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O dia em que Koch foi à Suécia e fez a torcida de Borg engolir o saibro de Bastad

  • há 20 horas
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 17 horas

Era julho de 1975. Björn Borg tinha 19 anos, havia ganho Roland Garros pela segunda vez em dois anos e era, para a Suécia inteira, muito mais do que um tenista. Era uma divindade nacional. O garoto dos cabelos louros e a bandana estilosa que fazia as adolescentes correrem para trás dos hotéis, que havia ajudado a Suécia a ganhar sua primeira Copa Davis naquele mesmo ano, que jogava como se fosse de outro planeta. Naquele verão europeu, o torneio de Bastad era a casa dele: o saibro sueco, a torcida sueca, o calor da cidade balneária no litoral nordeste escandinavo. O único jogador do circuito que não parecia se importar com nada disso era um gaúcho de 30 anos, canhoto, também de cabelos compridos, que havia viajado do Brasil para sepultar o script perfeito.


Koch em foto de arquivo
Koch em foto de arquivo

Thomaz Koch venceu Borg por 6/3 e 6/2 nas quartas de final do Swedish Open de 1975, em 7 de julho, no saibro de Bastad. Em dois sets. Direto. Sem dar ao ídolo da casa a chance sequer de respirar.


Koch revelou à Nittenis a lógica que guiou cada ponto daquele dia: "Foi no piso preferido dele, o saibro, com bolas Tretorn, suecas, muito lentas, e contra toda expectativa joguei o jogo inteiro sacando e subindo à rede, evitando a troca de bolas longas no fundo da quadra onde ele era imbatível. E deu certo. Quase não deixei ele reagir", lembra.


O contexto que transforma o placar em história

Bjorg, campeão em Roland Garros 1974                        (Foto: L'Equipe)
Bjorg, campeão em Roland Garros 1974 (Foto: L'Equipe)

Para entender o que aquele resultado significou, é preciso entender quem era Björn Borg naquele momento. Três semanas antes de Bastad, ele havia derrotado Guillermo Vilas na final de Roland Garros com a autoridade de quem já trilhava o caminho das lendas, por 6/2, 6/3 e 6/4. Era seu segundo título na capital francesa em dois anos, com um estilo de jogo que já começava a mudar o esporte para sempre. Um ano antes, havia se tornado o mais jovem campeão masculino no saibro parisiense (levantou a taça dez dias após completar 18 anos).


A Suécia havia ganhado a Davis Cup aquele ano com ele como protagonista. No ranking oficial da ATP, Borg era o quarto do mundo e o norte-americano Jimmy Connors o número 1, posto que ocupava desde julho de 1974 e manteria por mais de dois anos. Mas para o público sueco, para as massas que lotavam os torneios onde Björn jogava, a numeração não importava muito. Havia o sueco. E havia o resto.


Time sueco campeão da Davis em 75                             (Foto: Rolf Norberg Photos/IMAGO)
Time sueco campeão da Davis em 75 (Foto: Rolf Norberg Photos/IMAGO)

Koch chegou a Bastad com 30 anos, já veterano, com uma hérnia de disco que começava a se anunciar — problema que anos depois comprometeria seu saque e voleio marcante. Embora aparecesse então como número 24 do mundo no ranking da ATP, sua melhor posição no circuito computarizado histórico da Associação de Tenistas Profissionais, esse número não reflete seu auge: em 1967, ainda no sistema de listas de especialistas que precedeu o ranking por computador, foi considerado o 12º do mundo.



Canhoto, de cabelos longos e faixa na testa, Koch já estava perfeitamente alinhado à estética Rockstar dominante do circuito nos anos 70 — como o hermano Guillermo Vilas, o americano de origem lituana Vitas Gerulaitis, o romeno Ilie Năstase, etc. Não faltam exemplos. Mas havia sido, no Brasil, um dos ícones dessa ruptura contra rigidez dos clubes do país na virada da década anterior. "Gosto de dizer que sempre fui anti-establishment, contra o sistema. Eu era um dos pouquíssimos atletas cabeludos nos anos 1960."



Em quadra, levava o jogo a sério; fora dela, nem tanto. Confessaria, décadas à frente, em entrevista à A Voz do Tênis: Eu dava meu máximo pela vitória, mas quando acabava o jogo era a hora de dar umas risadas, curtir e até tomar umas cervejas, A gente não tinha muita noção de história. A gente não tinha ideia de que falariam daqueles torneios muitos anos depois".


