O fenômeno peruano: como Ignacio Buse está reescrevendo a história do tênis andino
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Nesta primavera, as capas esportivas do Peru deixaram o futebol de lado por alguns instantes. O motivo foi um tenista de 22 anos, sorriso fácil, forehand carregado de topspin e um sobrenome que já ecoava na história do esporte peruano: Ignacio Buse.
Na segunda-feira passada, Buse alcançou o melhor ranking da carreira ao subir para o número 57 do mundo, superando marcas históricas do tênis local recente. Ultrapassou Juan Pablo Varillas, que chegou ao número 60 do mundo em 2023. Mas o salto foi apenas o começo.

Em Hamburgo, Buse volta a reescrever a história. Nesta sexta-feira, 22 de maio, derrotou Aleksandar Kovacevic por 6/1 e 6/4 e se tornou o primeiro peruano a alcançar uma final do ATP Tour desde Luis Horna, em Viña del Mar 2007 — quando o atual número 57 do mundo ainda tinha 2 anos. O ranking presente já ficou no passado: a final na Alemanha o coloca provisoriamente no 36º lugar, quarta melhor posição já ocupada por um tenista do Peru na história. Se for campeão, cola em Fonseca, 30º da lista.
Agora, o jovem de 22 anos mira marcas ainda mais históricas: adentrar o Top 30 alcançado por Pablo Arraya, e, no longo prazo, desafiar o lendário número 18 de Jaime Yzaga, recorde peruano na Era ATP.
É a posição mais alta alcançada por um peruano em décadas e a confirmação de que o país finalmente voltou a ter um jogador capaz de competir entre os principais nomes do tênis mundial.
Um sobrenome gravado na pedra

Para entender Ignacio Buse, é preciso entender o peso do seu sobrenome.
No distrito de Jesús María, em Lima, fica o histórico Club Lawn Tennis de la Exposición, considerado a casa espiritual do tênis peruano desde 1884. O estádio principal do clube se chama Hermanos Buse, batizado em homenagem ao avô paterno de Ignacio, Eduardo Buse, e ao irmão gêmeo dele, Enrique Buse.
Os dois foram jogadores importantes em meados do século XX. Enrique chegou a disputar Wimbledon e o US Open em 1946, além de retornar ao Grand Slam americano em 1951.
Ignacio nunca conheceu o avô, mas cresceu cercado por esse legado. "Carrego o sobrenome com honra", disse à imprensa peruana. "Sei que herdei pequenas coisas do meu avô".

Seu pai, Hans Buse, também teve carreira relevante, sendo campeão sul-americano de simples e duplas antes de virar treinador. As primeiras memórias de Ignacio não envolvem escola ou brincadeiras infantis, mas sim o Country Club de Villa, onde Hans trabalhava como técnico principal.
"Aprendi com ele desde os dois ou três anos. Basicamente cresci com uma raquete na mão", contou Buse em entrevista ao ATP Tour. "Às vezes eu ficava muito bravo porque ele me ganhava… mas ele era competitivo e também não queria perder."
A árvore genealógica da família ainda reserva conexões inesperadas. Pelo lado materno, Ignacio é sobrinho de Gastón Acurio, chef mundialmente famoso e um dos grandes responsáveis pela internacionalização da culinária peruana.

