Masters 1000 de duas semanas viram alvo de revolta generalizada no circuito
- há 26 minutos
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Jogadores, técnicos, dirigentes de torneio e torcida engrossam o coro contra o formato de doze dias adotado por sete dos nove Masters 1000 da ATP, num racha que já foi parar na Justiça e não dá sinal de arrefecer.
A insatisfação não é nova, mas ganhou corpo nas última semanas. Sete dos nove Masters 1000 masculinos (Indian Wells, Miami, Madri, Roma, Montreal, Cincinnati e Xangai) já operam no formato estendido, que praticamente dobra o tempo de permanência dos jogadores em cada sede. Só Monte Carlo e Paris seguem no modelo antigo, de uma semana.

Novak Djokovic foi um dos primeiros nomes de peso a colocar o dedo na ferida em 2026. Em Wimbledon, o sérvio disse entender "perfeitamente as queixas de Carlos Alcaraz e de muitos outros" sobre o tempo longe de casa e defendeu uma reformulação profunda do calendário do circuito.
Alcaraz, aliás, é hoje o rosto mais visível da insatisfação, e não é de agora. Em coletiva de imprensa antes do ATP 500 de Pequim, em setembro de 2024, o então número 3 do mundo já havia resumido o problema de forma direta: "nos vão matar de alguma maneira", disse, ao criticar o excesso de torneios obrigatórios no calendário. Mais de um ano depois, já como número 1, o espanhol voltou ao tema em Paris, em entrevista ao Tennis Majors: "obviamente eles têm que fazer algo com o calendário", disparou, lembrando que a temporada não deixa "tempo para treinar e descansar".
Arthur Fils também não poupou críticas após avançar em Madri. Ao L'Équipe, o francês resumiu a insatisfação com uma comparação direta: "prefiro os torneios de uma semana. Doze dias é quase como um Grand Slam". Stefanos Tsitsipas foi na mesma linha em suas redes sociais, avaliando que o nível de jogo caiu no formato estendido e que os atletas não têm tempo de recuperação suficiente entre uma partida e outra.
Do lado feminino, o desconforto é igualmente forte. Iga Swiatek chamou o calendário de "superintenso" à beira de Wimbledon, afirmando que "não faz sentido jogarmos mais de 20 torneios por ano". Aryna Sabalenka, número 1 do mundo, foi na mesma direção ao anunciar que reduziria sua agenda em 2026: "a temporada é insana e isso não é bom para nenhuma de nós", disse a bielorrussa, que citou o aumento de lesões como motivo direto da decisão. As duas, aliás, desistiram juntas do WTA 1000 de Dubai neste ano, o que gerou atrito público com a direção do torneio.
A prova mais recente: Sinner e Djokovic fora de Montreal
Se ainda faltava um exemplo concreto do que os jogadores vêm dizendo, ele apareceu nesta semana. Sinner e Djokovic confirmaram a desistência do Masters 1000 de Montreal, com início na próxima semana, e se juntaram a Alcaraz, já fora por lesão, deixando o torneio canadense pela segunda vez seguida sem nenhum dos três maiores nomes do circuito.
O prejuízo esportivo é grande: Sinner chegava a Montreal com a chance de se tornar o primeiro tenista da história a vencer os nove Masters 1000 em uma única temporada, depois de já ter faturado Indian Wells, Miami, Monte Carlo, Madri e Roma em 2026. Em comunicado, o italiano foi direto: "tomamos a difícil decisão de me retirar de Montreal", disse, sem citar lesão específica, o que chamou atenção justamente por vir de um jogador sem qualquer sinal de problema físico durante Wimbledon, torneio que ele venceu há menos de duas semanas.
A diretora do torneio, Valérie Tétreault, reconheceu publicamente que "ajustes são necessários" para manter os maiores nomes na chave. Sem os três de cima, Alexander Zverev assume a cabeça de chave 1, seguido pelo canadense Félix Auger-Aliassime, que jogará em casa como segundo favorito.
