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Rybakina, a nova número 1 do mundo que a Rússia não quis bancar

há 2 dias
8 min de leitura

A cazaque Elena Rybakina bateu a chinesa Zheng Qinwen por 3/6, 6/1 e 6/4 nas quartas de final do US Open, em 2h14 de jogo na noite de quarta-feira, em Nova York, e cravou matematicamente a liderança do ranking mundial da WTA, que assume de forma oficial na próxima semana.


Elena Rybakina (Foto: Simon Bruty/USTA)
Elena Rybakina (Foto: Simon Bruty/USTA)

Aos 27 anos, ela se torna a 30ª número 1 da história desde a criação do ranking da WTA, em 1975, e a primeira tenista, entre homens e mulheres, a levar o Cazaquistão ao topo do tênis mundial. O feito encerra o reinado de Aryna Sabalenka, que ocupava o posto havia 99 semanas seguidas (107 no total, desde outubro de 2024). Rybakina também é a segunda jogadora mais velha a estrear na ponta da tabela, atrás apenas da alemã Angelique Kerber, que tinha 28 anos quando chegou lá.


"Já sabemos como as coisas podem mudar rápido nos rankings de tênis", disse Rybakina, sempre contida, ao comentar a conquista após vencer Zheng.


A virada que valeu o topo do mundo

Não foi um jogo de qualidade, mas a tensão justificava. Em sete participações anteriores no US Open, Rybakina jamais havia passado das oitavas de final, e chegou a esta edição em situação delicada: abandonou nas quartas de Cincinnati, no fim de agosto, por lesão no tornozelo esquerdo, virou dúvida para o torneio e só confirmou presença depois do sorteio de chaves, sem qualquer treino prévio. Ainda assim, avançou às quartas sem perder set, cedendo apenas 25 games em quatro rodadas.


Contra Zheng, o roteiro foi mais difícil. Depois de perder o primeiro set, Rybakina buscou duas quebras seguidas para igualar o duelo. O terceiro set foi dominado pelos saques até o nono game, quando Zheng desperdiçou uma chance de quebra em 4/3 e, na sequência, cometeu dupla falta para ceder o próprio serviço. Rybakina fechou a partida com um vencedor, depois de a chinesa mandar um forehand na rede. A cazaque converteu 3 de 13 break points, disparou cinco aces, venceu 80% dos pontos no primeiro serviço e 64% no segundo, liderou os winners (20 a 18) e cometeu um erro não forçado a menos (26 contra 27), fechando com 88 pontos ganhos contra 79.


"Coloquei para fora um pouco as emoções", contou Rybakina sobre a conversa que teve com o técnico Stefano Vukov ao fim do primeiro set, revertendo o início ruim.


A vitória ampliou o retrospecto da cazaque sobre Zheng para 5 a 1, com triunfos nos três confrontos desta temporada, dois deles também de virada (no piso sintético de Doha e no saibro de Madri). Zheng, ex-top 4 e hoje na 121ª colocação, precisou passar pelo qualifying, mas chegou embalada: campeã olímpica em Paris, ela havia salvado um match point e revertido um 5/0 no terceiro set contra Madison Keys, e repetido a virada diante de Iga Swiatek, desta vez logo no primeiro set. Com a campanha em Nova York, ela sobe da 121ª para a 52ª colocação provisória.


O troféu que faltava

Apelidada de "Rainha do Gelo" pela frieza nos momentos decisivos, Rybakina vive a melhor fase da carreira. Ela chega embalada pelo título do Australian Open, conquistado em janeiro, seu segundo Grand Slam depois de Wimbledon, em 2022, além do WTA 500 de Stuttgart, no saibro. Fechou 2025 invicta nas WTA Finals, com bolsa recorde de US$ 5,235 milhões, o maior prêmio já pago numa competição do tênis feminino até então, resultado que a colocou entre as dez atletas mais bem pagas do mundo em 2025, segundo o ranking da Forbes. Lidera o circuito em aces na temporada, com mais de 350, e soma 13 títulos e cerca de US$ 29,8 milhões em premiação na carreira.


