O crescimento do tênis brasileiro e o cuidado na formação de jovens tenistas
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O tênis brasileiro nunca esteve tão em evidência. João Fonseca e Bia Haddad Maia colocaram o país no mapa do circuito profissional, e o reflexo chega direto à base: academias cheias, mais crianças na quadra e uma geração de jovens que sonha alto depois do título inédito da Copa Davis Júnior em 2022.
Mas crescimento acelerado exige atenção redobrada. E quem fala sobre isso com autoridade é Eduardo Faria: educador físico com quase 40 anos de carreira, preparador físico do Brasil na Copa Davis por mais de 15 anos, passagem por Roland Garros, Wimbledon e US Open ao lado de nomes como Guga e Fernando Meligeni, e autor do livro "Tênis & Saúde". Hoje, pela sua empresa 5º Set, ele trabalha com o programa TFI (Treinamento Físico Inteligente) atendendo desde amadores até jovens atletas em formação.
No artigo abaixo, Faria trata de um tema que todo pai, mãe e treinador de tenista jovem precisa ler com calma: como equilibrar carga, intensidade e prazer na formação de atletas em desenvolvimento, sem queimar etapas nem comprometer o futuro de quem ainda está crescendo.
Confira!
O crescimento do tênis brasileiro e o cuidado na formação de jovens tenistas

O tênis competitivo brasileiro vive um excelente momento, impulsionado pela ascensão meteórica de João Fonseca no circuito masculino e pela consolidação de Bia Haddad Maia entre as principais jogadoras do mundo. Esse cenário positivo reforça a percepção de que o Brasil voltou a ocupar um espaço de destaque no tênis internacional.
No âmbito amador, observa-se um crescimento significativo no número de academias e no contingente de praticantes da modalidade, reflexo do maior interesse por um esporte reconhecidamente envolvente, técnico e desafiador.
No tênis juvenil, o momento também é especialmente promissor. Desde novembro de 2022, quando o país conquistou de forma inédita o título da Copa Davis Júnior, diversos jovens brasileiros passaram a chamar a atenção no cenário internacional. Entre eles destacam-se Victoria Barros, Luis Miguel, Nauhany Silva, Livas Damazio e Pietra Rivoli, além de um número crescente de promessas que vêm surgindo em diferentes regiões do país.
Esse avanço é resultado direto do trabalho consistente dos treinadores em todo o território nacional, aliado à atuação da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) na estruturação da base, com a ampliação do acesso à modalidade, a organização do calendário competitivo e o acompanhamento mais próximo do desenvolvimento dos jovens atletas.
Nós, da 5º SET, por meio do programa TFI – Treinamento Físico Inteligente, temos atuado diretamente no atendimento, orientação e realização de testes de mapeamento genético em diversos perfis de esportistas — desde tenistas amadores e profissionais até jovens atletas em fase de formação.
O que mais chama a atenção nesse trabalho é o número crescente de atletas juvenis envolvidos, reflexo direto do atual boom do tênis brasileiro. Esse cenário positivo, embora extremamente estimulante, acende um importante sinal de
alerta: o aumento da carga de treinos, do número de competições e das expectativas por resultados.
Diante desse contexto, torna-se fundamental cuidar da forma como os treinos são programados, distribuídos e aplicados na preparação dos jovens tenistas, garantindo um desenvolvimento saudável, seguro e sustentável ao longo das diferentes fases de crescimento.
Sem um planejamento adequado e individualizado, o excesso de estímulos pode comprometer o crescimento, o desenvolvimento físico e até a permanência do atleta no esporte. Por isso, alinhar a carga de treinamento, as atividades fora da quadra e as características individuais de cada jovem é uma etapa indispensável para uma formação saudável, segura e sustentável.
A importância do controle do volume e da intensidade dos treinos
Na formação esportiva, especialmente no tênis, treinar mais não significa treinar melhor. O desenvolvimento saudável depende do controle do volume (quantidade de treino) e da intensidade (nível de esforço), respeitando as fases de crescimento.
É essencial lembrar que a criança não é um adulto em miniatura. Seus ossos, músculos, tendões e ligamentos ainda estão em desenvolvimento e respondem de forma diferente às cargas de treino. Quando há excesso ou má distribuição das atividades — dentro e fora da quadra — aumentam os riscos de lesões, fadiga e desmotivação.