"Para mim, o mais importante era o espetáculo. Sempre foi. Claro que eu preferia vencer, mas acho que a minha geração tinha uma noção muito grande de responsabilidade perante o tênis. A gente entrava para dar show, igual uma peça de teatro", contou.


Naquele dia em Bastad, Koch deu seu máximo. E foi o suficiente para desbancar o favorito de uma nação inteira em seu próprio quintal. Apesar do grande feito, o gaúcho revelou com exclusividade sobre o que veio depois. Éo que transforma o resultado esportivo em história humana.


"Depois desse jogo, foi um dos dias mais solitários que passei, sem ninguém por perto, nenhum parceiro de duplas ou da vida. Totalmente sozinho e sem perspectiva. Fiquei horas andando pelas ruas de Bastad sem rumo. E no dia seguinte mal podia andar por causa da hérnia de disco e não havia massagista para amenizar a situação."

A Suécia em silêncio

O placar é seco: 6/2, 6/3, e, ao contrário do que tantas vezes acontece no tênis, quando um placar elástico não reflete os dramas da partida, aqui ele foi fiel ao duelo. Faltam estatísticas detalhadas e reconstituições ponto a ponto, mas o que sobrevive é direto, e consistente. No dia seguinte, o The New York Times resumiu sem rodeios no título: “Borg Put To Rout By Koch”. A expressão to rout, emprestada do vocabulário militar, não indica apenas derrota, mas desorganização completa — um adversário que perde o controle da partida e não consegue reagir; em termos esportivos, algo próximo de “não deu chances”. No mesmo texto do principal jornal do mundo, aparece o verbo “whipped”, que reforça essa leitura: mais do que vencer, sugere impor ritmo, encurtar o jogo, conduzir o confronto sem ser ameaçado. Uma vitória com autoridade, não construída no detalhe. O gaúcho venceu em sets diretos, e a impressão que ficou não foi a de um jogo que poderia ter ido para qualquer lado, mas a de um dia em que um dos lados nunca conseguiu entrar na partida.


Embalado pela vitória sobre Björn, Koch começou melhor a semifinal contra o andaluz José Higueras. Venceu o primeiro set, mas acabou sofrendo a virada por 6/4, 3/6 e 1/6. O espanhol seguiria até a final, derrotado pelo compatriota de Granada Manuel Orantes. O sueco ainda encontrou fôlego para voltar à quadra nas duplas e conquistar o título ao lado de Ove Bengtson, também atleta da casa.


O homem que não sabia que faria história

O que torna a vitória de Koch ainda mais singular é o que ele mesmo diz sobre aquela geração: não havia cobertura de televisão, não havia internet, os resultados chegavam por carta ou rádio quando chegavam. No Brasil, alguém que soubesse o que tinha acontecido em Bastad no dia 7 de julho de 1975 tinha acesso a um nível de informação que poucos possuíam.


"O pessoal não sabe o que eu joguei e ganhei. Na época não tinha televisão, internet, nada disso. O acesso à informação era difícil. Se perguntar para os tenistas o que eu fiz, ninguém sabe. Só quem acompanhava naquela época", disse o gaúcho à Nittenis.


Mandarino e Koch (Reprodução/Instagram)
Mandarino e Koch (Reprodução/Instagram)

Koch jogou numa era em que se sustentava no circuito sem luxos, em que dividia quartos de hotel com Edison Mandarino durante as turnês europeias, em que o prêmio de um título podia ser um relógio. "Em 1964, fui campeão de Gstaad aos 19 anos. O prêmio foi um relógio. Tenho dois relógios de lá porque fui vice em 1965 e recebi mais um. Nem dá para diferenciar o prêmio do campeão do de vice", contou, sempre com o mesmo humor, sobre o torneio suíço.


O que Borg se tornou depois

A dimensão da vitória só ficou completamente clara com o tempo. O garoto de 19 anos que Koch derrotou naquele julho foi o mesmo que, dois anos depois, se tornaria número 1 do mundo. O mesmo que ganharia cinco Wimbledons consecutivos de 1976 a 1980. O mesmo que completaria seis títulos em Roland Garros antes de se aposentar, chocando o mundo, aos 26 anos. O mesmo sobre quem Arthur Ashe diria décadas depois à Sports Illustrated: "Ele era maior do que o jogo. Era como Elvis ou Liz Taylor."