Nem sempre a trajetória foi linear. A temporada de 2025 foi turbulenta: Rybakina passou por um período longe do seu melhor tênis em meio a uma investigação da WTA sobre a conduta do técnico Stefano Vukov, seu treinador desde 2019, e só recuperou o nível competitivo depois que a parceria foi retomada, ainda naquele ano. Pouco depois vieram os títulos do WTA Finals e do Australian Open, que deram início à corrida pelo número 1.


Problemas no ombro, na lombar e uma tendência à insônia também atrapalharam seu preparo físico em diversos momentos dos últimos anos: sem eles, é possível que a cazaque tivesse chegado ao topo do ranking bem antes.


Moscou, o Spartak e a federação que não apostou nela

Antes da raquete, vieram o colchonete e o gelo. Rybakina praticou ginástica artística e patinação ao lado da irmã, ainda na infância, até que a estatura acima da média pesasse contra o sonho olímpico: avaliadores da modalidade consideraram que ela não teria físico para seguir como profissional. A família separou os caminhos, uma seguiria o esporte, a outra não, e foi o pai, apaixonado por tênis e que havia tentado competir por conta própria aos 20 anos, quem sugeriu a troca de esporte. "Meu pai me apresentou ao tênis aos seis anos", recordou Rybakina, em entrevista à WTA.



Elena Rybakina nasceu em Moscou, em 17 de junho de 1999, e treinou na juventude no Clube Spartak, tradicional celeiro do tênis russo. Defendeu a Rússia até os 19 anos: oficializou a troca de nacionalidade esportiva para o Cazaquistão dias depois de completar a idade mínima exigida para o processo, ainda em 2018. Ela é a terceira tenista nascida na Rússia a chegar ao topo do ranking da WTA, depois de Maria Sharapova, em 2005, e Dinara Safina, em 2009. As duas, porém, jogavam sob a bandeira russa. Rybakina chega lá pelo Cazaquistão.


"Mudei minha cidadania para o Cazaquistão porque eles acreditaram em mim", afirmou Rybakina em entrevista à WTA, em 2020. A federação russa nunca ofereceu a ela o suporte que o Cazaquistão colocou na mesa: bolsa, estrutura de treino e um plano de carreira, o que evitou até uma possível ida ao circuito universitário norte-americano. As dificuldades financeiras da família, somadas à falta de apoio da federação de origem, pesaram na decisão: mesmo com os resultados em quadra, o pai chegou a insistir para que ela também cursasse uma faculdade, antes de a proposta cazaque mudar os planos.


A fábrica cazaque de tenistas

A história de Rybakina não é exceção, é regra. Desde que assumiu a Federação de Tênis do Cazaquistão, à beira da falência, em 2007, o bilionário Bulat Utemuratov já investiu mais de US$ 200 milhões na construção de 39 centros de treinamento com mais de 300 quadras espalhadas pelo país. O número de jogadores registrados saltou de menos de 2 mil, à época, para cerca de 30 mil atualmente.


Parte da estratégia sempre foi buscar talento russo desamparado pela própria federação de origem. Foi assim com Alexander Bublik, que trocou a Rússia pelo Cazaquistão em 2016 e segue como o principal nome do tênis masculino do país. "Ser um jogador que representa o Cazaquistão nos palcos mundiais é um prazer para mim", disse Bublik.


O primeiro a migrar tinha sido Mikhail Kukushkin, ainda em 2008. "Infelizmente, na Rússia, ninguém tinha interesse em mim", contou o hoje veterano do circuito ao jornal britânico The Guardian. Depois vieram Yaroslava Shvedova, Andrey Golubev, Yulia Putintseva e Alexander Shevchenko, entre outros. Em 2022, o então vice-presidente da federação cazaque, Yuriy Polskiy, revelou que mais de 30 tenistas russos, a maioria juniores, haviam pedido cidadania cazaque naquele ano.


Por trás do garimpo, existe uma engrenagem. Uma equipe de 32 funcionários na sede da federação, em Astana, mantém contato permanente com treinadores de todas as regiões do país para mapear talentos promissores.


Baixar o preço do aluguel de quadra de US$ 50 para US$ 10 por hora, desde 2007, e formar cerca de 300 técnicos e 500 instrutores completam a estrutura que sustenta tanto a base local quanto as naturalizações. "Meu principal objetivo era criar uma infraestrutura de tênis moderna e acessível", afirmou Utemuratov ao veículo americano.


