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Histórias do Tênis: o "Inferno de Assunção", a Davis de 1985 que terminou com a polícia dentro da quadra

7 de ago.
7 min de leitura
Tenista caído de bruços na quadra, segurando a raquete, diante de placa verde com NEC.
Yannick Noah sucumbe após derrota diante do Paraguai (Pobeda/L'Équipe)

Entre 8 e 10 de março de 1985, no ginásio do Consejo Nacional de Deportes, em Assunção, o Paraguai venceu a França por 3 a 2 na primeira rodada do Grupo Mundial da Copa Davis, sobre um piso de parquet de madeira envernizado, com Víctor Pecci batendo Yannick Noah por 6/8, 15/13, 2/6, 8/6 e 10/8 no jogo de abertura e fechando a série contra Henri Leconte no domingo por 6/3, 6/4, 3/6 e 7/5.


Entre um placar e outro cabem torcedores com tacos de beisebol, um comentarista de televisão nocauteado e reanimado sobre a maca do fisioterapeuta, a polícia paraguaia entrando na quadra de cassetete para separar jogadores e público, e uma reclamação formal à ITF que morreu na madrugada seguinte por causa de uma foto tirada numa boate.

A imprensa francesa batizou o fim de semana de "Inferno de Assunção". O nome pegou. E, ao contrário do que costuma acontecer com apelidos assim, ele é literal.



A ideia nasceu numa tarde de chuva em Queen's

O plano tinha seis anos de idade. Em 1979, Pecci perdeu a final de Queen's para John McEnroe e reparou num detalhe administrativo: quando chovia em Londres, os jogos mudavam para quadras cobertas de parquet. Guardou.


Quando o Paraguai subiu ao Grupo Mundial e pegou a Tchecoslováquia de Ivan Lendl na estreia, em 1983, o detalhe virou projeto nacional. Saibro entregaria a série aos europeus. Madeira, não. "Com o parquet, a série se emparelhou", resumiu Pecci ao Infobae. Em 1982, na Zona Americana, os paraguaios já haviam testado o piso contra Equador e Peru, mas com um carpete por cima. Contra Lendl, tiraram o carpete. Lendl caiu.


Francisco González, nascido numa base militar americana na Alemanha, formado no tênis universitário dos Estados Unidos, porto-riquenho de origem e paraguaio por convite pessoal de Pecci, foi mais franco sobre o preparo da quadra em 1985, na mesma reportagem: eles pegaram o piso, "pintamos e polimos para que ficasse ainda mais rápida". O quique, disse ele, era baixíssimo. Nada disso era irregular. Era artifício.


O detalhe que quase ninguém registra: González não era um coadjuvante folclórico. Em agosto de 1980, ele havia batido Jimmy Connors, então número 3 do mundo, na semifinal de Cincinnati.


O ginásio, os tacos de beisebol e os copos amassados

A série não foi disputada num estádio de futebol com madeira sobre o gramado, como circula em algumas versões. Foi num ginásio coberto de cerca de cinco mil lugares, o do Consejo Nacional de Deportes, hoje SND Arena, registrado nos arquivos da competição como Estadio Hugo Stroessner. Décadas depois, já ministro dos Esportes do Paraguai no governo de Horacio Cartes, Pecci enxergaria o mesmo ginásio da janela do seu gabinete.


Não havia ar-condicionado. Por isso os jogos começavam no fim da tarde e terminavam de madrugada. O público, entre 3.000 e 3.500 pessoas conforme fontes da época, ficava colado na quadra, com espectadores sentados atrás dos juízes de linha laterais. Os juízes de linha eram locais.


O capitão francês Jean-Paul Loth voltou ao assunto 25 anos depois, em entrevista ao site We Love Tennis, e não escolheu palavras diplomáticas. "No Paraguai, eu tive medo", disse. Segundo ele, havia gente sentada ao lado do banco francês com tacos de beisebol sobre os joelhos, e o comentarista Hervé Duthu, da TF1, foi derrubado por um soco enquanto atravessava a quadra rumo ao vestiário. Levou mais de cinco minutos até ser reanimado.


