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Antes de Paris, maiores estrelas do tênis se unem e cobram fatia maior da receita de Roland Garros

  • 4 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 5 de mai.

Os principais nomes do tênis mundial enviaram carta a Roland Garros nesta segunda-feira expressando "profunda decepção" com a premiação do Grand Slam em 2026 e cobrando reformas estruturais que o torneio, até agora, tem simplesmente ignorado.


A lista de signatários reúne 20 jogadores de ambos os circuitos, 19 dos quais foram identificados. Do lado feminino: Aryna Sabalenka, Coco Gauff, Iga Swiatek, Jessica Pegula, Madison Keys, Jasmine Paolini, Emma Navarro, Zheng Qinwen, Paula Badosa e Mirra Andreeva. Do lado masculino: Jannik Sinner, Carlos Alcaraz, Alexander Zverev, Taylor Fritz, Casper Ruud, Daniil Medvedev, Andrey Rublev, Stefanos Tsitsipas e Alex De Minaur.


Uma ausência chama a atenção: Novak Djokovic. O sérvio havia assinado a primeira carta do ciclo de reivindicações, em março de 2025, mas não subscreveu a segunda, enviada no verão europeu do mesmo ano. A ausência se repete agora, confirmada por um porta-voz dos atletas à agência AFP e apurada pelo veículo britânico The National.


(Foto: ChatGPT)
(Foto: ChatGPT)

O gatilho imediato foi o anúncio do torneio, em 16 de abril, de um aumento de 9,5% na premiação total, que alcança 61,7 milhões de euros, com os campeões de simples recebendo 2,8 milhões de euros cada. Parece muito. Mas os jogadores trouxeram o contexto.


O gatilho imediato foi o anúncio do torneio, em 16 de abril, de um aumento de 9,5% na premiação total, que alcança 61,7 milhões de euros, com os campeões de simples recebendo 2,8 milhões de euros cada. Parece muito. Mas os jogadores trouxeram outro contexto.


Em 2025, Roland Garros arrecadou 395 milhões de euros, alta de 14% em relação ao ano anterior. A premiação, no mesmo período, cresceu apenas 5,4%, reduzindo a parcela dos atletas para 14,3% da receita total. A projeção para 2026, com o torneio encaminhado para superar 400 milhões de euros, eleva esse percentual para apenas 14,9%, ante 15,5% em 2024.


"À medida que Roland Garros se prepara para registrar receitas recordes, os jogadores estão recebendo uma parcela cada vez menor do valor que ajudam a criar", afirma o comunicado.

A referência dos atletas é o percentual praticado nos Masters 1000 combinados de ATP e WTA: 22%. É isso que eles pedem. A campanha não é nova: no ano passado, cartas em tom semelhante foram enviadas a todos os quatro Grand Slams. O que muda no comunicado desta segunda é a firmeza do diagnóstico. Os atletas nomeiam de "profunda decepção" o que, até agora, havia sido tratado como negociação aberta.


Sem confundir com a PTPA

Há um detalhe importante para quem acompanha as disputas no tênis profissional: este movimento não tem ligação com a Associação de Jogadores de Tênis Profissionais (PTPA), a associação fundada por Djokovic em 2021 e que ele mesmo deixou no início deste ano. A PTPA encaminhou, em março de 2025, uma série de processos judiciais contra praticamente todas as organizações do esporte, incluindo os Grand Slams. O grupo que agora pressiona Roland Garros opera em separado. Segundo o Tennis Majors, nomes como Alcaraz e Zverev têm mantido distância deliberada da via judicial da PTPA. A ausência de Djokovic da carta atual, nesse contexto, ganha outra camada de leitura.


A escala da desproporção financeira que a PTPA levou à Justiça ajuda a entender de onde vem a raiva. Em ação movida pela associação contra o US Open, o processo apontou que o torneio arrecadou 12,8 milhões de dólares apenas com a venda de um coquetel especial em 2024, montante superior ao que pagou aos dois campeões de simples juntos.


