O nível do tênis caiu ou Sinner e Alcaraz são bons demais? O debate que Safin abriu
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O russo Marat Safin acha o tênis atual quase ridículo. Já o norte-americano Andre Agassi, ao vivo pela BBC durante a semifinal de Wimbledon, disse que só um jogador de sua geração aguentaria o nível de hoje. Dois campeões de Grand Slam, dois veredictos opostos sobre a mesma pergunta: o domínio de Jannik Sinner e Carlos Alcaraz é a prova de que o circuito decaiu, ou de que os dois realmente jogam num patamar histórico fora de série?

A discussão não é nova, mas ganhou combustível na semana do bicampeonato de Sinner em Londres. Desde o início de 2024, o italiano e o espanhol dividiram nove dos dez últimos Grand Slams. É uma hegemonia de dois nomes, sem terceiro convidado.
(Sinner venceu o Australian Open de 2024; Alcaraz, Roland Garros e Wimbledon no mesmo ano; Sinner, o US Open de 2024 e o Australian Open de 2025; Alcaraz, Roland Garros de 2025; Sinner, Wimbledon de 2025; e Alcaraz, o US Open de 2025 e o Australian Open de 2026. Wimbledon 2026, com Alcaraz fora por lesão no punho, ficou com Sinner).
"Não os considero jogadores intimidantes"
Safin foi quem acendeu o pavio. Em conversa no YouTube ao lado da irmã, Dinara Safina, e da também ex-tenista russa Anna Chakvetadze, o campeão do US Open de 2000 e do Australian Open de 2005 não amaciou o discurso.
"Acho que provavelmente perderia para eles, mas não os considero jogadores intimidantes. Não, eles não são o Federer, é um nível completamente diferente. Para chegar ao nível do Federer, você ainda tem muito a evoluir", disse Safin.
O russo fez questão de dizer que não pretendia diminuir ninguém, mas manteve a tese. "Não quero menosprezar ninguém. É simplesmente a minha maneira de ver as coisas. Se Sinner e Alcaraz tivessem jogado na era de Nadal e Djokovic, ou mesmo no início dos anos 2000, eles não teriam sido número 1 ou 2 do mundo. Acho que não teriam chegado tão longe", afirmou.

O argumento central de Safin não é sobre os dois líderes. É sobre tudo o que está atrás deles. "O nível do tênis caiu. Não sei por que isso aconteceu, mas o nível não é mais o mesmo. Antes, havia 30 ou 50 jogadores capazes de jogar um tênis extraordinário. Agora, no máximo há dez. Eles chegam às semifinais ou finais sem perder um único set. Acho isso quase ridículo", disparou o russo, hoje treinador de Andrey Rublev.
E completou com a saudade que move boa parte de sua tese: a da especialização. "Antes, havia especialistas em grama, especialistas em saibro e especialistas em quadra dura. Havia muitos jogadores capazes de competir no mais alto nível, dependendo da superfície", comentou. É uma leitura romântica de um tempo em que o favorito suava desde a primeira rodada. Safin sente falta desse suor alheio.
Os números que dão munição aos dois lados
Aqui a estatística é ambígua de propósito, porque serve às duas narrativas. Desde o começo de 2024, Sinner conquistou 34 vitórias em sets diretos nos Grand Slams, 70,8% de seus jogos, contra 19 de Alcaraz. No cômputo de sets, o italiano soma 139 a 22 (86,3%), enquanto o espanhol vai de 116 a 36 (76,3%). Para quem lê como Safin, esses passeios até a final são o sintoma. Para quem lê ao contrário, são a assinatura de dois jogadores operando num patamar que o resto não alcança.
Há ainda o dado que Safin talvez prefira ignorar: um décimo Grand Slam seguido colocaria a dupla ao lado de Nadal e Djokovic, que encadearam nove majors, e à sombra de Federer e Nadal, donos de 11 títulos consecutivos entre Roland Garros de 2005 e o US Open de 2007. A companhia é ilustre. Chamar de decadência um período que só encontra paralelo nas maiores rivalidades da história exige alguma coragem argumentativa.