Guy Forget, reserva naquele fim de semana, descreveu a chegada ao ginásio em declaração ao jornal La Dépêche: era como sair de um ambiente zen para comer sushi e cair numa cervejaria alemã "com um barulho do diabo". Ao mesmo jornal, contou que a torcida local amassava copos de plástico toda vez que Noah ou Leconte iam sacar.


Cinco horas. Ou seis. Ninguém combinou o número

Sem tie-break em nenhum set, como mandava o regulamento da Copa Davis daquela época, o jogo de abertura virou obra de resistência. Dois sacadores pesados, trocas curtas, nenhum break fácil. Só o segundo set teve 28 games. Noah venceu o primeiro por 8/6, perdeu o segundo por 15/13, abriu o terceiro em 6/2 e depois viu a partida escapar. Ele teve match point no quinto set. Pecci salvou com um ace.


A duração é o único dado em que ninguém se entende. Os relatos franceses falam em 5h07. O ABC Color, de Assunção, registra cinco horas. O Infobae, seis. O próprio Pecci, ao contar a história à La Nación paraguaia, diz sem hesitar: "Jogamos seis horas com Noah". Quando o protagonista e o cronômetro discordam, o jornalismo honesto apresenta os dois.


A madrugada de Leconte e a virada de sábado

Leconte entrou para o segundo jogo por volta da meia-noite, contra González. Abriu 2 sets a 1 e perdeu: 4/6, 6/3, 3/6, 6/3 e 6/4 para o paraguaio. Foi dormir às 5h30 da manhã. O Paraguai liderava 2 a 0.


No sábado veio a única boa notícia francesa. Campeões de duplas em Roland Garros no ano anterior, Noah e Leconte perderam o primeiro set por 6/2, o segundo por 3/6, o terceiro por 8/6, e ainda assim viraram: 6/2, 3/6, 6/8, 7/5 e 6/3. No domingo, Noah igualou tudo ao bater González por 3/6, 6/3, 17/15 e 6/4. Trinta e dois games num set. O francês salvou a série no fio.


Sobrava Pecci contra Leconte. E é aqui que a partida deixa de ser sobre tênis.


O juiz de linha, a polícia e o quinto jogo

Com Leconte perdendo por 6/3 e 1/1 no segundo set do jogo decisivo, Noah e o capitão Loth entraram na quadra e foram tirar satisfação com um juiz de linha, Roberto Velázquez, acusado pelos franceses de fazer barulho toda vez que Leconte ia sacar.


O despacho da Associated Press daquele dia, reproduzido no livro On This Day In Tennis History, do jornalista americano Randy Walker, descreve o que veio depois: boa parte dos mais de 3.000 espectadores desceu das arquibancadas na direção dos franceses, e policiais com cassetetes entraram na quadra golpeando, segundo testemunhas, tanto os jogadores franceses quanto os torcedores, até restabelecer a ordem.


Noah negou à AP ter batido no juiz de linha. Contou que o problema com a arbitragem e com o público durou a série inteira e explicou a origem da confusão: "Um dos juízes de linha fazia barulho toda vez que Henri ia sacar." Segundo ele, o homem não era um espectador qualquer: dois anos antes, quando França e Paraguai já haviam se enfrentado na Davis, ele era jogador.


Os organizadores ameaçaram suspender a série. A partida recomeçou. Leconte venceu o terceiro set, salvou três match points no quarto e perdeu no quarto, num passing shot. Pecci fechou em 7/5, quase sem pernas.



O que veio depois Noah também descreveu à AP: torcedores pularam em cima da equipe e um integrante da imprensa francesa foi nocauteado e levado ao hospital. Leconte resumiu a saída de quadra numa frase que a imprensa francesa repete até hoje: "Saíamos da quadra nos protegendo com as raquetes para não sermos massacrados." Segundo Noah, a delegação deixou o ginásio escoltada pela polícia.