"Aluguel de russo": o time que abriu caminho antes de Rybakina

A estratégia não nasceu com Rybakina, nem terminou nela. A frequência com que o Cazaquistão repete a fórmula levou a imprensa internacional, incluindo a agência francesa AFP, a batizar o movimento de rent-a-Russian, algo como "aluguel de russo": trocar o passaporte esportivo pelo cazaque em busca da estrutura que a federação de origem não oferecia.


Yaroslava Shvedova, nascida em Moscou em 1987, assumiu a bandeira cazaque no mesmo ano de Kukushkin e chegou ao topo do tênis do país antes de Rybakina: campeã de duplas em Wimbledon e no US Open, ambos em 2010, alcançou o 25º lugar do ranking de simples e, em 2016, tornou-se a primeira cazaque a avançar às oitavas de final do US Open, marca que só Rybakina superaria, justamente nesta edição de 2026.


(Foto: BJK Cup)
(Foto: BJK Cup)

Andrey Golubev, nascido em Volzhsky, na Rússia, também naturalizado em 2008, deu ao país, dois anos depois, seu primeiro título de nível ATP na Era Aberta, no ATP 500 de Hamburgo. Yulia Putintseva, nascida em Moscou em 1995, é outro nome de peso da lista: três vezes nas quartas de final de Grand Slams, chegou ao 20º lugar do ranking em janeiro de 2025. Completa o grupo Aleksandr Nedovyesov, nascido na Crimeia, que já havia defendido a Ucrânia na Copa Davis antes de assumir as cores do Cazaquistão em 2014, o mesmo ano em que a península foi anexada pela Rússia.


Nem toda cazaque de destaque veio de fora. Zarina Diyas, nascida em Almaty, é lembrada como a primeira grande tenista formada dentro do próprio país, sem troca de bandeira: chegou ao 31º lugar do ranking mundial em 2015 e venceu o WTA de Tóquio em 2017, antes de se aposentar. A convivência dos dois modelos, importação e formação local, ainda divide opiniões sobre o que conta como conquista genuinamente cazaque.


No caso específico de Rybakina, a pesquisadora Catherine Ordway, da Universidade de Camberra, especialista em integridade esportiva, apontou que a troca foi feita de forma legítima e muito antes da guerra na Ucrânia, bem como da decisão de Wimbledon de banir tenistas russos e bielorrussos em 2022.


Astana comemora a marca inédita

A confirmação do número 1 provocou reação imediata em Astana. Utemuratov chamou o dia de "histórico", e disse que a trajetória de Rybakina vai inspirar a nova geração de tenistas do país. O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, também parabenizou a tenista publicamente, destacando a "fé inabalável" da atleta.



Em entrevista coletiva, Rybakina fez questão de dividir o mérito com quem apostou nela quando ninguém mais o fez. "Tenho muito orgulho de representar o Cazaquistão", disse a tenista, lembrando que, toda vez que volta ao país, vê cada vez mais crianças nas quadras: para ela, a cena mostra que tudo é possível quando se acredita e se trabalha duro.


Próximos compromissos

A rival de Rybakina na semifinal desta quinta já está definida. Coco Gauff, campeã de 2023, salvou dois match points e repetiu sobre Mirra Andreeva a virada que já havia aplicado em Roma, vencendo por 2/6, 7/6(7) e 6/2, mesmo cometendo 12 duplas faltas. A norte-americana disse ter se inspirado na reação de Frances Tiafoe na véspera, que também saiu de um início ruim para vencer de virada. Agora, no confronto direto contra a russa, o placar mostra 6 a 0 para Gauff.


Com as duas vitórias, a semifinal feminina reunirá pela primeira vez as quatro líderes do ranking desde Wimbledon de 2009, e no US Open isso não acontecia desde 1975. Sabalenka e Jessica Pegula abrem a rodada, repetindo a final de 2024 e a semifinal do ano passado, com a bielorrussa favorita nas duas ocasiões.


Rybakina e Gauff têm retrospecto equilibrado, 1 a 1, com a vitória mais recente da cazaque na semifinal de Toronto, neste ano. Uma vitória levaria Rybakina à sua primeira final de US Open, o único Grand Slam que ainda falta em sua coleção.




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