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Pelo segundo ano seguido, o mesmo torneio virou palco de cenas que envergonham o tênis

  • 11 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 12 de abr.

O britânico Toby Samuel venceu o austríaco Joel Schwaerzler em dois sets nas quartas de final do Challenger 75 de Madrid nesta sexta-feira. O placar exato não foi mencionado de propósito: ficou em segundo plano, antes mesmo do último ponto . Durante o confronto, Samuel abandonou a linha de fundo, caminhou em direção às arquibancadas e foi de frente com um grupo de espectadores que comemorava seus erros e celebrava os acertos do adversário, claramente movido por apostas. Os árbitros, por sua vez, chegaram a descer de suas cadeiras para tentar conter o público.


A cena viralizou nas redes sociais, e reacendeu um debate que o torneio teima em não resolver. Não foi a primeira vez na semana: na última terça, o jordaniano Abdullah Shelbayh teve de parar sua partida para pedir ao árbitro de cadeira que retirasse um grupo de torcedores que o insultava com xingamentos racistas e ameaças.


O Club de Campo Villa de Madrid, sede do torneio, tem cartazes espalhados pelo recinto: "Prohibido apostar. No gambling." Não adiantaram.


O que aconteceu com Shelbayh

Shelbayh entrou no quadro principal como lucky loser, depois de cair na segunda rodada do quali para o espanhol Oriol Roca Batalla. A primeira rodada colocou-o diante de Zsombor Piros, cabeça de chave 5. O jogo estava 3 a 0 para o húngaro no terceiro set quando o jordaniano, que havia vencido a parcial anterior, parou, se dirigiu ao árbitro de cadeira e pediu que expulsasse um dos provocadores.


Jovem jogando tênis com camisa rosa, rebatedor posicionado para golpear uma bola verde. Fundo escuro com letras claras e ação intensa.
Abdullah Shelbayh (Foto: Hamish Blair/Tennis Australia)

O grupo havia confundido a bandeira da Jordânia com a da Palestina, de cores iguais e muito semelhante, e passou a fazer referências e exaltar o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A polícia foi chamada ao clube. Um dos agressores foi detido. O torneio emitiu nota lamentando o ocorrido e ressaltou que "a segurança e o respeito pelos jogadores são prioridade absoluta". Shelbayh perdeu o jogo por 6/1, 2/6 e 6/1 e deixou a cidade. Este placar sim, mencionado, deve passar por reflex


Segundo o jornal espanhol Marca, os agressores eram, muito provavelmente, apostadores.

O episódio tem uma camada que vai além da violência em si. Shelbayh, de 22 anos, é o primeiro tenista jordaniano a conquistar um ranking ATP na história e carrega isso como missão. "A Jordânia não está no mapa do tênis de forma alguma, então talvez um dia esteja, e o esporte possa crescer por lá. Ons Jabeur fez isso, e Malek Jaziri também, antes dela", disse à Olympics.com, citando os atletas da Tunísia, árabes como ele, em entrevista publicada em janeiro de 2025, quando falava de sua candidatura a disputar os Jogos de Paris.


Samuel vai às arquibancadas

Na sexta-feira, o protagonismo passou para Toby Samuel. O britânico de 23 anos, que chegou a Madrid pela primeira vez no quadro principal de um torneio desta categoria, havia eliminado o colombiano Daniel Rincón na estreia e o grego Stefanos Sakellaridis na segunda rodada. Nas quartas, o adversário era Schwaerzler, austríaco de 20 anos e um dos jovens em ascensão no circuito Challenger.


Parte do público veio para apostar em Schwaerzler. Comemorava seus winners com euforia e reagia aos erros de Samuel como se fossem gols. Conforme compartilhado no X, o antigo Twitter, os árbitros desceram de suas cadeiras para chamar a atenção da plateia, e a organização monitorava e identificava os envolvidos. Samuel venceu em dois tiebreaks e, ao terminar, confrontou e zombou do grupo que havia torcido contra ele durante todo o jogo.



Samuel vive o melhor momento de sua carreira. Desde novembro de 2025, acumula quatro títulos de Challenger: Soma Bay Open (Egito), Manama Challenger (Bahrein) e dois consecutivos em Hersonissos, na Grécia, onde chegou a encadear 15 vitórias sem derrota. Seu ranking atual de número 169 é também o melhor da carreira, construído numa escalada de mais de mil posições em pouco mais de um ano.


O mesmo filme, um ano depois

O Challenger de Madrid já havia exibido cenas parecidas em 2025. Na semifinal daquela edição, o eslovaco Norbert Gombos foi alvo de vaias durante seus saques e gritos de euforia a cada erro seu: apostadores na arquibancada torcendo pelo placar que garantia seu dinheiro. O treinador de Gombos foi ao árbitro: "Você tem que dizer alguma coisa. Você ouviu o que aconteceu antes do saque?". Gombos perdeu no tiebreak do terceiro set contra o polonês Kamil Majchrzak e, ao terminar, subiu às arquibancadas. "Vocês estão felizes? Arruinaram o jogo. Não me importa com suas apostas", disse ao grupo.


Um ano depois, o mesmo torneio, o mesmo problema, agora com uma dimensão a mais: o racismo como instrumento de perturbação, seja ele deliberado ou produto da ignorância de quem apostou contra um jogador sem saber de qual país vinha.


Próximos compromissos

Neste sábado, Samuel caiu na semifinal contra Piros, parciais de 6/4, 3/6, 3/6. O mesmo húngaro que eliminou Shelbayh na primeira rodada. Espera na final o vencedor do confronto entre o chileno Nicolás Jarry e o austríaco Jurij Rodionov.



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