Agassi, do outro lado do microfone
A resposta mais elegante a Safin veio horas depois, e por acaso. Comentando a semifinal em que Sinner atropelou Djokovic, Agassi resolveu brincar de comparar gerações, ao vivo pela BBC, e chegou a uma conclusão que é o avesso da do russo.
"Minha geração não conta. Há um cara que consigo pensar, da minha geração, que jogando seu melhor tênis poderia competir em um nível como este. Um cara e apenas um: Marat Safin. O grande russo. Esse cara conseguia sacar de cima das árvores", disse Agassi, em transmissão à BBC.

A ironia é deliciosa. O único nome que Agassi resgata para enfrentar Sinner e Alcaraz é justamente o de Safin, que acabara de decretar a inferioridade dos dois. Um olhou para trás com desprezo; o outro olhou para trás e só encontrou um par à altura do presente. E o oitocampeão de Grand Slam recusou o atalho fácil: poderia ter citado Pete Sampras, Michael Chang, Jim Courier ou a própria versão dele mesmo, e escolheu apenas um nome, ainda assim tratando Safin como exceção, não como regra.
McEnroe: "o nível mais alto que já vi"
Se Agassi respondeu de raspão, John McEnroe já havia batido de frente muito antes. Após a final épica de Roland Garros de 2025, o americano afirmou à TNT Sports que se poderia argumentar seriamente que tanto Sinner quanto Alcaraz seriam favoritos para bater Nadal, no melhor do espanhol, no saibro. "Mas esses dois caras agora, é como quando você assiste à NBA e diz que ninguém poderia ser melhor que Michael Jordan. O nível do tênis agora é o mais alto que já vi", disse McEnroe.
É a antítese perfeita de Safin. Onde o russo enxerga um circuito esvaziado, McEnroe enxerga o teto do esporte. Vale a ressalva de que nem todo mundo comprou a tese: o técnico Patrick Mouratoglou discordou publicamente, argumentando que o jogo de Nadal era tão adaptado ao saibro que seria difícil imaginar qualquer um dos dois como favorito contra ele em uma final de Roland Garros. O debate, como se vê, não tem consenso nem entre os que defendem a geração atual.
Roddick e o retrato do domínio
Andy Roddick, campeão do US Open de 2003, ficou do lado do presente com uma pilha de dados. Sobre o bicampeonato de Sinner em Wimbledon, o americano foi só elogio em seu podcast.
"Foi domínio absoluto. Sinner não sofreu nenhuma quebra de serviço contra (Novak) Djokovic, o melhor devolvedor de saques da história, e Zverev. Ele enfrentou dois break-points, um por partida. Nos seus últimos 87 games de serviço contra Zverev, ele não sofreu nenhuma quebra. Se isso não é uma forma de domínio absoluto", disse Roddick.
O ex-número 1 lembrou que o italiano perdeu apenas uma vez em seus últimos 40 jogos e minimizou a derrota em Paris. "E ainda estamos falando sobre isso. Ele deveria ter vencido Roland Garros, tudo bem. Mas essa derrota não o afetou", ponderou. Sobre a decisão em Londres: "Na final de Wimbledon, Zverev jogou uma partida praticamente perfeita, especialmente no primeiro set. Mas não foi o suficiente. Sinner tem 24 anos e já ganhou cinco Grand Slams. Não vejo nenhum sinal de que ele esteja diminuindo o ritmo e não acho que ele vá sofrer de fadiga mental", acrescentou.
Curiosamente, é aqui que Roddick e Safin quase se cruzam. Aquele domínio "quase ridículo" que o russo descreve com desdém é o mesmo "domínio absoluto" que o americano celebra com admiração. Os dados são idênticos. Muda o adjetivo, e o adjetivo é a opinião.
O eco de Djokovic no jogo de Sinner
Marion Bartoli, campeã de Wimbledon em 2013 e ex-número 7 do mundo, ofereceu talvez a resposta mais indireta e mais forte a Safin: se o nível caiu, alguém avisou o novo Djokovic? Na cobertura da BBC após a final, a francesa cravou a comparação.