Quando criança, Ignacio chegou a cogitar seguir o mesmo caminho do tio. "Eu dizia para minha mãe que queria ser chef", revelou à revista CLAY. A mãe o desencorajou, explicando a rotina pesada da profissão. "Você ama estar numa quadra de tênis e não vai gostar da outra vida", disse ela.
Ele acabou ficando no tênis, embora continue cozinhando muito bem, especialmente salmão assado com massa.
O longo jejum do tênis peruano
Para compreender o tamanho do que Buse representa, é preciso entender o hiato que ele tenta preencher.
O tênis não é um esporte popular no Peru. O futebol domina praticamente todos os espaços da cultura esportiva, dos Andes à Amazônia. Ainda assim, o país produziu alguns talentos importantes ao longo das décadas, em ondas curtas e espaçadas.
O pequeno, porém respeitado, panteão do tênis peruano inclui:
Jogador | Era / período | Melhor ranking ATP | Destaques |
Alex Olmedo | Anos 1950–1960 | Nº 2 | Hall da Fama; campeão de Wimbledon e da Davis Cup |
Jaime Yzaga | Anos 1980–1990 | Nº 18 | 8 títulos ATP; vitória sobre Pete Sampras no US Open |
Pablo Arraya | Anos 1980 | Nº 29 | Campeão ATP; semifinalista em Roma |
Luis Horna | Anos 1990–2000 | Nº 33 | Campeão de Roland Garros nas duplas em 2008 |
Juan Pablo Varillas | Anos 2010 – Atualidade | Nº 60 (em 2023) | Recolocou o Peru no Top 100 após décadas |
Carlos Di Laura | Anos 1980 | Nº 92 | Especialista de Davis Cup |
Iván Miranda | Anos 1990–2000 | Nº 104 | Veterano da seleção peruana |
Quando Buse nasceu, em março de 2004, Luis Horna acabava de atingir o auge da carreira, como número 33 do mundo. Quando Ignacio começou a levar o tênis a sério, Horna já estava aposentado.
O intervalo entre gerações parecia enorme. Juan Pablo Varillas reacendeu alguma esperança ao entrar no Top 100 em 2022, mas não conseguiu sustentar o embalo. Quando Buse entrou no Top 100 no início de 2026, tornou-se apenas o sexto peruano da Era Aberta a alcançar a marca.
Um sul-americano diferente
Buse quebra estereótipos.
É peruano, mas não se encaixa no molde clássico do sul-americano especialista em saibro. Prefere atacar. Gosta de quadras rápidas. Tem topspin pesado, backhand de duas mãos natural e um saque cada vez mais potente.
Também é conhecido pelo perfil tranquilo fora das quadras. Estuda negócios online entre torneios, acompanha o Club Universitario de Deportes, de Lima, e, desde que se mudou para a Espanha, também o Futbol Club Barcelona.
"Ele é muito próximo da família. Gosta de se vestir bem e entende muito de comida por causa do tio chef", contou um ex-treinador.
Sua humildade virou marca registrada. Depois de grandes vitórias, raramente faz comemorações exageradas. "Claro que não quero que isso seja o auge", afirmou após um título Challenger. "Estou trabalhando duro para continuar subindo."
O grande sonho? "Chegar a uma final de Grand Slam um dia."
A mudança de rumo: do sonho universitário ao circuito profissional
A trajetória profissional de Buse tem uma bela história de força do acaso, apesar de, como juvenil, ter sido considerado um tenista muito promissor. Chegou ao número 9 do ranking mundial juvenil da ITF, disputou os quatro Grand Slams da categoria e foi finalista de duplas juvenis em Roland Garros 2022 ao lado do compatriota Gonzalo Bueno.
Mesmo assim, o plano inicial não era virar profissional imediatamente. Buse pretendia jogar tênis universitário nos Estados Unidos. Tinha nível técnico para isso, mas um imbróglio acabou mudando completamente sua vida.
"Houve um problema com os papéis de residência e não deu certo", contou Buse sobre o antigo plano de jogar o circuito College na América.
Aos 18 anos, e o american dream interrompido, tomou a decisão que mudaria sua carreira: mudar-se para a Europa.

