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Lei de incentivo pode financiar circuito amador de tênis em Niterói

há 4 horas
6 min de leitura

A 4ª etapa do Circuito GymTotal Niteroiense 2026, disputada na última semana na Open Tennis, em Itaipu, foi inteiramente organizada e custeada pelo casal dono do espaço, o professor Carlos Eduardo Coelho e Hilda Medeiros. A expectativa é que a próxima etapa já conte com recursos captados pela Lei Estadual de Incentivo ao Esporte do Rio de Janeiro, mecanismo que permite às empresas destinar parte do ICMS devido ao patrocínio de projetos esportivos.


Open Tennis recebeu a 4ª etapa do Circuito GymTotal Niteroiense 2026 (Foto: Gustavo Werneck)
Open Tennis recebeu a 4ª etapa do Circuito GymTotal Niteroiense 2026 (Foto: Gustavo Werneck)

Segundo Marcos Antônio Santos, o Marcão, superintendente de Paradesporto e Projetos Inclusivos do Governo do Estado, será a primeira vez que um projeto incentivado desse tipo chega ao tênis amador na cidade. "Os torneios amadores sempre aconteceram por patrocínio espontâneo. Agora estamos em busca de patrocinadores para integrar esse projeto por meio da lei de incentivo", afirma.


Um circuito para quem nunca jogou

O GymTotal nasceu de uma aposta de Hilda: levar para o tênis os usuários de aplicativos de benefício corporativo, como o Wellhub (antigo Gympass) e o TotalPass. Segundo ela, o programa reúne hoje mais de 350 alunos em três academias, muitos deles pessoas que nunca tinham praticado o esporte.


"São pessoas que nunca pensaram em fazer tênis e hoje praticam. Esses aplicativos vêm para facilitar que as pessoas experimentem", diz Hilda. O preço acessível mudou também o perfil do público. Ao longo dos últimos anos, Coelho observou que, com a chegada dos aplicativos, as mulheres passaram a aderir ao tênis com mais força. "Nunca vi tanta mulher jogando tênis", conta ele.


O circuito foi pensado como degrau. Quem começa no GymTotal pode migrar depois para o Circuito Niteroiense de Tênis, competição tradicional organizada pelo professor Carlos Eduardo Coelho, que distribui pontos para o ranking municipal. Para o calendário de 2026, ainda estão previstas a 5ª etapa do GymTotal, a 6ª do Niteroiense e as finais (Finals) de cada circuito.


Como funciona a lei

Para buscar financiamento, Hilda procurou Marcão, que já trabalhava com projetos incentivados. A primeira barreira foi formal. Pelas regras da secretaria estadual, o proponente deve ser uma pessoa jurídica de direito privado estabelecida no estado, com objetivo cultural ou esportivo explicitado nos atos constitutivos e diretamente responsável pela concepção, promoção e execução do projeto. Com a orientação do superintendente, ela resolveu essa etapa e saiu em busca de patrocinadores em Niterói.


O mecanismo é regido pela Lei 8.266/2018, sancionada em 26 de dezembro de 2018, que revogou a antiga lei estadual de incentivo, de 1992. A principal mudança foi no abatimento. Pela nova regra, as empresas podem deduzir 100% do valor investido nos projetos culturais e esportivos, enquanto a lei anterior limitava o abatimento a 80% do valor aportado.

O teto é proporcional ao imposto de cada empresa. No Rio, é permitido abater 100% do valor incentivado até o limite de 6% do ICMS devido pela pessoa jurídica, sendo 3% para projetos culturais e 3% para esportivos. Na prática, uma empresa que recolhe R$ 5 milhões de ICMS por mês pode destinar R$ 150 mil mensais a projetos culturais e mais R$ 150 mil a esportivos.


É esse ponto que Marcão mais enfatiza. "Não há um desembolso real. É um valor que o empresário já paga de imposto", diz. "Hoje, muitas vezes, ele não tem condições de tirar do lucro para patrocinar um evento. O projeto incentivado é o caminho mais democrático." Como as cotas de esporte e cultura são independentes, acrescenta, uma não compete com a outra: a empresa que já patrocina um projeto esportivo pode apoiar também um cultural.

Há ainda o retorno de imagem, já que a exposição da marca do patrocinador é obrigatória nos projetos incentivados. "O dinheiro que ele já pagou de imposto volta em marketing, em comunicação", resume o superintendente.


Thiago Iglesias e Carlos Eduardo Coelho (Foto: Gustavo Werneck)
Thiago Iglesias e Carlos Eduardo Coelho (Foto: Gustavo Werneck)

Contrapartida social

Projetos esportivos que envolvem competição também preveem uma contrapartida social, definida pelo governo. A regulamentação estadual fixa essa destinação em percentual não superior a 20% do valor do incentivo, para uso preferencialmente em investimento em infraestrutura esportiva de relevância social. Marcão explica que o percentual varia conforme o projeto e que a escolha do destino cabe à Secretaria de Esporte, não ao organizador do evento. "Ajuda duas vezes: primeiro o projeto patrocinado, depois um projeto social. Tudo com transparência e publicação em Diário Oficial."


