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Hugo Calderano é capa da GQ Brasil e revisita o pior momento da carreira

há 12 minutos
8 min de leitura
(Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil)
(Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil)

Hugo Calderano trocou a mesa pelo estúdio e estampa a capa da edição de outubro da GQ Brasil. Na entrevista, o carioca de 30 anos volta ao dia em que terminou sentado no chão, chorando, em Paris.


As fotos são de Pedro Dimitrow, com styling de Neel Ciconello, e a reportagem é assinada por Paula Rodrigues Trindade. A edição, que também traz o apresentador Pedro Bial, já está nas bancas e na plataforma digital Globo Mais. Calderano chega a ela como sétimo do ranking mundial, oito meses depois de ter alcançado o segundo lugar, em 9 de fevereiro. Nenhum jogador de fora da Ásia e da Europa tinha chegado tão alto.


O ponto de virada da conversa é a disputa do bronze nos Jogos de 2024, perdida para o francês Félix Lebrun. Calderano tinha chances reais de se tornar o primeiro medalhista olímpico das Américas na modalidade. Ficou em quarto, ainda assim a melhor campanha de um brasileiro na história do tênis de mesa olímpico.


"Foi o momento mais desafiador da minha carreira, até da minha vida, mas nunca cheguei a pensar em parar. O atleta precisa estar ciente de que toda essa preparação não é garantia de nada. Os que conseguem resultados extraordinários são aqueles com coragem de pôr tudo na mesa. O resultado é consequência. Se eu não tivesse feito tudo o que podia para me dar as maiores chances de conseguir o meu objetivo, aí sim ficaria mais difícil de me perdoar", afirmou Calderano à GQ.

De Paris à taça em Macau

A derrota mudou o discurso. Em coletiva em abril de 2025, ele disse que o tênis de mesa seguia como prioridade, mas que queria curtir um pouco mais e tratar o esporte de outro jeito, para que não fosse "sacrifício total".


A resposta dentro da mesa veio menos de nove meses depois de Paris. Na Copa do Mundo de abril de 2025, em Macau, Calderano tirou do caminho o segundo e o terceiro colocados do ranking naquele momento, o chinês Wang Chuqin e o japonês Tomokazu Harimoto, segundo a Agência Brasil. Na final, saiu atrás e virou sobre o chinês Lin Shidong, então líder do ranking, por 4 sets a 1. Foi o primeiro atleta de fora da Ásia e da Europa a vencer a competição. Até hoje, é o maior título da carreira.


"Naquele momento senti uma felicidade pura. Senti que tudo tinha valido a pena. Isso me mostrou que eu ainda podia mais, o que não era nem esperado. Não estava na minha melhor forma, não me sentia tão bem quanto antes das Olimpíadas de Paris, por exemplo", contou.

Foi o ponto de partida do que muita gente considera o melhor ano da carreira dele: cinco títulos em 2025. Em 2026, já são dois no individual. Em fevereiro, a ITTF Americas Cup. Em julho, o tricampeonato consecutivo da etapa brasileira do WTT, com vitória por 4 sets a 3 sobre o francês Alexis Lebrun em São José dos Campos, depois das conquistas no Rio, em 2024, e em Foz do Iguaçu, em 2025. Na Copa do Mundo deste ano, também em Macau, levou o bronze.


"A evolução não é linear. Tênis de mesa não é um esporte de performance em que você pode avaliar seus números, ver se está correndo ou nadando mais rápido. Então, vale cultivar essa mentalidade de não se frustrar e confiar no processo para continuar em evolução constante", disse.

Guilherme Costa, especialista em esportes olímpicos do sportv, foi direto numa análise publicada no ge: "Hugo Calderano é o grande nome do esporte brasileiro no pós-Paris 2024".


O efeito Calderano

A GQ compara o fenômeno ao que aconteceu com o surfe. Um ano antes de Gabriel Medina virar o primeiro campeão mundial do país, em 2014, 26% dos brasileiros se diziam conectados à modalidade, segundo o Ibope Repucom. Em novembro de 2021, com Medina já tricampeão e a Brazilian Storm no auge, o índice bateu recorde: 41%.


No tênis de mesa, o fenômeno tem nome e sobrenome. Em agosto de 2025, a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) registrou recorde de filiados, com mais de 3 mil novos registros em apenas quatro meses. Hoje são 12.803 atletas, 504 técnicos e 718 árbitros ativos.


