Fery é a grande história desta edição de Wimbledon e reacende um sonho que os ingleses não viviam há anos
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Arthur Fery bateu Grigor Dimitrov e chegou pela primeira vez às quartas de final de um Grand Slam, colocando de novo um britânico entre os oito melhores de Wimbledon e transformando o garoto local no personagem central desta edição do torneio.
O apelido pegou rápido. A TSN o chamou de "the kid from Wimbledon", o garoto de Wimbledon, e a alcunha resume tudo: Fery cresceu a poucos minutos do All England Club, ia assistir aos jogos na Quadra Central quando menino e agora está entre os oito num major, do lado de dentro. É o primeiro convidado britânico a chegar tão longe em um Grand Slam na Era Aberta, e o tenista de colocação mais baixa a alcançar as quartas de Wimbledon desde o australiano Nick Kyrgios, então 144º, em 2014. Antes desta quinzena, o 114º do mundo somava só duas vitórias em chaves principais de major.
O próprio Fery ainda não processava o tamanho do que vivia. "Estou sem palavras neste momento. É muito difícil descrever o que senti em quadra diante de todos vocês", afirmou o britânico de 23 anos após anotar 7/5, 3/6, 4/6, 6/4 e 7/6 (10-7). "O apoio da torcida foi fenomenal."

O garoto que cresceu a cinco minutos dali
A história tem camadas que fogem à quadra. Fery é filho de Loïc Fery, presidente do Lorient, clube da elite do futebol francês, e passou pela Universidade Stanford, onde foi eleito o melhor tenista de simples da Conferência Pac-12 em 2023. Chegou ao top 200 apenas em outubro do ano passado. Sua premiação na temporada, até Wimbledon, somava cerca de 328 mil dólares. Só pela vaga nas quartas, embolsará por volta de 642 mil dólares, quase o dobro do que havia faturado em todo o ano.
E há o detalhe que ele mesmo fez questão de sublinhar: a estreia na Quadra Central, com Roger Federer no Royal Box. "Foi minha primeira vez nesta quadra, enfrentando uma verdadeira lenda do esporte. Cresci vindo assistir aos jogos aqui e ainda tinha, provavelmente, o maior jogador de todos os tempos na primeira fila. Eu o vi ali. Jogar diante dele, receber esse apoio e vencer é simplesmente inacreditável", comemorou.
A virada virou assinatura
Sofrer não é acidente na campanha de Fery. É o método. Na terceira rodada, ele perdia para Zizou Bergs por dois sets a um, com dupla quebra de desvantagem no quarto set, e ainda ficou atrás no quinto antes de reagir. Contra Dimitrov, o roteiro se repetiu à risca: dois sets a um abaixo e, por duas vezes, uma quebra atrás na quarta parcial.
"O roteiro deste torneio tem sido esse. Também estive muito perto da derrota na rodada passada e hoje outra vez fiquei uma quebra atrás no quarto set", disse Fery. "Procurei continuar lutando, manter uma boa atitude e seguir fiel ao meu plano de jogo. Parece que estou jogando meu melhor tênis justamente quando estou contra a parede, e isso voltou a fazer a diferença."
A partida foi equilibrada do início ao fim, com todos os sets decididos por uma quebra ou menos. No primeiro, Dimitrov sacou mal no 11º game e foi quebrado de zero; Fery fechou no segundo set-point. O búlgaro reagiu, devolveu a quebra no fim do segundo set e emendou cinco games seguidos no terceiro, abrindo 2/0 e virando o jogo. No quarto, teve a quebra de vantagem em duas ocasiões, sacando em 2/1 e depois em 4/3, mas o britânico se recuperou nas duas e ainda quebrou de novo para forçar o quinto.
No momento mais tenso, os dois elevaram o saque e não cederam um break-point sequer, empurrando a decisão para o tiebreak. Fery abriu 4-2 com um mini-break; Dimitrov venceu os três pontos seguintes e ficou à frente. O britânico manteve a cabeça fria, contou com erros do adversário e fechou numa devolução do búlgaro na rede. Foram três horas e 55 minutos.
Uma seca que já incomodava
O feito de Fery entra numa lista curta. Desde a Era Aberta, apenas outros cinco britânicos chegaram às quartas de Wimbledon: Andy Murray (dez vezes), Tim Henman (oito), Cameron Norrie e Roger Taylor (duas cada) e Greg Rusedski (uma). Norrie, semifinalista em 2022, havia sido o último a levar um inglês tão longe no torneio, caindo diante de Carlos Alcaraz no ano passado. Como convidado, porém, Fery é o primeiro britânico a chegar às quartas de um major na Era Aberta, ao lado de um grupo seleto de wild cards a alcançar essa fase em Wimbledon, que inclui Pat Cash, Goran Ivanisevic, Juan Carlos Ferrero e o próprio Kyrgios.
O confronto contra Dimitrov também rendeu uma nota histórica: foi o primeiro duelo entre dois convidados numa fase igual ou mais avançada que as oitavas de um Grand Slam, masculino ou feminino. Para o búlgaro, ex-número 3 do mundo e campeão do ATP Finals de 2017, foi a segunda despedida seguida de Wimbledon nas oitavas. No ano passado, ele abandonou o duelo com Jannik Sinner por lesão no peitoral quando vencia por dois sets a zero.
"É um sonho realizado"
Fery reconheceu que sequer imaginava uma campanha desse tamanho ao chegar ao torneio. "Há uma semana eu já ficaria feliz se conseguisse vencer algumas partidas aqui. Agora estou nas quartas de final de Wimbledon. É um sonho realizado", celebrou. Com o resultado, ele salta provisoriamente do 114º para o 63º lugar na próxima lista da ATP. Curiosamente, seu melhor resultado na temporada até aqui havia sido outra ida às quartas na grama, no Queen's Club.
Fritz avisou: "Ele sempre me vencia"
Um dos favoritos ao título já conhecia bem o rapaz da casa. Taylor Fritz, sexto pré-classificado, voltou às quartas em Wimbledon após bater o cazaque Alexander Bublik em sets diretos e aguarda quem passar entre o alemão Alexander Zverev e o tcheco Jiri Lehecka. Se avançar, pode cruzar com Fery numa eventual semifinal, e não se arrisca a subestimá-lo.
"Eu sei o bastante sobre o Arthur. Treinei com ele em Londres antes do ATP Finals de 2024 e ele sempre vencia", confidenciou o norte-americano. Fritz elogiou o jogo do britânico sem economia. "Ele já estava jogando bem naquela época e ganhando sets e games jogando do fundo. Pensei: 'esse cara é muito bom, sabe jogar mesmo'. Ele tem uma direita muito boa para o tamanho dele e um saque inacreditável", destacou.
Embora nunca tenham se enfrentado no circuito profissional, o americano garantiu não se surpreender com o que vê. "Não me surpreende em nada que ele esteja conseguindo resultados expressivos. Eu já sabia desde a época em que treinamos como Arthur podia jogar em alto nível", prosseguiu.
Próximos compromissos
Fery volta à quadra nesta quarta-feira (8 de julho) contra o italiano Flavio Cobolli, nono cabeça de chave e finalista de Roland Garros, que despachou o australiano Alex de Minaur por 7/5, 7/6 (4) e 6/3. Os dois já se cruzaram uma vez, no Aberto da Austrália deste ano, com vitória do britânico em sets diretos. A torcida de Wimbledon, que não tinha um inglês nas quartas desde Norrie, agora tem motivo para sonhar mais alto. Nesta edição, a grande história tem sotaque da casa.
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