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O 11 de setembro e o chefão que queria matar o moleque que venceu o número 1 Guga Kuerten

  • há 4 horas
  • 7 min de leitura

Havia um funcionário no balcão da sala de encordoamento da Costa do Sauípe que resumiu, involuntariamente, tudo o que o mundo do tênis pensava sobre Flávio Saretta em setembro de 2001. Quando o paulista de 20 anos chegou com sete raquetes para encordoar antes do jogo do dia seguinte, o funcionário perguntou, com a naturalidade de quem está fazendo conversa fiada, contra quem ele ia jogar.


Saretta disse: contra o Guga.


O funcionário olhou para ele e perguntou: você vai encordoar a raquete pra quê?


Saretta pediu que as sete estivessem prontas às oito da manhã, e se retirou para os seus aposentos. Afinal, era preciso dormir e descansar para a batalha iminente.


Flávio Saretta, André Sá e Guga Kuerten em uma das vitórias do Brasil na Davis (Reprodução)
Flávio Saretta, André Sá e Guga Kuerten em uma das vitórias do Brasil na Davis (Reprodução)

Faltou combinar com os russos, digo, Saretta

Para entender o tamanho do estrago que viria, é preciso entender como o Brasil Open havia sido pensado. O complexo da Costa do Sauípe era um resort de luxo com cinco hotéis e praia particular, o tipo de lugar que o europeu visitava para pagar quinze reais num café e sair satisfeito com a vida. A organização havia feito os cálculos com precisão. O melhor tenista do mundo estava inscrito, o resort estava 100% reservado a partir de quinta-feira, e a Record iria transmitir o jogo em TV aberta. Tênis na TV aberta. Em 2001. Pense no tamanho do evento.


A lógica do público era igualmente precisa. O maridão bem-sucedido chega em casa, encontra a mulher pronta, propõe a viagem: Sauípe na quinta, amor. Final de semana na Bahia. As crianças ficam na praia, água de coco, a gente vê o Guga jogar. Reserva a partir de quinta porque o Guga faz a esteia na terça, descansa quarta e volta para a segunda rodada na quinta. Une o útil ao agradável. Está feito.


O Brasil Open foi realizado para o Guga jogar. Com apenas esse intuito, ponto. Os brasileiros queriam ver o número 1 do mundo vencendo de perto, em casa. Só faltou combinar com Flávio Saretta.


O convite, Curitiba e o problema das cordas

A organização do Brasil Open havia prometido um convite para o vencedor de um torneio que acontecia na capital paranaense na semana anterior ao ATP na Bahia. Era um gesto simpático: dava para contar para a família, não ia atrapalhar nada, o campeão iria jogar uma rodada no Sauípe e voltar para casa com uma boa história. Saretta ganhou as quartas. Ganhou a semifinal. Ganhou a final em Curitiba. E pegou o voo rumo ao calor baiano.


Na segunda-feira, o sorteio da chave saiu. Primeira rodada: Saretta, 114º do mundo, contra Gustavo Kuerten, número 1 do mundo, tricampeão de Roland Garros há menos de dois meses.


O problema das raquetes era técnico mas urgente. Curitiba fica a quase 900 metros de altitude. Na Costa do Sauípe, nível do mar, a bola fica mais pesada, o jogo mais lento. A tensão das cordas que funcionava no Paraná não funcionava na Bahia. Saretta passou a tarde de segunda inteira tentando ajustar e não achava o ponto certo. Levou as sete raquetes para o encordoamento, ouviu a pergunta do funcionário, pediu as raquetes para as oito da manhã e foi embora. Jogaria às onze com o número 1 do mundo, num torneio criado especificamente para o número 1 do mundo, num resort onde absolutamente todo mundo estava esperando o número 1 do mundo.


O dia que escolheu Saretta

Na manhã do jogo, os americanos presentes no torneio estavam em prantos. Um avião havia atingido a Torre Norte do World Trade Center em Nova York. Ninguém sabia ainda se era acidente ou ataque. Um tempo depois, o segundo avião retirou qualquer dúvida. O desfecho dessa história todo o mundo conhece.


O Brasil Open continuou. A Record, que transmitiria o jogo, tirou o sinal do ar. O mundo tinha outras imagens para mostrar. Saretta, ao descobrir que não haveria transmissão, teve um pensamento honesto: puta, que bom. Ninguém vai ver o pau que eu vou tomar. Fui jogar com o Guga.


O primeiro set foi de Gustavo Kuerten. O segundo foi de Saretta. No terceiro, Guga entrou numa discussão com o árbitro, saiu do ritmo, abriu espaço. Saretta abriu 4 a 2. Quando sacou para o jogo, não deixou passar a oportunidade. Final: 4/6, 6/2 e 6/4, em quase duas horas, no dia em que o mundo tinha outras coisas para processar.


Do lado de fora da quadra, a imprensa da América do Sul inteira esperava. Era o número 1 do mundo. Era o Guga. E o Guga tinha acabado de perder para um moleque que o funcionário do encordoamento havia considerado incapaz de precisar de raquete nova.