Desistências também no quali
O desgaste não atinge só os cabeças de chave. A extensão dos Masters 1000 empurrou desistências também para o quali, etapa que deveria servir justamente para dar oportunidade a quem está fora do topo do ranking. Na chave classificatória do Masters 1000 de Montreal, com início dia primeiro de agosto, a lista de baixas não para de crescer.
Nomes como Arthur Fery, James Duckworth, Marton Fucsovics, Luca Van Assche, Gabriel Diallo, Jenson Brooksby e Emilio Nava fora, substituídos por entrantes de última hora. "Nem o quali tá sendo salvo das desistências", resumiu o perfil Papo de Tênis no X, antigo Twitter, ao comentar que jogadores de nível intermediário simplesmente optaram por não viajar para o torneio.
E o Brasil nessa conta?
João Fonseca, hoje entre os 30 primeiros do ranking, já sente na pele o dilema entre aproveitar a ascensão meteórica e preservar o corpo. Seu técnico, Gui Teixeira, resumiu a lógica por trás do planejamento cauteloso do brasileiro: "não estamos em uma corrida maluca por atingir um ranking maior possível agora", disse o treinador, justificando por que Fonseca abriu mão até de torneios não obrigatórios, como o ATP 500 de Washington, para descansar no Brasil antes da sequência de Montreal, Cincinnati e US Open.
A defesa da ATP: mais dinheiro para mais gente
Do outro lado do ringue está Andrea Gaudenzi, presidente da ATP, que rebateu as críticas com números. "É verdade que o novo formato estende o tempo que você passa nas instalações", admitiu o italiano, mas defendeu que o modelo "libera os ganhos potenciais que precisamos para a evolução de todo o circuito".
Segundo Gaudenzi, o formato estendido bancou a expansão da pensão de aposentadoria de 165 para 300 jogadores e o dobro em premiação nos Challengers desde 2022, além de projetos de renovação de infraestrutura em Roma, Madri, Xangai e Cincinnati orçados em nove dígitos. Sua defesa central é de prazo: para ele, o formato precisa de cinco a dez anos até ser avaliado com justiça.
A lógica financeira também aparece na expansão do calendário para outros mercados. O CEO da ATP, Massimo Calvelli, confirmou negociações para um décimo Masters 1000, na Arábia Saudita, a partir de 2028, movimento que segundo a imprensa europeia pode custar até 15 torneios ATP 250 do calendário atual. Mesmo torneios tradicionais fora da categoria Masters sentem a pressão: o ATP 500 de Barcelona anunciou para 2026 uma expansão para duas semanas de atividades, incluindo evento sub-21 e sessões noturnas, na tentativa de aumentar 40% seu faturamento em cinco anos e não ficar para trás na disputa por atenção e verba.
Da queixa à Justiça
A insatisfação já passou da arena das entrevistas coletivas para os tribunais. Em março de 2025, a PTPA (associação que reúne jogadores, cofundada por Djokovic) e um grupo de atletas, incluindo Nick Kyrgios e Sorana Cirstea, processaram ATP, WTA, ITF e ITIA em Nova York, Londres e Bruxelas, alegando conluio para suprimir ganhos e desconsiderar a saúde dos jogadores no desenho do calendário. A ATP chamou o processo de "sem mérito" e citou aumento de US$ 70 milhões em compensação aos jogadores nos últimos cinco anos; a WTA classificou a ação como "infundada". O caso segue em tramitação, sem decisão de mérito até o momento.
Enquanto a disputa não se resolve nos tribunais, ela seguirá sendo travada semana após semana nas coletivas de imprensa, nas retiradas de última hora e, cada vez mais, nas redes sociais, onde a torcida brasileira já aprendeu a fazer piada com a lista de desistências antes mesmo de o sorteio da chave sair.
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