"Acredito que o Sinner será o novo Djokovic pelos próximos dez ou quinze anos. A forma como ele soube suportar a pressão quando precisou e a maneira como conseguiu executar golpes extraordinários nos momentos decisivos me lembram muito o Novak", analisou.
Bartoli destacou como o italiano ganhou ritmo em Londres sem disputar eventos preparatórios na grama. Sinner precisou virar na estreia sobre o sérvio Miomir Kecmanovic e só voltou a perder um set na final, ao bater Zverev por 3 sets a 1, depois de eliminar o próprio Djokovic por triplo 6/4 na semifinal.
"Em Londres, ele foi encontrando seu melhor tênis aos poucos. Depois do susto na estreia, encontrou seu ritmo e voltou a mostrar um nível impressionante de domínio, agressividade e controle. Isso é o que os grandes campeões fazem", ponderou. A comentarista ainda elogiou Zverev, campeão de Roland Garros: "Sinner também soube sofrer na final de Wimbledon diante de uma das melhores versões de Alexander Zverev", afirmou.
Zverev, o candidato a furar a bolha
E o próprio Zverev entra na conta como argumento vivo contra a tese da mediocridade. Darren Cahill, treinador de Sinner, saiu da final de Londres impressionado com o alemão, agora número 2 do mundo.
"Sabíamos que ele era capaz. Só não sabíamos por quanto tempo ele aguentaria. Ele demonstrou uma resiliência incrível", comentou o australiano, que comparou a atuação com o duelo entre os dois nas semifinais do Masters 1000 de Miami, em março.
"No primeiro set em Miami, ele usou todas as suas direitas, jogou de forma muito agressiva, sacou muito bem e teve boas chances. Ele fez um trabalho fantástico. Se continuar jogando nesse nível e nesse estilo, já é um problema e continuará sendo um grande problema no futuro", disse Cahill.
Para o treinador, o título de Roland Garros mudou o alemão por dentro. "Dá para ver pela forma como ele está jogando agora que ele tem a confiança de um campeão de Grand Slam depois de vencer em Paris. Ele acredita mais em si mesmo, sabe que é capaz de vencer sete partidas em um torneio do Grand Slam", disse em entrevista à DPA. Se Safin lamenta a falta de rivais, Cahill parece estar apontando para um.
E o alemão não discorda de Cahill. Finalista pela primeira vez em Wimbledon, Zverev saiu de Londres convencido de que a distância para o topo encolheu, mesmo tendo ampliado para dez a série de derrotas seguidas para Sinner. Na coletiva, reconheceu o domínio do italiano sem se render a ele. "Eu acho que o desafiei hoje, não o suficiente, porque ainda estou aqui como o perdedor da partida. Mas eu vou continuar fazendo isso. Os grandes torneios ainda estão logo ali na esquina", disse.
Onde Safin vê um circuito rarefeito, Zverev vê um pelotão pequeno, porém real, tentando romper o cerco. "Ele ainda é o melhor do mundo e acredito que há apenas dois caras, talvez três, provavelmente com Novak, que podem desafiá-lo. Todos nós temos que trabalhar para esse objetivo", frisou o alemão. É a contabilidade de quem está por dentro: não 30 ou 50 jogadores extraordinários, como no tempo do russo, mas também não o vazio que Safin descreve.
O número 2 do mundo detalhou a própria evolução na temporada e o desejo de transformar o duelo de dois em disputa de três. "Este ano tem sido um progresso. Acho que eu tenho pressionado esses caras. Eu não os derrotei este ano, mas eu os levei ao limite, eu diria. Alcaraz na Austrália e Jannik talvez aqui, mesmo que tenha sido em quatro sets, foi apertado. Poderia ter ido para o quinto também", avaliou.