"Me perguntaram quem eu era, de onde eu havia surgido. Qual era a sensação de vencer o Guga. Eu falei: 'Velho, eu não tenho a menor noção da sensação que é ganhar'", contou Saretta ao Flow Sport Club em 2022. E lembrou que falou aos repórteres que não acreditava no feito que acabara de realizar, e que ninguém em casa também acreditaria. "O jogo não passou em lugar nenhum. Se eu ligar pro meu pai, ele vai duvidar que eu ganhei do Guga. Pai, ganhei do Guga. Ele vai falar: 'Tá bom, filho, ganhou sim, para de conversa, ganhou nada'."


80% de cancelamentos e o corredor

Com a eliminação na terça, as reservas foram cancelando em cascata. Saretta estima, décadas depois, que cerca de 80% do resort esvaziou. O torneio chegou à final com cinquenta pessoas na arquibancada. Cinquenta. Numa estrutura construída para milhares, erguida sobre a premissa de que o maridão bem-sucedido estaria ali por todo o final de semana para ver o Guga jogar.


Dias depois, Saretta foi à sala da organização pedir um transporte para o aeroporto. Próximo torneio, Buenos Aires. Os funcionários olhavam torto, um deles saiu de perto sem responder. Saretta deu uns cinco passos no corredor e ouviu, pela porta da sala do chefão, ele esbravejar: "esse p*rra desse moleque, nós demos o convite pra ele, ele veio e f*deu o torneio!"


Saretta foi para a Argentina sem comentar nada.



2007: o mesmo resort, a mesma zebra, e o Guga cachorrinho de táxi

Seis anos depois, o Brasil Open ainda existia, agora no saibro. Guga voltava de um calvário de lesões no quadril, ranqueado na casa dos quatro dígitos, jogando com wildcard, tentando encontrar algo que havia perdido. Sim, Kuerten naquele momento não estava nem no top 1000. Saretta era o 152º. Os dois se cruzaram nas oitavas de final. Saretta venceu o primeiro set. Guga reagiu e fechou o segundo. O terceiro foi duro, ponto a ponto, nenhum dos dois cedendo.


Aí começou o coro.


Um erro de saque de Saretta, boa parte da torcida comemorou. Ele achou estranho. No ponto seguinte, mais uma comemoração. Depois a arquibancada toda, unida, em peso: "Ino, ino, ino, Saretta é argentino. Ino, ino, ino, Saretta é argentino".


Saretta olhou para Guga esperando alguma coisa, algum gesto do ex-número 1 do mundo para a torcida. Guga olhava para a raquete com o pescoço levemente inclinado, completamente alheio aos olhares de Flávio. Não estava vendo nem ouvindo absolutamente nada ao redor.


Saretta entendeu que não ia ter ajuda. Continuou jogando e venceu o terceiro set por 7 a 5. "Eu tava tão puto que não quis nem comemorar, mano". Foi até a rede, estendeu a mão pro Guga friamente, guardou os equipamentos e saiu andando.


No dia seguinte, na piscina do resort, o complexo inteiro passava para dizer que estava na torcida. Ô menino, torci muito por você ontem. Saretta agradecia de forma irônica, sem acreditar em ninguém, um por um. Sabia exatamente que aquelas pessoas não tinham torcido por ele. Mas agora era o único brasileiro ainda vivo na competição.


"Tá todo mundo fudido que vai ter que torcer pra mim. Não tem o que fazer, vai torcer pra um tcheco?", contou ao Flow Podcast.


A lista que Fonseca quer entrar

Saretta chegou ao 44º lugar do ranking em 2003, conquistou o ouro pan-americano em 2007 e encerrou a carreira em 2009. Em três partidas contra Guga, venceu duas vezes. Sendo uma vitória quando o catarinense era número 1 do mundo. Os dois triunfos foram no Sauípe, ambas de virada, ambas com a torcida contra.


Entrou para a história como o único brasileiro a derrotar um compatriota que era, ao mesmo tempo, o líder do ranking mundial. Uma combinação que só existiu porque Guga era o Guga, e porque havia um moleque de vinte anos disposto a encordoar sete raquetes para jogar com o número 1 do mundo enquanto o funcionário do balcão ria por dentro.


Até hoje, só Saretta e Guga dividem o feito no país de terem vencido tenistas que ocupavam o topo do ranking. Kuerten venceu o número 1 do mundo três vezes ao longo da carreira.


A primeira foi em 1999, quando superou o então número 1 do mundo Yevgeny Kafelnikov nas oitavas do Masters de Roma. Em dezembro de 2000, na Masters Cup de Lisboa, derrubou Pete Sampras na semifinal por 6/7, 6/3 e 6/4, abrindo caminho para a final histórica contra Agassi. A última, e talvez a mais improvável, veio em 2004: Guga, já com o quadril destruído, varreu Roger Federer de Paris com um triplo 6/4, impondo ao suíço sua única derrota em Grand Slam como número 1 naquele ano. Foi a última vez que um brasileiro venceu o líder do ranking. Faz 22 anos.


Nesta sexta em Miami, João Fonseca enfrenta Carlos Alcaraz com transmissão garantida. O mundo não está exatamente bem, mas esperamos que o suficiente para a TV não alterar a programação de exibição do tênis.


Se Fonseca vencer, a lista chega a três.


Se perder, Saretta ainda pode ligar para o pai e contar que ainda divide a lista só com Guga.


Esta matéria integra a cobertura especial da segunda rodada do Masters 1000 de Miami 2026. Leia também: ["Se Fonseca bater Alcaraz, será o terceiro brasileiro a vencer um número 1. Relembre os outros dois"]



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