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Kei Nishikori anuncia aposentadoria: o fim de uma era que o Japão jamais esquecerá

  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Kei Nishikori anunciou nesta quinta-feira, por meio de suas redes sociais, que vai encerrar a carreira ao fim da temporada. Tem 36 anos, ocupa o 464º lugar no ranking e disputa um Challenger no Japão, no momento que comunica ao mundo o que, no fundo, o circuito já antecipava há algum tempo.



"Hoje, tenho um anúncio. Decidi me aposentar do tênis profissional ao final desta temporada", escreveu o japonês, em mensagem que correu o mundo rapidamente.

A sentença foi curta. O peso, enorme.



O que ele foi

Há uma forma de medir Nishikori em números: 12 títulos, 451 vitórias, ex-número 4 do mundo. Há outra forma, mais simbólica: ele foi o primeiro tenista asiático a disputar uma final de Grand Slam na Era Aberta e o primeiro aparecer no top 10. O primeiro asiático a se classificar para o ATP Finals, torneio que disputou quatro vezes e onde foi semifinalista em duas oportunidades. Antes dele, a Ásia assistia ao tênis masculino de fora. Depois dele, não deu mais para olhar o continente da mesma forma. Nishikori foi o primeiro diversas vezes.


O ápice veio em setembro de 2014, numa noite que o tênis não esquece facilmente. No US Open, Nishikori derrubou o então número 1 do mundo, Novak Djokovic, nas semifinais, e chegou à final mais importante de sua vida. A temporada havia sido a melhor da carreira: quatro títulos, 54 vitórias, semifinal do Masters 1000 de Miami, onde havia derrubado Roger Federer nas quartas. O mundo olhava para ele e enxergava um campeão de Slam iminente.

A final foi contra Marin Cilic. E não houve desfecho perfeito. Mas nenhuma derrota apaga o que aconteceu no caminho.


O bronze que o Brasil viu de perto

Homem com camisa vermelha ergue a bandeira do Japão, sorrindo em um ambiente esportivo. Público desfocado de fundo. Emoção de vitória.
Nishikori comemora o bronze olímpico na Rio 2016 (ulian Finney/Getty Images)

Dois anos depois, em 2016, Nishikori voltou a fazer história, desta vez em território brasileiro. No Rio de Janeiro, nas quadras do Parque Olímpico da Barra, ele derrotou Rafael Nadal em quase 3h de batalha, por 6/2, 6/7(1) e 6/3 para conquistar a medalha de bronze das Olimpíadas. Era o primeiro medalha olímpica do Japão no tênis em 96 anos. O país esperava desde 1920.


Quem esteve nas arquibancadas da Barra naquele dia presenciou algo raro: um tenista japonês desmontando metodicamente um dos maiores de todos os tempos, no calor do Rio de Janeiro, com o peso de um país inteiro nas costas.

"Meu amor pelo tênis e a crença de que eu poderia me tornar um jogador mais forte sempre me trouxeram de volta às quadras. Sinto que todas essas experiências enriqueceram e moldaram minha vida. Sou profundamente grato à minha família e a todos que me apoiaram em todos os momentos", disse Nishikori.

As lesões que nunca foram embora

O problema de Nishikori não era talento. Era o corpo. A lista de cirurgias e afastamentos percorre quase toda a segunda metade da carreira: cotovelo, quadril, ombro, costas. A cada retorno, ele recuperava pedaços do que havia sido. Mas os pedaços iam ficando menores.


Seu último título veio em Brisbane, em 2019. Desde então, foi uma luta constante para se manter dentro dos torneios. Em 2025, ainda apareceu no Masters 1000 de Cincinnati, mas teve que se retirar do US Open por uma lesão nas costas. O Challenger de Shimane, em 2026, é o nível onde ele compete agora.


O longo adeus começou há alguns anos. Nishikori demorou a aceitá-lo.


"Para ser honesto, ainda queria poder continuar minha carreira. Mesmo assim, olhando para tudo até aqui, posso dizer com orgulho que dei o meu melhor. Vou valorizar cada momento das partidas que restam e lutar até o fim", afirmou.

O que fica

Nishikori conquistou duas vezes o ATP 500 de Tóquio, jogando diante de sua própria torcida, e disputou o ATP Finals em quatro oportunidades. Esses números ajudam a montar o retrato de um tenista que não apenas chegou ao topo, mas se manteve por lá tempo suficiente para construir uma obra. E principalmente, uma idolatria local.