Há nessa fala uma dose de autoconsciência que o debate entre Safin e Agassi não alcança. Zverev sabe exatamente qual é o seu lugar, e não gosta dele. "Sempre houve essa conversa sobre quem seria o cara número 3. De certa forma, nos últimos anos, eu sempre fui o cara número 3. Eu estava apenas bem longe dos dois primeiros, mas eu sempre fui o terceiro de certa forma. Se eu puder me aproximar deles, entrar na briga para competir e vencer os grandes torneios ao lado deles, isso seria ótimo", acrescentou. Se ele conseguir, a tese da decadência perde seu principal sustentáculo: a ideia de que ninguém encosta.
O respeito, aliás, sobreviveu à décima derrota. Na cerimônia de premiação, o alemão descontou a frustração no humor. "Sim, em primeiro lugar, Jannik. Eu não gosto mais de você. Perdi para você dez vezes seguidas. Parabéns a Jannik. Ele mostrou mais uma vez por que é o melhor jogador do mundo", discursou diante do público, antes de estender o gesto à equipe de Sinner. "Vocês estão no topo agora, mas começaram fora do top 10 e trilharam seu caminho para se tornarem campeões de Grand Slam e número 1 do mundo. É definitivamente um esforço de equipe. Vocês realmente merecem isso." Um campeão que se constrói de baixo para cima, com o rival de plantão testemunhando: não é bem o retrato de um esporte que decaiu.
O que Cahill enxerga em Sinner
O time de Sinner, aliás, oferece a réplica mais silenciosa e mais convincente ao russo: ninguém trabalha tanto quem já venceu tudo por falta de adversário. Cahill destacou a capacidade de reação do italiano após a dolorosa derrota em Roland Garros.
"O que mais nos orgulha é sua capacidade de se levantar. Ele sofreu golpes muito duros durante estes anos, como os match-points perdidos contra Carlos [em Paris 2025] ou o que aconteceu este ano em Roland Garros. Mas, no dia seguinte, ele sempre nos liga para perguntar: 'O que fazemos agora? Quando voltamos a treinar? Qual é o próximo objetivo?'. Essa é a forma como ele entende o tênis e também a vida. Toda vez que recebe um golpe, volta mais forte", destacou o técnico.
Simone Vagnozzi, o outro treinador, reforçou que a evolução não parou, mesmo após cinco temporadas de trabalho. "Estamos muito satisfeitos com a evolução que ele teve durante estes cinco anos, mas ainda há muitas coisas para melhorar. Nosso projeto sempre foi transformá-lo em um jogador mais agressivo, que suba mais à rede e introduza mais variações em seu jogo, como as deixadas." Cahill emendou, em tom de brincadeira: "Isso sim… menos deixadas quando está sacando para ganhar a partida", disse aos risos.
Foi Cahill, aliás, quem invocou os grandes nomes que Safin usa como régua, só que para dizer o oposto. "Vimos isso com Federer, Nadal, Djokovic e Murray. Eles nunca deixaram de evoluir. Agora Zverev está jogando de uma forma diferente contra Jannik, Carlos vai voltar muito forte e isso obriga a continuar crescendo constantemente", afirmou o australiano.
Editorial: Um debate que não se resolve, e talvez seja esse o ponto
No fim, o desacordo entre Safin e Agassi diz menos sobre Sinner e Alcaraz do que sobre como o tênis julga o próprio presente. Durante o auge dos Big Three, também se dizia que Federer tinha adversários fracos, que Nadal dependia demais do saibro, que Djokovic jamais superaria os outros dois. O tempo apagou esses debates. A memória comprime anos de competição em um punhado de momentos lendários, e o que sobra parece sempre superior ao que está diante dos olhos.
Safin tem autoridade para falar: bateu Federer em uma das maiores semifinais da história do Australian Open, em 2005, enfrentou um jovem Nadal e viu Djokovic se transformar no jogador mais completo do esporte. Ninguém sentiu na pele, mais do que ele, o quanto o padrão subiu naqueles anos. O que não significa que ele esteja certo sobre agora. Daqui a vinte anos, outra geração de garotos vai surgir. E algum ex-campeão vai olhar para eles, franzir a testa e dizer que no seu tempo, no tempo de Sinner e Alcaraz, é que o tênis era jogado de verdade.
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