Quem é a catarinense Clara Coura e por que você deveria ficar de olho nesse talento juvenil do Brasil
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Clara Coura tem 14 anos, treina num clube de bairro e já fez uma tenista de 30 anos e ranking WTA top 700, batalhar 2h30 para superá-la num profissional. Não é pouco. É o começo de uma história.

O nome ainda não chegou ao público geral. Mas dentro do tênis juvenil sul-americano, Clara Coura, catarinense nascida em outubro de 2011, já é um assunto antigo. O circuito já fala como promessa a ser lapidada desde os 11 anos, quando viajou sozinha para a Flórida e venceu o Level 5 Open na Emilio Sanchez Academy, em Naples, sem perder um set. Isso foi em 2023. Desde lá, a lista de façanhas só vem crescendo.
Em fevereiro de 2025, Clara coroou sua campanha na gira Cosat Sul-Americana ao vencer o Banana Bowl, o torneio juvenil mais tradicional do continente, disputado no Clube Pinheiros, em São Paulo. Na final da categoria 14 anos, atropelou Gabriela Carvalho Bettoni por 6/0 e 6/4, encerrando a temporada sul-americana como campeã absoluta da sua categoria. O Banana Bowl, com mais de 55 edições, é o equivalente regional de um Grand Slam juvenil.
Já em agosto, a catarinense ganhou o ITF J60 de Villa María, na Argentina, com 13 anos. Venceu cinco adversárias argentinas seguidas, incluindo a cabeça de chave número 1 na final, sem perder um set em todo o torneio. Ela se tornou a tenista brasileira mais jovem desde Victória Barros a vencer um campeonato sub-18. E deu um salto gigante no ranking da ITF juvenil.
Um mês depois, voou para o Equador e repetiu a dose: campeã do J30 de Ambato pelo segundo torneio consecutivo. Na capital, disputou o J60 de Quito e foi até as semifinais, somando 13 vitórias seguidas numa sequência que a colocou definitivamente no radar do circuito global.
A estreia no profissional
Novembro de 2025. O Criciúma Open, um ITF W15, recebeu Clara Coura com um wild card. Ela tinha 14 anos e 20 dias.
Na primeira rodada, encarou a paranaense Daniela Teodoro Souza, de 18 anos, que havia furado o qualifying do torneio. Venceu por 6/2 e 6/3. Com isso, Clara se tornou a primeira sul-americana nascida em 2011 a pontuar no ranking da WTA, e a brasileira mais jovem a vencer uma partida profissional desde Bia Haddad Maia, que tinha 14 anos e apenas um dia quando fez o mesmo.
Na segunda rodada, encontrou Berta Bonardi, argentina de 30 anos número 622 do ranking, cabeça 2 do torneio. Perdeu por duplo 6/4. O placar frio, porém, conta menos do que o tempo: foram 2h26min de jogo. Uma mulher com 16 anos de experiência profissional precisou de quase duas horas e meia para superar uma menina que havia completado 14 anos há menos de um mês.
O Aurora Tênis, principal perfil de cobertura do tênis juvenil brasileiro no X, antigo Twitter, resumiu o que todo mundo pensava: "Excelente estreia no profissional".
O Orange Bowl
Em dezembro de 2025, Clara jogou o Orange Bowl, um dos torneios juvenis mais tradicionais do mundo, realizado em Fort Lauderdale. Trata-se de um ITF J500, o mesmo nível do Banana Bowl, portanto um evento que atrai as melhores juvenis do planeta na faixa sub-14.
Ela chegou às oitavas de final, vencendo Amina Nurmakhan por 6/1 e 7/5 na estreia. A presença dela, junto a Stephanie Pumar, Lara Hass e Eduarda Gomes, fez com que o Brasil tivesse quatro representantes nas oitavas da categoria sub-14, algo que não acontecia há 20 anos no torneio. Nas oitavas, encontrou a norte-americana Tanvi Pandey, e foi superada pela cabeça de chave número 3.