Em dezembro de 2023, foi para Barcelona treinar na TEC Carles Ferrer Salat Academy, trabalhando com o técnico Juan Lizariturry e tendo mentoria de Albert Costa. "As condições de treino são simplesmente melhores lá", contou.
Costa teve influência não apenas técnica, mas mental. "Não importa se eu fizer três duplas faltas seguidas. Ele só quer que eu esteja 100% preparado para o próximo ponto."
Na época, ainda longe da elite do circuito, ele tentou enxergar o contratempo de forma positiva: "Agora estou jogando profissionalmente e muito convencido de que posso chegar ao Top 100. Ainda bem que não funcionou."
Tempos depois, a frase ganhou contornos proféticos. Buse não apenas alcançou o Top 100, ele atravessou a barreira e já ameaça entrar no Top 30.
A explosão: 2025–2026
A ascensão de Buse não foi repentina. Em outubro de 2023, conquistou seu primeiro título ITF em Mendoza, na Argentina. Em junho de 2025, venceu o primeiro Challenger da carreira em Bad Rappenau, na Alemanha. Meses depois, levantou mais um troféu Challenger na Copa Sevilla.
Antes do troféu no saibro espanhol, batendo na final o atleta da casa Pablo Llamas Ruiz em sets diretos, Buse havia conquistado, vale destacar, suas primeiras vitórias em nível ATP, chegando à semifinal do torneio suíço de Gstaad. A imprensa peruana entrou em êxtase.
"Histórico!", estamparam as manchetes.
O herói da Davis
Se o circuito profissional apresentou Buse ao mundo, a Copa Davis o transformou em herói nacional no Peru.
Em setembro de 2025, o país enfrentou Portugal pelos playoffs do Grupo Mundial I da competição, justamente no Estadio Hermanos Buse, em Lima.
Portugal chegava como favorito, liderado por Nuno Borges, então número 38 do mundo. Mas o duelo rapidamente se transformou em um dos momentos mais simbólicos da história recente do tênis peruano.
Após Gonzalo Bueno abrir vantagem ao surpreender Borges no primeiro dia, a responsabilidade caiu sobre Buse. Ele não sentiu a pressão e respondeu de forma avassaladora.
Primeiro atropelou Jaime Faria por 6/0 e 6/2, ampliando a série e incendiando a torcida em Lima. No dia seguinte, voltou à quadra para conquistar o ponto decisivo. Jogando duplas com Varillas, perderam em dois sets. Mas, na sequêncoia, selou a classificação peruana: 3/6, 6/3 e 6/2 sobre Borges.

Foi uma cena perfeita para o imaginário esportivo do país: o neto de Eduardo Buse conduzindo o Peru à vitória justamente no estádio que carrega o sobrenome da família.
A classificação colocou o país andino nos Qualifiers da Davis Cup, a etapa que valia vaga na elite do torneio, o Grupo Mundial da competição. Pela primeira vez em muitos anos, o país voltava a sonhar com a fase principal da competição contra as maiores potências do tênis mundial.
"A maior honra", resumiu Buse sobre defender as cores de seu país.
(Em fevereiro de 2026, o sonho foi interrompido em Düsseldorf. A Alemanha bateu o Peru por 4-0, com Buse ainda se recuperando de uma lesão arrastada do fim de 2025, poupado dos jogos de simples e usado apenas na duplas ao lado de Arklon Huertas Del Pino. O time de Luis Horna voltou ao Grupo Mundial I e, em setembro, receberá o Paraguai em Lima).
Rio de Janeiro, fevereiro de 2026
Foi no Rio Open que Ignacio Buse deixou de ser apenas uma promessa do circuito Challenger para se apresentar ao grande público do tênis mundial.
Sua campanha começou com a vitória mais impactante da carreira até então: um triunfo sobre Matteo Berrettini por 6/3, 2/6 e 6/3. A imprensa italiana descreveu a atuação do peruano como "um tênis de outra era": sólido, paciente e sufocante, forçando 35 erros do europeu finalista de Wimbledon.
Nas oitavas de final, veio o momento que incendiou o torneio. Diante de uma Quadra Guga Kuerten lotada, Buse eliminou o brasileiro João Fonseca em um dos jogos mais tensos daquela edição do Rio Open. O peruano salvou três break points consecutivos em 0/40 no set decisivo enquanto era vaiado pela torcida entre o primeiro e o segundo saque.