Conselho proposto, conselho recusado

O dinheiro é a parte mais visível da disputa. Mas não é a única. A carta denuncia também a ausência de qualquer avanço em reformas de governança: programas de bem-estar dos atletas, mecanismo formal de consulta nas decisões dos Grand Slams e maior transparência institucional. Tudo o que foi colocado na mesa em 2025 segue sem resposta.


"Não houve diálogo para estabelecer um mecanismo formal de consulta dos atletas nas decisões dos Grand Slam. Enquanto outros grandes esportes internacionais modernizam sua governança, alinham interesses e constroem valor de longo prazo, os Grand Slams continuam resistentes à mudança", destaca a carta.


No início deste ano, os Grand Slams chegaram a propor a criação de um Conselho de Jogadores para envolvê-los nas decisões. A oferta foi recusada. O motivo: a proposta não abarcava as outras duas reivindicações centrais do grupo, o aumento da fatia da receita e as contribuições para o fundo de bem-estar. Para os jogadores, aceitar o conselho sem as demais garantias seria trocar o essencial pelo decorativo.


"Ainda não recebemos resposta sobre esses três pontos. Não queremos nos deixar distrair", disse Jessica Pegula ao The National em fevereiro, em Dubai. A número 5 do mundo é uma das porta-vozes mais ativas do movimento. "Há uma infinidade de outros assuntos que poderíamos discutir, mas não faz sentido falar de pequenas coisas antes de resolver as três principais. Estamos esperando."


"Não é ganância"

A suíça Belinda Bencic, que participou de reuniões com os Grand Slams no ano passado como representante do grupo, foi direta ao tentar desfazer a leitura que mais incomoda os atletas: a de que a campanha é movida por ambição de quem já ganha o suficiente.


"Acho que as pessoas nos entendem mal. Não estamos tentando ser gananciosos nem ganhar ainda mais dinheiro. O ponto é que, em comparação com o que os Grand Slams arrecadam, o percentual que os jogadores recebem é muito baixo", disse Bencic ao The National, em Abu Dhabi, há três meses. "E não é só sobre a premiação. É sobre a pensão, o seguro e todos esses benefícios e fundos. Os Grand Slams não contribuem com isso. É disso que se trata a discussão."


Iga Swiatek havia dado o mesmo recado em novembro, nas WTA Finals: "Com certeza seria ótimo se os Grand Slams quisessem conversar com a gente, porque é assim que deveria ser, e eu realmente não entendo por que não há uma conversa mais aberta", disse a polonesa, citada pela AFP.


Quando questionada sobre boicote, Bencic foi cautelosa: "É algo que teremos de avaliar como jogadores. Não acho que devemos falar sobre isso ainda. Espero sinceramente que uma conversa aberta e honesta com os Grand Slams possa ajudar."


A resposta do torneio

A Federação Francesa de Tênis (FFT) respondeu às críticas em nota enviada ao The Athletic. A entidade afirmou que a premiação cresceu cerca de 45% desde 2019, o que reflete, segundo ela, "um compromisso sustentado com o aumento da remuneração dos jogadores ao longo do tempo".


A Entidade também destacou o reforço nos prêmios dos qualificatórios, o investimento superior a 400 milhões de euros em infraestrutura recente e sua condição de organização sem fins lucrativos, com toda a receita reinvestida no torneio e no desenvolvimento do tênis na França e no exterior.


"A FFT permanece totalmente comprometida com o diálogo contínuo com todas as partes interessadas no tênis mundial, incluindo conversas diretas com jogadores individuais", concluiu a nota.


Os atletas, no entanto, discutem percentual, não valores absolutos. E nesse cálculo, o torneio perde. Os jogadores devem se pronunciar publicamente em Roma ainda esta semana. Uma nova reunião do grupo está prevista durante o próprio Roland Garros em maio, nos moldes do que ocorreu no ano passado.


O quali do torneio começa em 18 de maio. No mesmo saibro onde as estrelas disputam títulos, as tratativas sobre como dividir o que eles geram prometem ser tão intensas quanto qualquer partida.

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