Como esse controle deve acontecer em cada fase
Iniciação esportiva (6 a 10 anos) O foco deve ser o prazer pela prática e o desenvolvimento motor geral. Treinos leves, variados e lúdicos são fundamentais. O excesso nessa fase pode gerar dores, cansaço e perda do interesse pelo esporte.
Formação básica (11 a 14 anos) Período marcado pelo estirão do crescimento. O aumento do volume deve ser gradual, com intensidade bem controlada. Atenção às queixas de dor é indispensável, pois o corpo está mais vulnerável a lesões por sobrecarga.
Especialização (15 a 18 anos) Os treinos se tornam mais específicos e exigentes. O controle das cargas e o respeito ao descanso ajudam a evitar fadiga crônica, queda de rendimento e lesões recorrentes.
Benefícios do controle adequado na formação
Quando o treinamento é bem planejado, os benefícios são claros:
Menor risco de lesões
Melhor aprendizagem técnica
Evolução física mais segura
Mais motivação e confiança
Maior chance de permanência no esporte a longo prazo
Ganhar cedo não pode ser mais importante do que crescer bem. O verdadeiro sucesso no tênis começa na base, com decisões corretas que priorizam saúde, desenvolvimento e prazer pela prática esportiva.
Orientações básicas para os pais dos tenistas
1. Observe sinais de cansaço e dor Dores frequentes, queda de rendimento, irritação ou falta de vontade de treinar não são normais. Esses sinais podem indicar excesso de carga.
2. Valorize o descanso Dias sem treino e boas noites de sono fazem parte do processo de evolução. O corpo da criança precisa de tempo para se recuperar e crescer.
3. Evite excesso de atividades físicas simultâneas Aulas extras, outros esportes e atividades intensas fora da quadra devem ser alinhadas com o treinador para não sobrecarregar o corpo.
4. Não apresse resultados Cada criança tem seu tempo de desenvolvimento. Ganhar cedo não garante sucesso no futuro, mas o excesso pode gerar lesões e desmotivação.
5. Mantenha diálogo com o treinador Pergunte sobre volume, intensidade e objetivos do treino. A comunicação entre pais e profissionais é essencial para decisões equilibradas.
6. Priorize o prazer pelo esporte A criança deve gostar de jogar tênis. Quando o treino vira apenas obrigação, o risco de abandono aumenta.
7. Lembre-se: a criança não é um adulto em miniatura O corpo ainda está em formação. Cargas exageradas podem comprometer o crescimento e o desenvolvimento saudável.
Orientações básicas para os treinadores
1. Planeje o treino pensando no crescimento, não apenas no resultado A formação deve priorizar desenvolvimento técnico, motor e físico adequado à idade, e não vitórias imediatas.
2. Controle o volume e a intensidade semanalmente Evite grandes variações de carga ao longo da semana. Os aumentos devem ser GRADUAIS E PLANEJADOS, sempre respeitando a capacidade de recuperação do atleta. Atualmente, o mercado oferece diversas plataformas que auxiliam nesse processo, permitindo o monitoramento de marcadores de fadiga nos treinos físicos e técnicos, o controle da carga interna — por meio da percepção diária de esforço e bem-estar relatada pelo atleta — e da carga externa, referente ao que é aplicado pelo treinador em cada sessão. Esse acompanhamento contínuo facilita ajustes precisos e contribui para um treinamento mais seguro e eficiente.
3. Atenção redobrada durante o estirão do crescimento Reduza picos de intensidade e volume quando o atleta apresentar queda de coordenação, dores articulares ou cansaço excessivo.
4. Varie estímulos e evite repetição excessiva Excesso de repetições do mesmo gesto aumenta o risco de lesões por sobreuso. Inclua jogos, desafios e tarefas variadas.
5. Integre atividades fora da quadra ao planejamento Preparação física, escola e outras atividades devem estar alinhadas ao treino técnico para evitar sobrecarga.
6. Estimule a comunicação com pais e atletas Explique objetivos, fases do treinamento e a importância do descanso. Transparência gera confiança e apoio ao processo.
7. Priorize o prazer e a motivação Atletas motivados aprendem mais e permanecem mais tempo no esporte. A formação deve ser exigente, mas positiva.
Um recado final para pais e treinadores
O momento do tênis brasileiro é extremamente positivo e inspira novas gerações. No entanto, para que essas crianças e adolescentes tenham a chance real de seguir esse caminho, é fundamental que a formação seja feita com responsabilidade, equilíbrio e paciência.
Bons Treinos!
Eduardo Faria
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