Um dos obstáculos, segundo Marcão, é cultural. Parte do empresariado teme que patrocinar um projeto incentivado atraia a atenção do Fisco. Ele sustenta que é o contrário. Para participar, a empresa contribuinte de ICMS precisa comprovar regularidade fiscal perante a Secretaria de Fazenda do estado e apresentar certificado de regularidade do FGTS.


"Aquilo já é a ratificação da regularidade fiscal", diz. "Se o empresário patrocina um evento, está tornando público que é uma empresa regular."


Segundo ele, as empresas procuradas por Hilda nunca tinham usado o mecanismo. "Fica o recado para outras empresas de Niterói que recolhem ICMS. Elas vão continuar pagando imposto e contribuindo com o estado, mas 3% desse valor podem ir para projetos."


Hilda Medeiros, Marcos Antônio e Gustavo Werneck
Hilda Medeiros, Marcos Antônio e Gustavo Werneck

A única quadra pública

O esforço para ampliar o acesso ao tênis esbarra também em infraestrutura. O professor Carlos Frederico Maurício Vieira, o Dico, que dá aulas na Open Tennis e também no projeto gratuito da prefeitura na Concha Acústica, no Centro, diz que aquela é, até onde sabe, a única quadra pública de tênis da cidade.


No projeto, cada inscrito tem direito a uma aula de uma hora por semana, em turmas de até oito alunos, com material fornecido. A procura, segundo ele, cresceu com a ascensão de João Fonseca. Quando um aluno se destaca, os professores o encaminham para academias e torneios. "O projeto é maravilhoso, mas com uma aula por semana é difícil evoluir", afirma Dico, que defende mais quadras públicas, mais torneios e mais apoio da federação estadual.


Para ele, o custo deixou de ser o principal obstáculo. "O equipamento é caro, mas um tênis de corrida também custa mil, mil e pouco. O iniciante pode comprar uma raquete usada, juntar dois, três amigos e dividir a quadra."


Tênis adaptado: o próximo passo


Os planos da Open Tennis não param no circuito amador. Com a lei de incentivo, Hilda e Coelho querem implantar em Niterói e em todo o estado do Rio de Janeiro o blind tennis, a modalidade para pessoas com deficiência visual, e criar competições de tênis em cadeira de rodas para crianças. A referência é o próprio Marcão, que, segundo ela, implantou o power soccer, o futebol em cadeira de rodas motorizada, por meio de projetos incentivados. "O tênis não pode continuar sendo um esporte que exclui. Se uma criança cega ou em cadeira de rodas quiser jogar, tem que existir quadra, professor e torneio esperando por ela. É para isso que a gente quer a lei", diz Hilda.


O blind tennis foi criado no Japão em 1984, quando o estudante Miyoshi Takei, com deficiência visual, desenvolveu uma bola que emite som e adaptou as regras do jogo. A bola é maior, com esferas internas que produzem ruído, e a quadra é menor. O número de quiques permitidos varia conforme o grau de visão: até três para atletas totalmente cegos, que jogam vendados, e apenas um para quem tem visão parcial. Hoje a modalidade é praticada em mais de 24 países e estará nos Jogos Mundiais da IBSA de 2027. No Brasil, ainda engatinha. Em 2026, Igor Dutra Ferreira se tornou o primeiro brasileiro a disputar um Mundial.


O tênis em cadeira de rodas infantil já existe, mas, segundo Hilda, falta quórum: não há crianças praticantes em número suficiente para montar um torneio amador. O contraste com a elite é grande. A mineira Vitória Miranda foi eleita pela ITF a melhor jovem do tênis em cadeira de rodas de 2025, depois de vencer os títulos juvenis do Aberto da Austrália e de Roland Garros. A aposta de Hilda é usar o projeto incentivado para formar essa base.


Da quadra ao documentário

Se o projeto esportivo sair do papel, Hilda planeja usar a cota de cultura para financiar um documentário. O filme, batizado provisoriamente de "Lendas de Niterói", registraria a trajetória de professores que formaram gerações de tenistas na cidade, como Coelho, Dico e Murilo Gomes, o Murilinho.


Carlos Frederico Maurício Vieira, o Dico, e Rafael Teodoro (Foto: Gustavo Werneck)
Carlos Frederico Maurício Vieira, o Dico, e Rafael Teodoro (Foto: Gustavo Werneck)

A ideia tem origem pessoal. A sogra de Hilda foi professora de balé conhecida em Niterói, e sua história ficou sem registro. "Não tive tempo de contar a história dela. Mas vou ter tempo de registrar a história do meu marido", diz.


O plano é oferecer aos patrocinadores do circuito a chance de também investir em cultura, aproveitando que as duas cotas não concorrem entre si. "Primeiro vamos no projeto do tênis, depois no da cultura", diz Hilda.





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