro era tentador, mas Larri foi categórico: não. “Se abrirmos a imagem dele com bebida alcoólica, vamos matar os futuros contratos”, explicou à época. O mesmo aconteceu com convites para exibições, interclubes e ações comerciais que desviariam o foco do circuito. Em 1996, recusou uma proposta de US$ 300 mil para jogar seis partidas de Interclubes. “Com 100 mil a gente viajava o ano inteiro, e mesmo assim eu disse não”, relembra. A decisão foi tomada no quarto, a dois. Guga confiava cegamente: “Você que decide”.
Essa relação de confiança absoluta ajuda a entender por que Larri recusou convites que mudariam sua própria história. Ele revela que teve a chance de treinar Novak Djokovic quando o sérvio tinha apenas 19 anos. O convite veio do manager do jogador. Larri disse não. “Minha relação com o Guga foi tão forte que achei que nunca mais fosse treinar um homem”, explica. Hoje, admite que talvez tenha sido um erro. “Eu e o Djoko seria legal. Melhoraria o jogo dele no saibro. Ele ganharia mais no saibro”.
Ao longo da entrevista, Larri também desmonta a romantização do circuito. Ele relata provocações explícitas, como a de Todd Martin, que em Cincinnati questionou em voz alta “onde já se viu um brasileiro ganhar na quadra dura”. A resposta veio dentro de quadra. E fora dela. “O samba ganhou do jazz”, gritou Larri, dançando na arquibancada após a vitória de Guga. Para ele, aquilo era sobrevivência.
O técnico também cita episódios de arbitragem controversa e favorecimento escancarado, especialmente contra americanos. “Jogar contra americano era assim. A bola caía dentro, o juiz cantava fora. E a TV não mostrava replay”, afirma, citando Miami e Wimbledon como exemplos. Naquele tempo, sem desafio eletrônico, “tinha que aguentar”.
Mas a entrevista não é só confronto. Há espaço para emoção, especialmente quando Larri fala do câncer diagnosticado em 2018. Ele se emociona ao lembrar que cuidou de todos, do Guga, das filhas, dos jogadores. E esqueceu de si. “Cuidei de todo mundo e esqueci de cuidar de mim”, diz, chorando. O relato é cru: cirurgia longa, complicações, tratamento para o resto da vida. E, mais uma vez, Guga ao lado. Dormiu no hospital, esteve presente em cada etapa.

Ao olhar para o tênis atual, Larri mantém a franqueza. Critica a mecanização do esporte, a relação fria entre jogador e técnico, a pressão das redes sociais e o uso indiscriminado do termo “burnout”. “Burnout é pai desempregado com cinco filhos em casa”, provoca. Para ele, falta alegria. Falta relação humana. E sobra marketing.
Sobre o Brasil de hoje, vê esperança em João Fonseca, elogia a formação, a estrutura e o trabalho bem feito. “Eu o vejo no topo”, afirma, sem prometer número, mas deixando claro que acredita. Sobre Bia Haddad, com quem trabalhou, é direto: perdeu alegria, precisa voltar a se divertir.
No fim, a entrevista do ge se impõe não só pelo conteúdo, mas pelo tom. Larri Passos fala como viveu: sem filtro, sem medo, sem pedir licença. É memória viva de um tempo em que o tênis era menos pasteurizado, mais desigual e, paradoxalmente, mais humano. Um tempo em que um brasileiro precisou ser muito melhor do que os outros para simplesmente ser tratado como igual. E, mesmo assim, nunca foi.
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