"Essa onda ajuda muito, especialmente na motivação da nossa comunidade e no resgate daqueles praticantes de infância que estão, na vida adulta, buscando uma atividade com a qual se identifiquem. Hoje, vemos nos eventos que organizamos um ânimo maior do público e uma visão clara de que é possível chegar lá, com esforço, treino e dedicação", afirmou Geraldo Campestrini, diretor da CBTM.


O carinho também aparece nas urnas. Calderano foi o primeiro mesa-tenista a vencer a votação popular de Atleta da Torcida no Prêmio Brasil Olímpico, em 2019, e repetiu a dose em 2023. Nas redes, saltou de 480 mil para 1 milhão de seguidores durante os Jogos de 2024. Hoje são 1,4 milhão.


"Um dos meus grandes objetivos era ajudar a popularizar o tênis de mesa no Brasil. Quero ver várias crianças praticando. O esporte ensina, o esporte educa, independentemente de você querer virar um atleta profissional ou não", disse.


O projeto tem endereço. Em 2023, ele desenvolveu uma metodologia baseada no próprio sistema de treino para academias, escolas e centros de treinamento pelo país. Em dezembro de 2025, inaugurou o Calderano TM, em Botafogo, no Rio, onde treina quando está no Brasil. Os princípios cabem numa linha: disciplina, criatividade e diversão.


Paco, o avô e São Caetano

Por volta dos 14 anos, Calderano deixou a capital fluminense rumo a São Caetano do Sul, em São Paulo, onde a estrutura era melhor para quem sonhava com o profissionalismo. Foi com o avô ("Minha avó deixou ele ir", conta, rindo), que durante dois anos funcionou como "uma espécie de motorista, torcedor, acompanhante".


Foi nessa época, entre os primeiros treinos e torneios na Europa, que conheceu Francisco Arado, o Paco, que trabalhava com as categorias de base em São Caetano. A primeira impressão não foi de gênio. "No começo, por minha falta de experiência e conhecimento de seu alto nível, eu o via somente como um bom jogador", lembrou o técnico.


Paco comandou a seleção brasileira masculina entre 2017 e 2024 e deixou o cargo depois de Paris. No ano seguinte, foi convidado pelo próprio Calderano para assumir seus treinos. Hoje, o define como um gênio. "O poder de entender os efeitos, as trajetórias da bola... Mas, principalmente, entender o jogo mental, o momento certo de fazer as coisas, de se recuperar de períodos ruins e achar soluções para vencer. Ele tem a capacidade e o prazer de aprender coisas novas em várias áreas, não somente no tênis de mesa", elogiou.


Os dois concordam sobre outro traço: a confiança nas próprias armas. "Sempre foquei bastante nos meus pontos fortes, para tentar transformá-los em pontos excepcionais. Para mim, esse jeito sempre funcionou mais. Claro, você também melhora seus pontos fracos quando treina muitas horas por dia, porém exploro a parte positiva. Isso até me dá mais prazer de treinar. Nunca busquei a perfeição", explicou Calderano.


Seis horas por dia e um cubo mágico

A rotina muda conforme o calendário, mas o padrão é de três horas de treino pela manhã e mais três à tarde, além do fortalecimento de pernas e core para aguentar a velocidade, a explosão e a repetição que o esporte cobra.


Fora da mesa, o currículo é menos previsível. Calderano resolve o cubo mágico em segundos, inclusive debaixo d'água, joga xadrez, fala seis idiomas além do português (inglês, espanhol, alemão, francês, italiano e mandarim) e já apareceu nas redes tocando ukulele e violão.


"Gosto de me desafiar, de não ficar preso numa coisa só. O esporte de alto nível é bem repetitivo. Acho importante abrir outros horizontes. Não deixa também de servir como um descanso para a mente, por mudar um pouco o foco", afirmou.


A dupla com Bruna Takahashi

Bruna e Hugo (Foto: WTT)
Bruna e Hugo (Foto: WTT)

Desde 2024, Calderano também divide a mesa com Bruna Takahashi, 26 anos, 27ª do ranking e melhor brasileira no feminino. O namoro se tornou público em fevereiro daquele ano, mas o casal mantém a relação longe dos holofotes.


"Nas partidas, a gente consegue ver tudo aquilo que funciona ou não; aos poucos, vamos nos entrosando, encaixando o jogo cada vez mais. Quando treinamos em dupla, sinto que posso inserir algumas coisas do meu treinamento individual e vice-versa. Um pode ajudar o outro tanto na dupla quanto no individual. É uma parceria que acredito ter grande potencial para brigar por medalhas", disse.


