O paulista que até hoje se orgulha de ser o único brasileiro a ter batido Novak Djokovic
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Atualizado: há 10 horas
Desde que o sorteio de Roland Garros colocou João Fonseca e Novak Djokovic no mesmo lado da chave, o circuito repetiu a mesma frase: nenhum brasileiro jamais derrotou o sérvio no circuito profissional. É quase verdade.
Há 22 anos, um tenista de Jundiaí chamado Júlio Silva cruzou o caminho de um adolescente sérvio de 17 anos nos qualificatórios de um Challenger italiano e saiu vencedor. A partida aconteceu, o resultado está registrado em bases de dados independentes e o próprio Silva conta a história com riqueza de detalhes. O problema é que, na contabilidade oficial da ATP, ela simplesmente não existe.

O jogo que não aparece nos arquivos da ATP
Em 21 de junho de 2004, Djokovic tinha acabado de vencer seu primeiro título em nível Challenger, no torneio de Budapeste, poucas semanas antes. Chegou a Reggio Emilia, na Itália, para disputar os qualificatórios do Camparini Gioielli Cup ainda com ranking acima de 200 no mundo. Do outro lado da rede, um brasileiro de 24 anos que havia dormido numa estação de trem na Suíça na noite anterior por não ter dinheiro para pagar hotel.
"Se eu perdesse o jogo não teria dinheiro nem pra pagar o hotel. E ainda bem que joguei demais da conta", contou Silva ao portal Esportelândia. Silva ganhou por 6/4 e 6/1, conforme bases de dados internacionais como o SteveGtennis. O próprio Silva, em entrevista ao Diário do Grande ABC em 2017, lembrou do placar com uma variação no segundo set (6/2), o que é compreensível para uma partida disputada duas décadas atrás.
O que nenhuma fonte questiona é que Djokovic perdeu. E que a vitória não aparece nos arquivos da ATP porque partidas de qualifying, por convenção, não integram o histórico oficial de head-to-head da entidade. A CNN Brasil confirmou nesta semana: a vitória de Silva "não é considerada uma partida oficial" para fins de retrospecto no circuito. O portal Olympics.com adotou o mesmo critério ao publicar o histórico de brasileiros contra Djokovic.
O retrospecto completo
Pelos critérios da ATP, Djokovic nunca perdeu para um brasileiro em chave principal. São 11 vitórias em 11 confrontos, conforme levantamento do TenisNews:
Roland Garros 2018: Djokovic 3x0 Rogério Dutra Silva (6/3, 6/4, 6/4).
Masters de Roma 2016: Djokovic 2x1 Thomaz Bellucci (0/6, 6/3, 6/2).
Masters de Paris 2015: Djokovic 2x0 Bellucci (7/5, 6/3).
US Open 2015: Djokovic 3x0 João Souza (6/1, 6/1, 6/1).
Masters de Montreal 2015: Djokovic 2x0 Bellucci (6/3, 7/6).
Masters de Roma 2015: Djokovic 2x1 Bellucci (5/7, 6/2, 6/3).
US Open 2012: Djokovic 3x0 Rogério Dutra Silva (6/2, 6/1, 6/2).
Masters de Madri 2011: Djokovic 2x1 Bellucci (4/6, 6/4, 6/1).
Masters de Roma 2010: Djokovic 2x0 Bellucci (6/4, 6/4).
ATP Lyon 2005: Djokovic 2x0 Ricardo Mello (7/6, 6/4).
Challenger Budapeste 2004: Djokovic 2x1 Francisco Costa (6/3, 0/6, 6/2).
Bellucci foi quem mais chegou perto de quebrar a sequência. Enfrentou o sérvio seis vezes e nunca venceu, mas deixou duas marcas no retrospecto: o 6/0 no primeiro set de Roma 2016, e a virada que sofreu em Madri 2011, quando vencia por 6/4 e 4/2 e acabou derrotado por 4/6, 6/4 e 6/1. Costa deu o outro pneu do retrospecto, no segundo set de Budapeste 2004, no mesmo torneio em que Djokovic ergueu seu primeiro título Challenger.
Há ainda um encontro anterior a tudo isso, fora do circuito adulto. Em 2004, Djokovic derrotou o brasileiro Bruno Rosa nas oitavas de final do Australian Open juvenil e avançou até a semifinal. Foi o único confronto do sérvio contra um brasileiro na carreira júnior.
Quem foi Júlio Silva
O paulista de Jundiaí profissionalizou-se em 1999 e construiu uma carreira consistente nos circuitos Challenger e Future. Atingiu o ranking de número 144 do mundo em novembro de 2009. Além de disputar a Copa Davis com as cores do Brasil e os qualificatórios para Wimbledon e o Australian Open, jogou as chaves principais de Roland Garros 2006 e US Open 2010. Venceu quatro títulos em nível Challenger e 16 Futures. Aposentado do circuito principal em 2013, trabalha atualmente como treinador em São Paulo.
No ano seguinte à vitória sobre Djokovic, Silva repetiu o feito contra outro futuro número 1: venceu Andy Murray, então com 18 anos, no Challenger de Nápoles em 2005, por 6/3 e 6/3. O padrão era o mesmo: Silva tinha talento para derrubar grandes nomes antes que se tornassem intocáveis.
"Foi muito prazeroso ter jogado com eles. Passo isso para os alunos, que sempre temos que respeitar os adversários", disse Silva ao Diário do Grande ABC.
Um pouco mais de história
Silva contou sobre sua vida e carreira no tênis ao jornalista Sylvio Bastos. Confira a entrevista, em duas partes:
O que Fonseca pode fazer que ninguém fez
A distinção importa. Se João Fonseca derrotar Djokovic nesta sexta-feira na Philippe Chatrier, ele não será apenas o segundo brasileiro a vencer o sérvio em algum contexto profissional. Será o primeiro a fazê-lo numa chave principal, o tipo de confronto que entra nos registros oficiais, no H2H da ATP e nos livros de história do tênis.
O jogo é o terceiro da programação da Philippe Chatrier, não antes das 10h30 (horário de Brasília), com transmissão pela ESPN e Disney+.
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