"Foi duro e especial enfrentar o Fonseca aqui", afirmou depois da partida. "Somos bons amigos e desejo o melhor para ele."
A sequência histórica levou Buse até a semifinal do ATP 500 carioca, onde acabou derrotado pelo chileno Alejandro Tabilo por duplo 6/3. Tabilo avançaria à final do torneio, sua primeira decisão em nível ATP 500, mas terminaria vice-campeão após perder para o argentino Tomás Martín Etcheverry.
Mesmo com a derrota, a campanha no Rio representou a primeira vez que o tênis mundial enxergou Ignacio Buse como algo maior do que uma promessa sul-americana.
A febre Buse no Peru
No Peru, Ignacio Buse virou algo raro: um tenista que transcende o próprio esporte.
Jornais como El Comercio, Depor e Perú21 acompanham sua trajetória quase em tempo real. TVs abertas passaram a transmitir jogos da Davis Cup. Vídeos de suas vitórias viralizam no TikTok e no Instagram. Mais do que um fenômeno esportivo, Buse se transformou em símbolo cultural.
Representa uma geração de jovens peruanos capaz de competir no cenário global sem abandonar suas raízes. Treina em Barcelona, mas carrega Lima consigo. Como definiu a revista CLAY, é "a jovem estrela que escolheu a quadra em vez da cozinha".
Hamburgo 2026: o salto no ranking
Em maio de 2026, no ATP 500 de Hamburgo, Buse deu o maior salto da carreira.
Vindo do qualifying, derrotou logo na estreia o então campeão defensor Flavio Cobolli, número 12 do mundo, por 6/2 e 7/5 sem enfrentar um único break point.
"Eu sabia que podia ganhar", afirmou após a vitória sobre Cobolli. "O nível é muito parecido e, se eu tiver em um bom dia, consigo competir."
Depois atropelou o tcheco Jakub Mensik para avançar às quartas de final. Então veio o dia 21 de maio. Diante do francês Ugo Humbert, Buse travou uma batalha de 2h47min e venceu por 6/3, 5/7 e 6/3, virando de um 0/3 no terceiro set.
Na semifinal, nesta sexta, veio o golpe definitivo. Buse atropelou o americano Aleksandar Kovacevic, lucky loser que vinha surpreendendo no torneio após eliminar Félix Auger-Aliassime e o argentino Camilo Ugo Carabelli, por 6/1 e 6/4 em apenas 64 minutos. Converteu quatro dos cinco break points que teve. Não enfrentou nenhum. Ganhou 93% dos pontos com o primeiro saque, 86% com o segundo, e cometeu sete erros não forçados contra 28 do adversário.
Na conta histórica de finais ATP da Era Aberta, os peruanos chegam a 20 decisões: Yzaga lidera com 11, Arraya tem 5, Horna 3, e agora Buse abre seu próprio registro. Em Hamburgo, ele será também o sexto jogador a sair da qualificação e chegar à final do torneio desde 1990. Três dos cinco antecessores terminaram campeões: Roberto Carretero (1996), Albert Portas (2001) e Nikoloz Basilashvili (2018). Richard Gasquet, em 2005, e Federico Delbonis, em 2013, pararam na decisão.
A final será contra o americano Tommy Paul, sexto pré-classificado, que bateu o australiano Alex de Minaur, terceiro cabeça de chave.
Roland Garros no horizonte: o desafio Rublev
Buse assegurou vaga direta na chave principal de Roland Garros, apenas sua segunda participação no Grand Slam parisiense. O sorteio, porém, não ajudou. Seu adversário será Andrey Rublev, cabeça de chave número 11 e um dos jogadores mais agressivos do circuito no saibro.
No ano anterior, o peruano sequer havia conseguido passar pelo qualifying em Paris. Agora chega como jogador consolidado, embalado por vitórias sobre Cobolli, Mensik, Humbert e Kovacevic no saibro europeu.
Editorial
O duelo contra Rublev representa o choque entre potência estabelecida e confiança em ascensão, um jogo que, independentemente do resultado, marca o retorno do Peru ao palco principal do tênis mundial.
Aos 22 anos, provisoriamente como número 36 do mundo, com uma semifinal e uma final de ATP 500, dois títulos Challenger e status de herói nacional da Davis Cup, Ignacio Buse parece estar apenas começando.
Ele já superou as melhores marcas de Juan Pablo Varillas, Luis Horna e Pablo Arraya. E, mantendo a trajetória atual, pode se tornar o peruano mais bem ranqueado desde o número 18 de Jaime Yzaga em 1989.
Mas Buse parece menos interessado em comparações do que no próprio processo.
"As coisas finalmente estão se encaixando", disse recentemente.
Com uma estrutura sólida em Barcelona, um sobrenome que inspira em vez de pesar e um país inteiro voltando a olhar para o tênis com intensidade de Copa do Mundo, Ignacio Buse não é apenas um fenômeno. É a prova viva de que o tênis peruano voltou a ter importância.
O estádio em Lima carrega o sobrenome da família. Agora, seu nome também.
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