A noite na boate que enterrou a reclamação

Loth queria protocolar reclamação formal e enviar um relatório à Federação Internacional. Tinha material de sobra: arbitragem local, invasão, agressão a um jornalista, polícia batendo em jogadores dentro da quadra.


Na mesma noite da derrota, fotógrafos flagraram Pecci, González, Leconte e Noah juntos numa boate, todos sorrindo. A reclamação morreu ali. É o tipo de detalhe que nenhum relatório oficial registra e que explica mais sobre a Copa Davis dos anos 80 do que qualquer súmula: no dia seguinte à guerra, os quatro estavam na mesma pista de dança.


O que a ITF fez com o parquet

A punição chegou por outra porta. Philippe Chatrier, presidente da ITF e francês, acompanhou a série de dentro do ginásio. Pecci sustenta que houve ainda uma gafe da dirigência paraguaia: em vez de acomodar Chatrier no camarote oficial, colocaram-no em outro.


Pouco depois, a Federação Internacional proibiu o uso de quadras de parquet na Copa Davis, com o argumento de que a superfície não era usada no circuito. A imprensa paraguaia foi menos protocolar na leitura: a Última Hora registra que a proibição veio a pedido das potências, que sentiam terror da pista extremamente veloz. Pecci nunca teve dúvida sobre a natureza do incômodo. Ao Infobae, lembrou que o Paraguai tinha três milhões de habitantes, não somava nada em termos de marketing, e que depois de derrubar Tchecoslováquia e França havia irritação evidente.


Assunção 1985 foi a última função do parquet. A quadra que fez o Paraguai grande foi proibida justamente por ter funcionado.


As contas de 1985

O Paraguai foi às quartas pela terceira vez consecutiva, não pela primeira, como às vezes se repete. Já tinha chegado lá em 1983, ao eliminar Lendl, e em 1984, ao vencer a Nova Zelândia na grama. Chegaria de novo em 1987, derrubando os Estados Unidos no saibro do Yacht & Golf Club. Em Sydney, na grama australiana, perdeu por 3 a 2 depois de liderar por 2 a 1.


A França pagou mais caro. Foi ao playoff de permanência em Belgrado e perdeu por 4 a 1 para a Iugoslávia, com Noah derrotado nos dois jogos de simples. Caiu do Grupo Mundial e passou 1986 na segunda divisão.


Houve uma vingança pequena e privada. Ainda em 1985, no saibro de Nice, Leconte bateu Pecci por 6/4 e 6/4 na final, o primeiro título dele na temporada. Sem tacos de beisebol na arquibancada, a conta ficou diferente.


E houve o epílogo grande. Seis anos depois, Noah era o capitão que devolveu a Copa Davis à França após 59 anos, com Leconte e Forget em quadra na final. Os três estavam em Assunção em 1985. Dois deles quase apanharam ali.


O eco brasileiro, quarenta e um anos depois

Em 1985, enquanto o Paraguai desmontava a França no Grupo Mundial, o Brasil estava na Zona Americana, escalado para enfrentar a Venezuela na segunda rodada. A distância entre os dois programas era essa.


Pecci, aliás, tem passaporte carimbado no tênis brasileiro: foi campeão do Banana Bowl como juvenil, antes de vencer o juvenil de Roland Garros em 1973 e de chegar à final do torneio adulto em 1979.


O eco mais direto, porém, é de agora. Nos dias 18 e 19 de setembro, o Brasil recebe a Suíça pelo Grupo Mundial I na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, e a CBT rompeu com décadas de automatismo ao escolher quadra dura coberta em vez de saibro. "Pela primeira vez em muito tempo, tomamos uma decisão que foge do tradicional", disse o capitão Jaime Oncins, que citou o novo perfil dos jogadores brasileiros e a adaptação recente fora de casa.


É exatamente o raciocínio que Pecci fez em 1983 e repetiu em 1985: escolher o piso que machuca o adversário, não o que agrada a tradição. O mandante tem esse direito desde que a Copa Davis existe. Assunção só levou o princípio ao limite físico, e depois ao limite policial. Foi punida pelo primeiro. Nunca pelo segundo.



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