Na mensagem publicada nesta quinta, ele voltou às origens para explicar o que o moveu durante toda a carreira. "Desde criança, sou apaixonado pelo tênis e segui esse caminho com um único sonho: competir no cenário mundial. Chegar ao circuito da ATP, jogar no mais alto nível e me manter entre os 10 melhores do mundo é algo de que me orgulho muito. Tanto nas vitórias quanto nas derrotas, a atmosfera especial que senti em quadras lotadas é insubstituível", escreveu.


O Japão rende homenagens

As redes sociais japonesas reagiram rapidamente ao anúncio. No Infoseek e no Sponichi Annex, as mensagens de fãs se acumularam com frases como "sem dúvida o maior tenista japonês de todos os tempos", "obrigado pelos sonhos". Duas expressões se repetiram como refrão ao longo do dia: "o tesouro do Japão" e "o príncipe real do tênis". Um torcedor resumiu o sentimento coletivo:


"Ele nos mostrou o sonho de ver um japonês numa final de Grand Slam. Ser número 4 do mundo na era do Big 3 foi algo verdadeiramente extraordinário. Para mim, seja lá o que digam, Nishikori é o maior atleta japonês da história."

A Federação Japonesa de Tênis (JTA) divulgou nota oficial assinada pelo secretário-geral Toshihisa Tsuchihashi. "O anúncio da aposentadoria de Kei Nishikori, que alcançou o ranking 4 do mundo e fez a primeira final de Grand Slam da história do tênis masculino asiático, é uma grande notícia para o mundo do tênis", declarou, conforme publicado pelo portal Tennis365 Japão.


O Nikkan Sports, maior tabloide esportivo do Japão, estampou a manchete na cobertura digital: "A lenda real do tênis se despede". Shuzo Matsuoka, ex-tenista que acompanhou a carreira de Nishikori desde o juvenil, foi ao X para homenageá-lo: "Trouxe uma revolução ao tênis mundial. É o tesouro do Japão", escreveu. E acrescentou: "Acho que foi uma decisão dolorosa, travada entre a realidade e a motivação."



A emissora WOWOW, que transmite o tênis no Japão por décadas, publicou uma página especial de homenagem com os melhores momentos da carreira com a legenda: "Há inúmeras cenas memoráveis que não cabem neste compilado." Confira neste link.


Naomi Osaka, no site oficial da WTA, chamou o compatriota de "lenda japonesa" e confessou: "Não acho que Kei saiba o quanto ele me inspira. Quando eu era mais nova, sempre assistia aos jogos dele querendo ser tão boa quanto ele."


A ATP publicou nota oficial destacando que Nishikori "foi uma presença extremamente importante para o tênis japonês" e iluminou um dado que passou despercebido durante anos: sua taxa de vitórias em sets decisivos é de 72,4%, número superado na história apenas por Bjorn Borg e John McEnroe.


Um detalhe revelado pela imprensa japonesa: em 5 de abril, Nishikori chegou a negar os rumores de aposentadoria em seu perfil no X, antigo Twitter, escrevendo "não tenho intenção de me aposentar esta semana". O anúncio oficial veio menos de um mês depois. Portais japoneses apontam o Japan Open de Tóquio, marcado para entre 30 de setembro e 6 de outubro na Ariake, como o provável cenário do adeus definitivo, embora nenhuma confirmação tenha sido dada até agora.


Fãs internacionais também se manifestaram em massa. A repercussão compilada pelo site Dimikai incluiu reações como "as lesões roubaram muito de nós, mas Nishikori ainda nos deu uma carreira construída com habilidade pura e resiliência" e "Wawrinka, Monfils e Nishikori no mesmo ano: vou sentir falta dessas batalhas contra o Big Three".



Editorial

Havia outros jogadores melhores. Havia outros mais saudáveis. Mas poucos que carregassem o mesmo peso histórico e simbolismo em cada partida.


Nishikori se aposenta ao fim de 2026, junto com nomes como Stan Wawrinka, Gaël Monfils e Roberto Bautista Agut, numa geração inteira que vai saindo de cena ao mesmo tempo. O tênis muda. Sempre muda.


O que não muda é a história e o que ele representou.

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