Guardado na História
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Foram só 1h15 de partida, mas o suficiente para reescrever uma linha que estava em aberto desde 1959. Neste sábado, na quadra Simonne Mathieu, o goiano Luis "Guto" Miguel bateu o norte-americano Michael Antonius por 6/3 e 6/4 e se tornou o primeiro brasileiro campeão de simples no juvenil de Roland Garros. Cabeça de chave número 1, o tenista de 17 anos confirmou o favoritismo sem deixar dúvida sobre quem mandava no jogo.
O título tem peso duplo. Além do troféu inédito, Guto assume na próxima segunda-feira a liderança do ranking mundial juvenil da ITF, posição que, na prática, já estava assegurada desde a vitória na semifinal sobre o mato-grossense Leonardo Storck, na sexta. Entra assim em um grupo curto de brasileiros que chegaram ao topo da categoria, ao lado de Tiago Fernandes (2010), Orlando Luz (2015) e João Fonseca (2023).
Campeão, ele não se deixou levar pela ocasião.
"É um sentimento de alívio e também de muita gratidão por tudo o que Deus tem feito na minha vida. Existe muito trabalho duro por trás disso, de toda a minha equipe e de todos que me acompanham há bastante tempo. Estamos colhendo alguns frutos agora, mas sei que ainda é apenas o começo", celebrou o brasileiro.
Em entrevista à ESPN, dedicou a conquista ao treinador. "Quero dedicar o título ao meu treinador [Kike Grangeiro], que perdeu seu irmão recentemente", disse. E fez questão de manter os pés no chão: "Sei que é um torneio juvenil, sei que é o número 1 do mundo juvenil, mas ainda existe muito pela frente na minha carreira profissional.
O peso histórico do troféu
O Brasil já havia batido na trave quatro vezes no juvenil de simples de Roland Garros, sempre na era amadora do tênis: Edison Mandarino (1959), Thomaz Koch (1962 e 1963) e Luis Felipe Tavares (1967) foram finalistas, mas voltaram com o vice. Guto é o quinto a chegar à decisão e o primeiro a levantar a taça.
Considerando todos os Grand Slams, ele se torna apenas o quarto brasileiro a vencer um major juvenil de simples, repetindo o feito de Fernandes (Australian Open de 2010), do paranaense Thiago Wild (US Open de 2018) e de Fonseca (US Open de 2023). O último título juvenil de um brasileiro em Slam, aliás, foi justamente o de Fonseca, há menos de três anos.
Sétimo título e um pé no profissional
Pupilo dos técnicos Santos Dumont Guimarães e Kike Grangeiro, do Time Rede Tênis, no Distrito Federal, Guto soma agora sete títulos na faixa dos 18 anos. Faturou neste ano o J300 de Traralgon, na Austrália, e os demais em 2025, sendo o de maior quilate até aqui o J500 de Mérida, no México. Sua marca em oito Grand Slams juvenis disputados sobe para 17 vitórias em 25 jogos, com 95 triunfos no total, segundo a ITF. No ano passado, alcançou a semifinal do US Open e, em janeiro, fez quartas em Melbourne. No saibro de Paris, vinha de uma vitória em 2024 e queda na estreia em 2025.
A transição para o circuito principal já começou, e bem antes do previsto. Guto entrou em 2026 como 1.586º da ATP e hoje é o 829º, salto de mais de 750 posições. Convidado da organização, estreou no profissional no Rio Open, perdendo para o lituano Vilius Gaubas, e já passou pelo qualifying de Miami. Misturou os calendários ao longo do ano: foram sete torneios profissionais, com semifinal no challenger de Santos e quartas no M25 de Reggio Emilia.
Domínio do começo ao fim
Antonius, de 16 anos, tem até ranking profissional ligeiramente melhor (784º contra 829º), mas em quadra a diferença não apareceu. Guto ditou o ritmo o jogo inteiro, mesclando trocas pesadas da base com toques sutis e boas transições à rede. Quebrou o saque do americano no quinto game do primeiro set e fechou a parcial em 6/3, sem conceder um único break-point.
A única hesitação veio na hora de servir para o jogo. Ansioso, errou, permitiu a reação de Antonius e viu o placar diminuir para 5/4. O game seguinte foi de nervos: o americano salvou match-point e ainda teve chance de empatar. Guto controlou a respiração, acertou uma paralela com a ajuda da fita e esperou o erro final do rival para se atirar ao saibro. Mesmo com apenas 56% de primeiros saques na soma dos sets, ganhou 78% desses pontos e foi muito superior nas bolas de definição: 28 winners a 5, além de 10 pontos vencidos em 12 idas à rede.
Não foi só o Guto
A conquista coroa a que a Confederação Brasileira de Tênis classificou como uma das participações mais marcantes da história do país em um Grand Slam, e a leitura não é exagero. Na chave principal, João Fonseca chegou às quartas, algo que nenhum brasileiro fazia havia 22 anos, eliminando no caminho Novak Djokovic e Casper Ruud. Luisa Stefani foi à semifinal das duplas femininas ao lado da canadense Gabriela Dabrowski. Victoria Barros e Leonardo Storck alcançaram a semi do juvenil. Marcelo Demoliner, nas duplas masculinas, e Daniel Rodrigues, no tênis em cadeira de rodas, pararam nas quartas.
Para o presidente da CBT, Alexandre Farias, os números falam de algo maior que resultados isolados. "Os resultados que vimos em Roland Garros representaram um momento muito especial para o tênis brasileiro. Ver atletas brasileiros alcançando fases decisivas no profissional, no infantojuvenil e no tênis em cadeira de rodas demonstra que estamos colhendo os frutos de um trabalho construído por muitas mãos ao longo dos últimos anos", afirmou.
Ele creditou os avanços à estrutura de base. "A Confederação Brasileira de Tênis tem procurado ampliar investimentos na base, fortalecer o calendário nacional, criar oportunidades internacionais e trabalhar em parceria com federações, clubes, treinadores e patrocinadores. Quando vemos atletas e nossa arbitragem se destacando simultaneamente em diferentes categorias, temos a confirmação de que estamos no caminho certo."
A arbitragem também subiu ao palco
O destaque brasileiro não ficou só nas quadras. O país teve quatro árbitros de cadeira em Paris: Paula Capulo Vieira Souza, Aline Rocha, Ana Carvalho e Tiago Sturmer. O ponto alto foi Paula Souza, designada para a final de duplas mistas e, com isso, a primeira árbitra latino-americana a comandar uma decisão em Roland Garros.
"Pela primeira vez, o Brasil contou com três árbitras femininas e um árbitro masculino atuando como árbitros de cadeira na competição, demonstrando também a evolução e o reconhecimento internacional da arbitragem brasileira. O destaque especial fica para Paula Souza, que alcançou um dos momentos mais importantes de sua carreira ao ser designada para comandar a final de duplas mistas, uma das partidas mais relevantes do torneio", completou Farias.
Para o dirigente, o saldo aponta para a frente. "O mais importante é perceber que o Brasil volta a ser competitivo em todas as frentes. Estamos formando atletas para o presente e para o futuro. Roland Garros 2026 já entra para a história como uma das participações mais marcantes do tênis brasileiro e nos dá ainda mais motivação para continuar investindo no crescimento da modalidade em todo o país."
O que vem a seguir
Aos 17 anos, Guto Miguel chega ao teto do juvenil com mais tempo de categoria pela frente, mas a transição para o profissional já está em curso, e acelerada. O número 1 do mundo juvenil será oficializado pela ITF nesta segunda-feira. O resto, como ele mesmo avisou, ainda está por acontecer.
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