Mendoza, março de 2026
A campanha mais recente, e talvez a mais reveladora até agora, aconteceu nesta semana em Mendoza, Argentina, num ITF J100. Clara chegou à final, a primeira de J100 da carreira, sem perder sets em cinco partidas.
Ao longo da semana, eliminou a cabeça de chave número 1, Catalina Delmas Schaerer (#148 ITF, argentina, 17 anos), num jogo de três horas. Depois derrubou Camila Markus (#325), de quem havia perdido no ano anterior também na Argentina, numa espécie de revanche. Na semifinal, dominou a peruana Luciana Luna (#314) por 6/4 e 6/3.
A final foi contra a cabeça 4 Londyn McCord, americana de 16 anos e ranking 192, que também não havia perdido sets na semana. O Aurora Tênis alertou no X: "A Londyn tem ranking enganoso. Ela ficou um tempo sem jogar por lesão. No Banana Bowl ganhou set até da Vic Barros." McCord também venceu set da argentina de 18 anos Sol Ailin Larraya, outra grande promessa, top 15 do mundo e nascida em Tandil, a cidade de Del Potro.
A avaliação se confirmou. Clara perdeu por 6/3 e 6/0 numa final que foi acima do seu nível naquele dia, mas o vice lhe assegura 60 pontos a colocando próxima do top 350 da ITF.
O que ela é, e o que ela não é (ainda)
Clara Coura treina no Clube Paula Ramos, em Floripa, com o ex-tenista profissional Márcio Carlsson. Opera, portanto, com a estrutura disponível no sul do Brasil.
Isso importa quando se compara: Victória Barros, aos 14 anos, estava no top 86 do ranking juvenil e treinava em Nice com Patrick Mouratoglou. Nauhany Silva, aos 14, estava em torno do top 125-152, com suporte institucional desde cedo. Clara, aos 14 anos e 5 meses, está em torno do top 400, o que numa leitura superficial parece inferior, mas num contexto real é uma trajetória diferente, não menor.
Dentro da própria geração brasileira, o head-to-head já diz algo. Clara lidera o confronto direto com Eduarda Gomes por 6-1 e com Lara Hass por 5-2. Flavia Cherobim, a única que domina Clara no duelo, está 5-2.
"É até normal para quem não é da América do Sul. Mas a Clara ainda vai pegar um ranking muito melhor com 14 anos. Ela só tem 14 anos e 5 meses. Em setembro/outubro podemos fazer uma comparação com mais dados", tuitou o @aurora_tenisBR, ao ser questionado sobre comparações com Victória e Nauhany.
A própria Clara, após vencer o Brasil Juniors Cup na categoria 14 anos em Caxias do Sul, deixou claro o que move sua rotina: "A gira de torneios da Confederação Sul-Americana de Tênis é muito importante para a gente, porque dá a chance de jogar fora do Brasil e tentar ficar entre os melhores do ranking da América do Sul, que é um desafio grande para nós, jovens tenistas. Eu acho que cada torneio é uma oportunidade de crescer como pessoa e de ajudar na nossa formação como tenistas".
O que já é possível dizer com os dados disponíveis: ela é a 2ª melhor sul-americana nascida em 2011 no ranking Cosat, atrás somente de Eduarda Gomes. É a primeira da sua geração a vencer um jogo profissional no circuito WTA. É a primeira a chegar a uma final de J100. E, a partir do dia 15 de abril, vai jogar o Roland-Garros Junior Series em São Paulo, torneio que revelou João Fonseca em 2022.
O Roland-Garros Junior Series vai até o dia 19 de abril de 2026 na Sociedade Harmonia de Tênis, em São Paulo. A competição reúne 32 jogadores sub-17 da América Latina, com Del Potro, Sabatini e Larri Passos como embaixadores. A campeã e o campeão garantem vaga na chave juvenil de Roland-Garros em Paris.
Ficar de olho é o mínimo.
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