Koch e Borg cruzaram caminhos mais uma vez: quando o gaúcho participava da Koch Tavares, sua empresa de promoção de eventos, trouxe Borg ao Brasil. "Quando eu participava da Koch Tavares, com o Luís Felipe Tavares, a gente trouxe para o Brasil praticamente todos os tenistas. Rod Laver, John Newcombe, Guillermo Vilas, Björn Borg", lembrou à A Voz do Tênis.


Uma lista que cresce e uma história que o Brasil desconhece

Esta reportagem nasceu da discussão sobre os brasileiros que já venceram tenistas que ocupavam o número 1 do mundo, reacendida pela segunda rodada de João Fonseca contra Carlos Alcaraz em Miami.


Com essa temática, a Nittenis relembrou, em matéria especial, a história do tênis nacional: Gustavo Kuerten venceu três duelos contra líderes do ranking, e Flávio Saretta, com sua zebra improvável de 11 de setembro de 2001, no Sauípe, entrou na lista ao bater justamente o então ocupante do topo Guga.


"Essa história do Saretta aconteceu comigo e Borg em Bastad, Suécia, quando ganhei dele nas quartas de final de simples por 6-3, 6-2, e ele era 1 do mundo", nos escreveu Kock, ao ler o artigo.


Com a ressalva técnica de que Borg não era o número 1 oficial em julho de 1975, mas era o maior fenômeno do tênis mundial, bicampeão de Roland Garros, ídolo nacional jogando em casa, super favorito ao título, resolvemos relembrar essa história e homenagear nosso gaúcho multicampeão.


Relembrar é viver

Thomaz Koch é um dos pilares da formação do tênis brasileiro. Em uma era em que o país ainda orbitava o circuito internacional, ele se afirmou entre os melhores do mundo, e acumulou grandes feitos: chegou às quartas de final de três torneios de Grand Slam (Roland Garros, Wimbledon e US Open), conquistou inúmeros títulos de peso no circuito, além de erguer o troféu de duplas mistas em Roland Garros, em 1975, ao lado de Fiorella Bonicelli.


Por falar em duplas mistas, vale lembrar: contemporâneo e parceiro de Maria Esther Bueno, maior nome do país no esporte, formou com ela a parceria mais emblemática da história do tênis brasileiro, com resultados expressivos como a prata nos Jogos Pan-Americanos de 1963, em São Paulo, o vice no Aberto de Roma no mesmo ano e a semifinal em Roland Garros em 1964. Embora nunca tenham conquistado juntos um Grand Slam, ambos venceram em Paris com outros parceiros. Por décadas, foram os únicos brasileiros campeões de Slam em duplas mistas.


Mais do que resultados, o gaúcho ajudou a redefinir o que era possível para um tenista brasileiro, transformando exceção em realidade e deixando um legado, um horizonte, que seria continuado décadas depois por nomes como Gustavo Kuerten, Marcelo Melo, Bruno Soares, Beatriz Haddad Maia, Luísa Stefani, e, quem sabe, um dia, João Fonseca, Guto Miguel, Nauhany Vitória, Victória Barros...


“Fui muito feliz de ter participado dessa vida como tenista, aprendi muita coisa através do tênis”, afirmou em entrevista recente. “Me sinto muito privilegiado de ter jogado e conhecido o mundo, de que outra forma eu conseguiria isso? Até hoje curto o som a bolinha de tênis. Para quem gosta de música e escuta a bola de tênis, é uma coisa hipnótica. Sorte de quem pode sentir esse amor pelo tênis”.

A vitória em Bastad dorme nos arquivos. A maioria dos brasileiros que hoje acompanham João Fonseca talvez não saibam. Ninguém transmitiu. Não havia internet para registrar. Mas o feito é eterno: Koch 6-3, 6-2 Borg, num saibro sueco, num verão de 1975, enquanto a torcida de Bastad ficava sem saber o que dizer.


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Esta matéria integra a série especial sobre brasileiros que venceram os maiores do mundo no tênis. Leia também: "O 11 de setembro e o chefão que queria matar o moleque que venceu o número 1 Guga Kuerten".


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