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Melbourne ferve e o Australian Open entra em modo de sobrevivência

Melbourne atravessa um dos períodos mais críticos de sua história recente. Uma onda de calor forte e prolongada atinge o sudeste da Austrália neste fim de janeiro de 2026, elevando termômetros a níveis recordes, agravando incêndios florestais e interferindo diretamente na rotina do primeiro Grand Slam da temporada. No estado de Victoria, onde a cidade que recebe o Australian Open está localizada, áreas rurais registraram 48,9°C, configurando um dos dias mais quentes em quase 17 anos e estabelecendo novos recordes regionais de temperatura.


Bombeiros combatem incêndios florestais na Austrália  (Reprodução/Corporação Australiana de Radiodifusão)
Bombeiros combatem incêndios florestais na Austrália (Reprodução/Corporação Australiana de Radiodifusão)

As máximas previstas ficaram acima de 40°C por vários dias seguidos, com picos que chegaram a 42,7°C em Melbourne na terça-feira. A combinação de calor extremo, ventos fortes e tempestades secas, com raios mas sem chuva, criou condições ideais para a propagação rápida de incêndios florestais em diferentes regiões de Victoria.


Equipes de emergência ordenaram a evacuação de centenas de casas e prédios no estado, diante do risco elevado de propagação das chamas. O governo local decretou proibição total do uso de fogo e classificou dias da semana como de perigo "catastrófico" para incêndios florestais, o nível máximo da escala. Cerca de 450 escolas e creches permaneceram fechadas, estradas foram interditadas e serviços de transporte regional suspensos. Um dos incêndios mais graves avançou no Mount Lawson State Park, no nordeste de Victoria, consumindo cerca de mil hectares e forçando comunidades inteiras a deixar suas casas.


Calor extremo afeta o Australian Open

Imagem gerada por IA, meramente ilustrativa
Imagem gerada por IA, meramente ilustrativa

Dentro do Melbourne Park, o calor também virou fator determinante. Em mais de uma ocasião, os organizadores do Australian Open acionaram o Extreme Heat Protocol, política baseada na Heat Stress Scale, escala oficial que considera temperatura do ar, radiação térmica, umidade e velocidade do vento para definir medidas de proteção a atletas, equipes e público. Quando o índice de estresse térmico atinge o nível máximo de 5, as partidas em quadras externas são suspensas, os telhados retráteis das arenas principais são fechados e os jogos passam a ocorrer apenas em locais cobertos, como Rod Laver Arena e Margaret Court Arena.


O protocolo foi ativado pela primeira vez no sábado, quando a temperatura em Melbourne se aproximou dos 40°C. A suspensão ocorreu por volta das 14h30, exatamente quando Jannik Sinner começava a sofrer câimbras severas durante sua partida de terceira rodada contra o americano Eliot Spizzirri. O jogo foi interrompido, o telhado da Rod Laver Arena foi fechado e, após cerca de dez minutos de pausa, Sinner retornou à quadra visivelmente mais confortável, quebrando o saque do adversário imediatamente e virando o confronto a seu favor para vencer por 4-6, 6-3, 6-4, 6-4.


"Tive sorte com a regra de calor", admitiu Sinner após a vitória, reconhecendo que a interrupção foi decisiva para sua recuperação. O italiano, que já havia sofrido com o calor extremo em Melbourne no ano anterior, deixou a quadra durante a pausa, deitou-se por cinco minutos para "soltar os músculos" e bebeu suco de picles para aliviar as câimbras. Quando o jogo recomeçou, a temperatura dentro da arena havia caído para cerca de 26°C, permitindo que Sinner recuperasse sua mobilidade e dominasse os sets seguintes.


A aplicação do protocolo no momento exato em que Sinner estava em dificuldade gerou debates nas redes sociais e entre torcedores. Alguns questionaram se o telhado não deveria ter sido fechado antes, para evitar exposição prolongada ao calor, enquanto outros levantaram dúvidas sobre se a escala reflete com precisão as condições dentro e fora das quadras retráteis. Defensores da regra, no entanto, reforçaram que a aplicação é automática, baseada na medição do estresse térmico, e não no placar ou no andamento da partida.