O potencial já virou resultado. Em fevereiro, os dois venceram o Singapura Smash, primeiro Grand Smash conquistado por uma dupla que não era chinesa, e terminaram a final num abraço apertado. Em julho, chegaram ao segundo lugar do ranking mundial de duplas mistas, marca inédita para o Brasil.


"É fantástico poder dividir esses momentos com a pessoa que compartilha a vida com você, mas também é desafiador, né? Queremos ganhar, queremos o melhor para a dupla. Então, há uma certa cobrança. Ao mesmo tempo, precisamos botar tudo em pausa e pensar igualmente no pessoal. Devemos saber separar as coisas e entender que tudo o que falamos ali no jogo fica ali, que é só para o bem da dupla. E não levar para o lado pessoal. Acho que estamos conseguindo fazer isso muito bem", afirmou.


Bruna Takahashi e o tamanho do momento

Do outro lado da mesa nas duplas mistas, Bruna Takahashi também tem falado sobre a fase da modalidade. Em entrevista à CBTM, ela apontou a exposição como a maior mudança desde que começou: o esporte era bem menos conhecido e acompanhado no país.


Para ela, a virada de patamar veio entre 2024 e 2025. "Conseguir vencer a Miwa [Harimoto], ver o Hugo fazendo história em Mundiais e na Copa do Mundo... foram resultados que mostraram muita coisa", disse.


O título em Singapura, segundo Bruna, pesou além da taça. "Representou muito mais do que um título. Mostrou do que somos capazes e que podemos estar no topo também nas grandes competições, contra as melhores duplas do mundo", afirmou. Ela também tratou de baixar a bola: "não é porque ganhamos uma vez que vamos ganhar todas". E o circuito já reagiu. "Os adversários estudam e analisam mais, conhecem melhor o seu jogo e sabem que não podem entrar na partida pensando que vai ser fácil."


Bruna sentiu essa mudança de público na arena cheia de São José dos Campos, onde Calderano conquistou o tri da etapa brasileira, e na repercussão nas redes. Para ela, é sinal de que o tênis de mesa começa a sair do nicho. O diagnóstico geral cabe numa frase: "Eu acho que estamos vivendo o melhor momento da nossa história, mas, ao mesmo tempo, acho que ainda é só o começo."


Sobre Los Angeles 2028, a medalha deixou de ser sonho distante, mas sem euforia. "É um objetivo, sim. Mas eu sempre fui de ir passo a passo, sem criar expectativas demais para não colocar uma pressão desnecessária", disse.


A semana em Pequim e o que vem pela frente

(Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil)
(Foto: Pedro Dimitrow/GQ Brasil)

A revista chegou às bancas logo depois de uma semana que resume bem o momento. Calderano encerrou o China Smash, em Pequim, entre os quatro melhores. Passou por Dimitrij Ovtcharov, An Jaehyun e Patrick Franziska sem perder set e, nas quartas, reencontrou Félix Lebrun, número 2 do mundo e o mesmo adversário que o tirou do pódio em Paris. O francês abriu o confronto com 11/9, mas o brasileiro reagiu de imediato e venceu as quatro parciais seguintes (11/9, 12/10, 12/10 e 11/9). Fechou em 4 sets a 1 e interrompeu uma série de três vitórias seguidas do rival. Na semifinal, no domingo (11), o duelo com Lin Yun-Ju, de Chinese Taipei, foi até o sétimo set. Calderano chegou a abrir 2 a 0, mas acabou superado por 4 a 3. Duas semanas antes, tinha sido vice no WTT Champions de Macau, derrotado pelo sueco Truls Möregårdh.


O calendário não dá trégua: são mais de vinte competições importantes por ano, e é nelas que se somam os pontos do ranking. Pelo calendário da WTT, a temporada segue com o WTT Champions de Montpellier (27 de outubro a 1º de novembro), o WTT Champions na Alemanha (3 a 8 de novembro) e o WTT Finals, em Hong Kong (8 a 13 de dezembro). Depois, o horizonte é Los Angeles, a dois anos de distância.


"Para mim é muito importante tentar desfrutar ao máximo meus anos de atleta. Espero que ainda sejam muitos. Quero viver o máximo de boas experiências ao lado de pessoas de quem eu gosto", finalizou Calderano.


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