Ferymania
- há 23 horas
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Arthur Fery não dá sinais de querer acordar. Nesta quarta-feira, o britânico de 23 anos, convidado da organização e apenas o 114º do mundo, derrotou o italiano Flavio Cobolli, cabeça de chave número 9, por 6/4, 7/6 (7-4) e 6/0, na Quadra Central, e carimbou vaga em uma semifinal inédita de Wimbledon.
É a última esperança da torcida da casa. E que esperança. Fery se tornou o tenista de ranking mais baixo a alcançar uma semifinal de simples masculino no All England Club desde 2001, quando Goran Ivanisevic, então 125º, terminou campeão. Na conta dos últimos 40 anos, só Vladimir Voltchkov (237º, em 2000) havia cruzado essa fronteira vindo de tão longe no ranking. Fery é apenas o terceiro tenista fora do top 100 a fazê-lo em quatro décadas.
A lista britânica é ainda mais seleta. Em Wimbledon, ele é o quinto homem do país a chegar às semifinais na Era Aberta, ao lado de Andy Murray (sete vezes), Tim Henman (quatro), Roger Taylor (duas) e Cameron Norrie (uma), e o primeiro sem ser cabeça de chave, homem ou mulher, a conseguir o feito no torneio, segundo a ESPN. Considerando os quatro Grand Slams, é o nono britânico da Era Aberta a alcançar uma semifinal de simples. Como convidado, entra num clube minúsculo: apenas o quarto homem a chegar a uma semi de major vindo de um wild card, depois de Jimmy Connors (US Open 1991), Henri Leconte (Roland Garros 1992) e do próprio Ivanisevic (Wimbledon 2001). Em Londres, é o segundo.
"Naquele último game, senti emoções que eu nunca havia experimentado na vida", disse o britânico à ESPN, depois de fechar o jogo com um ace e se jogar de costas no chão para ouvir a Central. Na entrevista em quadra, resumiu o estado de espírito: "Parece que fica melhor e melhor a cada partida. Eu simplesmente não acredito", afirmou à ATP.
Firme do primeiro game ao pneu
Em seu primeiro jogo na Quadra Central, Fery não se intimidou com o palco nem com o rival, vice-campeão de Roland Garros havia poucas semanas. Jogou firme, aproveitou o pouco que teve nos dois primeiros sets e, no terceiro, deslanchou.
No set inicial, segurou o único break-point que enfrentou, no sétimo game, e esperou a hora certa. Ela veio no 12º, quando quebrou o saque de Cobolli para abrir 1 a 0. O segundo set repetiu o roteiro do detalhe: o italiano chegou a fazer 2/0, viu o britânico devolver a quebra na sequência e, sem novas chances de quebra, a parcial foi ao tiebreak. Ali Fery cresceu no momento importante.
O terceiro set foi de mão única. Cobolli despencou (10 erros não forçados, apenas 3 winners e 38% de aproveitamento no saque) e não venceu mais nenhum game. Um pneu para fechar a maior vitória por ranking da carreira de Fery, em apenas o segundo confronto dele contra um top 10. Até aqui, seus melhores triunfos haviam sido sobre Alexei Popyrin (Wimbledon 2025) e o próprio Cobolli (Australian Open 2026), ambos 22º nas ocasiões.
De fora do top 100 ao top 50, e a ameaça a Fonseca
A recompensa no ranking é tão vertiginosa quanto a campanha. Com os 750 pontos somados nas duas últimas semanas, Fery, que nunca havia sequer entrado no top 100, salta 78 posições e aparece provisoriamente em 36º na ATP ao vivo. E pode subir mais.
Aqui entra o ângulo brasileiro. No caminho está João Fonseca. O carioca ocupa a 27ª posição, e Fery o ultrapassa caso vença Alexander Zverev na semifinal, chegando a 26º. Uma vaga na final o levaria ainda mais alto. E um título, por mais improvável que seja, o colocaria em 13º, estreando no top 20 a 868 pontos do top 10.
Zverev pela frente
O adversário na sexta-feira é justamente Zverev, número 3 do mundo e campeão de Roland Garros. O alemão chega embalado: encerrou uma série de sete derrotas para Taylor Fritz ao vencer por 6/4, 6/4 e 6/2 e disputa sua primeira semifinal em Wimbledon, a 12ª de Grand Slam na carreira. Com uma vaga na final, ele assume o posto de número 2, hoje de Carlos Alcaraz, que defendia o vice de 2025 e desfalcou o torneio por lesão.
Fery e Zverev nunca se enfrentaram no circuito profissional. Sobre o duelo inédito, o britânico não escondeu a leveza de quem não tem nada a perder: "Vai ser uma primeira vez e a gente resolve conforme o jogo anda. Vou seguir em frente. Fiz um ótimo trabalho nos últimos dez dias, é só continuar fazendo o mesmo para ver aonde isso me leva", afirmou à ATP.
Criado praticamente dentro do bairro, Fery mora a cerca de um quilômetro e meio do All England Club e foi duas vezes All-American por Stanford antes de virar profissional. O caminho até a Central foi longo. A parte curta, a que a torcida vai lembrar, começou há dez dias e ainda não acabou.
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