Condições severas afeta o público

Na terça-feira, o protocolo voltou a ser acionado, com temperaturas que chegaram a 42,7°C e previsão de alcançar até 45°C. O início dos eventos de tênis em cadeira de rodas, que contariam com a participação dos britânicos Alfie Hewett, Gordon Reid e Andy Lapthorne, foi adiado para quarta-feira. Partidas em quadras externas, onde ocorrem os jogos juvenis, foram antecipadas para as 9h (horário local) e concluídas antes da chegada das temperaturas mais altas. As quatro quartas de final de simples, incluindo confrontos de Carlos Alcaraz, Aryna Sabalenka, Alexander Zverev e Coco Gauff, foram disputadas na Rod Laver Arena e na Margaret Court Arena, ambas com telhados retráteis que permaneceram fechados durante boa parte do dia.


Aryna Sabalenka, número 1 do mundo, elogiou as medidas de proteção adotadas pela organização. "Estou feliz que fecharam o teto quase na metade para termos bastante sombra… Eu sabia que eles não nos deixariam jogar sob esse calor insano. Se atingir o nível máximo, eles definitivamente fecham o teto… então sabia que estavam nos protegendo, nossa saúde", declarou a tenista bielorrussa.


Jim Courier, ex-número 1 do mundo e atual comentarista, também se manifestou favoravelmente ao protocolo, lembrando tempos em que não havia regra formal para interromper jogos por calor. "Nosso corpo simplesmente entrava em choque… É isso que acontece: seu corpo entra em choque. Eu aplaudo o torneio, dado o quanto o jogo é físico hoje em dia comparado com antes", afirmou Courier.


Nem todos os atletas, porém, tiveram a mesma sorte. A jovem britânica Hollie Smart foi forçada a abandonar sua partida de primeira rodada do torneio juvenil no terceiro set, após sofrer câimbras e deixar a quadra em lágrimas. Madison Keys e Jessica Pegula, que jogaram pela manhã, expressaram alívio por terem competido antes do pico de calor. "Estou super feliz de poder entrar em quadra antes que o calor ficasse extremo. Apenas entrar e sair cedo", disse Keys, que venceu a tcheca Karolina Pliskova por 6-3, 6-3.


O impacto do calor também se estendeu ao público presente no Melbourne Park. No sábado, dia tradicionalmente movimentado do torneio, houve queda no número de espectadores, especialmente nas quadras externas, com muitos preferindo áreas climatizadas ou horários mais amenos. A organização disponibilizou 46 pontos de água e estações de recarga, 56 ventiladores pulverizadores, dois nebulizadores de alta potência e 9.000 metros quadrados adicionais de sombra, 70% a mais que em 2025, além de centenas de guarda-sóis, zonas climatizadas e 13 pontos de distribuição de protetor solar.


Os boleiros também contaram com protocolo específico: turnos reduzidos de 45 minutos, descansos prolongados, colares refrigerantes, bebidas com eletrólitos, acesso a salas climatizadas e supervisão médica constante durante todo o torneio.


O novo normal

A intensidade do episódio recoloca o torneio dentro de um debate maior sobre extremos climáticos. Um estudo do consórcio World Weather Attribution (WWA) apontou que ondas de calor como as registradas recentemente na Austrália se tornaram cinco vezes mais prováveis devido ao aquecimento global provocado pela ação humana.


Pesquisadores da Universidade de Melbourne alertam que a repetição de eventos extremos em intervalos cada vez menores indica que o país entrou em uma nova normalidade climática, mais quente, mais seca e mais perigosa. No cenário climático atual, a análise indica que eventos semelhantes ao registrado em janeiro tendem a ocorrer aproximadamente uma vez a cada cinco anos. O estudo alerta que, caso o aquecimento global atinja 2,6°C acima da média pré-industrial, patamar projetado para o fim do século com base nas emissões atuais de carbono, ondas de calor desse tipo poderiam se repetir a cada dois anos.


Com equipes de emergência em alerta máximo, a população lidando com evacuações e o risco de incêndios catastróficos, o Australian Open segue ajustando programação e protocolos para manter a competição viável em um verão historicamente quente. O que se desenha, entre quadras interrompidas e telhados fechados, é um desafio de adaptação que tende a ganhar ainda mais peso à medida que episódios de calor extremo se tornam mais frequentes e impactam, de forma direta, eventos esportivos ao ar livre no verão australiano.

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